À sombra de tua cruz...

Olhando o mundo, vejo-o como um grande palco ensombrado de milhares, de milhões de cruzes. Contemplo cruzes de todos os tamanhos e feitios, refletindo as situações dos que as carregam. São cruzes dos sofrimentos diários: doenças, contratempos, penúria, desânimos, canseiras sem fim, padecimentos interiores, dúvidas, desencontros, quedas ou escorregões… Há os que se queixam ou, até, revoltam diante do peso da Cruz. Há os que as aceitam com santa resignação.

Ao contemplar essas cruzes, quase podemos ouvir o murmurar das preces ou os gritos de revolta, o olhar de aceitação, os olhos fechados em sofrimento indizível. Cada olhar é uma prece. A cruz é carregada em silêncio absoluto e apenas o bater do coração marca o ritmo dos passos daqueles que a suportam. A cruz é um mistério!…

O próprio Cristo, ao preparar os Apóstolos para o mistério central de sua Páscoa, os exorta: “Quem não tomar a sua cruz, cada dia, e me seguir, não poderá ser o meu discípulo” (Lc 14,27). O termo grego desta passagem não diz que é proibido seguir, mas que não terá forças para seguir o Senhor.

De qualquer forma, essas palavras causaram um grande escândalo para eles. Na mente dos ouvintes estava a aparentemente cruel afirmativa do Deuteronômio: “Maldito o que foi suspenso no madeiro” (Dt 21,23). Como não revoltar-se ou, pelo menos, colocar em questionamento essas palavras de Jesus: Quem não tomar a sua cruz… não poderá estar na minha escola, em meu seguimento?

A cruz é uma realidade do dia-a-dia e, apesar disso, nos parece como uma contradição radical, uma espécie de falta de lógica dentro da existência humana que converge, toda ela, para o ser, o realizar-se, o gozo sadio da vida. A cruz é contradição dentro dessa busca de vida. No entanto, se bem analisarmos, a própria busca é muitas vezes um elemento crucial porque envolve incertezas e angústias, decepções e negativas, necessidade de perseverança e força para um recomeçar incessante.

No realismo do mistério de Cristo, da sua vida, da sua entrega ao Pai por amor de nós, de sua ressurreição, a cruz desponta como sinal efetivo de vitória, de triunfo sobre as contradições do ódio, de vingança e das mil invejas de seus opositores: “Ao terceiro dia há de ressuscitar” (Mc 9, 30; Lc 18,22), afirma o divino Mestre.

Quando tudo parece terminado; quando as sombras recobrem a terra como triunfo do mal (cf. Mt 27, 45); quando as multidões, arrependidas descem do Calvário (Lc 23, 48); quando a prepotência dos governadores lacra a sepultura de “Jesus Nazareno Rei dos Judeus” (cf. Mt 17,66)… exatamente nessa hora começam a “jorrar as águas da salvação”, anunciadas e ansiosamente esperadas pelos Profetas (Cf. Is 12,3; Zc 12,13).

É aqui o momento e o lugar central da história: enquanto o mundo gira, a cruz permanece firme (“Stat crux dum volvitur orbis”), diz o dístico dos monges cartuxos, criado por São Bruno.

Cristo tudo fez para preparar seus seguidores para “aquela hora”, a sua hora. Eles, porém, não conseguiram entender e, menos ainda, aceitar (Mc 9,30-32). Soou a hora e foi a hora suprema do amor de Deus pela humanidade, a hora convergente do convite de Cristo: “Vinde a mim vós todos… Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”(Mt 11,28; Jo 12,32).

“Vós todos que estais fatigados sob o peso do fardo”, diz Jesus ao convidá-los para ir até ele. Um fardo que normalmente se define por cruz, que salva; uma cruz que se transforma em fardo, dificilmente salvará, segundo opinião comum.

Por isso, a atitude de buscar o Cristo, mesmo sob o peso das dificuldades, já é um grande sinal de salvação e de repouso. Aquilo que as profecias anunciavam e que Jesus claramente declarou: atrairei todos a mim, vai bem além do que uma simples contemplação do seu sofrimento. Jesus revela claramente a paixão da cruz.

Uma cruz que deve atrair. Ele mesmo na cruz será a atração daqueles que o seguem. Em Apocalipse 20, entendemos esta figura: todos os que passaram pela tribulação, que perseveram no sofrimento, que foram decapitados, sentar-se-ão em tronos de glória.

Depois que o manso Cordeiro de Deus foi imolado na cruz, não podemos deixar de olhar para Ele e ver, de seu lado aberto, jorrarem todos os benefícios, as graças da redenção e da vida: “Vão ter que olhar para Aquele que traspassaram” (Jo 19,37).

Seu Sangue, de preço infinito, cai sobre todos nós, sobre a Igreja, sobre a humanidade pecadora como o bálsamo da misericórdia divina que nos lava, purifica e transforma.

Nenhum cristão, depois daquela hora, pode passar indiferente diante da cruz do Senhor, prescindir dela… Ela nos acompanha – como sombra benéfica – desde o nascimento para a vida divina (pelo Batismo) até a sua consumação pela santa morte. O primeiro e o último sinal do cristão é a cruz e os cemitérios nos relembram, que lá estão irmãos e irmãs “que dormem à sombra da eterna cruz” (Lamartine).

Para quem procura adentrar um pouco mais os mistérios da sua fé, há de concordar com São Paulo, o Doutor inigualável do mistério central do Cristo: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado e eu para o mundo” (Gl 6,14).

Nas igrejas do mundo inteiro, das grandes basílicas e catedrais às mais humildes e longínquas capelas, no alto de suas torres e sobre seus altares, está a cruz com o Cristo. Lembra a cada um que o ponto mais alto de sua fé está além dela, mas não é possível atingir sem passar por ela.

A cruz brilha em muitos colos e lapelas, em ouro e prata, em pedras preciosas e esmaltes finos. Hoje é até mesmo uma jóia que se usa com devoção. Porém, mesmo que brilhe na preciosidade do metal ou nos campanários mais altos, ela continua fazendo-nos lembrar que Jesus verteu todo o seu sangue por amor a cada um de nós em uma cruz.

Mesmo nos sepulcros é esculpida em mármore fino ou fundida em bronze dourado. Quer recordar o Calvário, onde a crença afirmava que ali, aos pés da cruz, estava o crânio de Adão. De qualquer modo, ela não traz mais a crueldade sanguinolenta de uma realidade atroz. Recordando o primeiro homem, faz-nos meditar que a morte é o preço daquele pecado que a Cruz de Cristo veio salvar completamente.

A cruz será sempre, como sempre foi, estímulo e encorajamento para todos os que sofrem; escola de generosidade para os que não titubeiam diante do sacrifício e, mesmo, do martírio; será a garantia da vitória final de todos os que colocam Cristo como supremo ideal, sabendo “que completam na sua carne o que falta à Paixão de Cristo” (Cl 1,24).

Dom Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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