A janela Vaticano 3

À primeira vista o título pode levar os irmãos a pensarem em um engano, um equívoco do autor com um inexistente Concílio ecumênico, mas não se trata disto.

Essa expressão foi proferida por um homem extraordinariamente comum e muito especial, investido de uma missão, peregrino em uma jornada memorável de quase três décadas.. Destes anos todos (poucos para muitos de nós) os últimos dez anos o levaram ao que ele designou, em 1996, como “a janela do Vaticano 3”, a “finestra” (janela) da Policlínica Gemelli em Roma.

O paciente, o saudoso Papa João Paulo II, o homem, líder, do Novo Milênio.

Segundo Sua Santidade a janela no. 1 estava na Praça São Pedro de onde ele abençoava o povo e o mundo e a janela no. 2 localizava-se no Castelo Gandolfo, o local de seu descanso anual no campo. Em diversas ocasiões os olhares dos fiéis em Roma e do mundo se dirigiam àquela abertura no décimo andar do Gemelli, o grande hospital católico. Preocupado e ocupado na oração, o povo compartilhava com o admirável servo de Deus os seus momentos de sofrimento e dor desde o cruel atentado do dia 13 de maio de 1981.

Os médicos e enfermeiros se preparavam, prelados e autoridades se reuniam pelos corredores enquanto, do Céu, uma Senhora, a Mãe de Deus, estendia seu Manto sobre o servo que a adotara… Totus Tuus.

Da janela Vaticano 1 o nosso “paizinho espiritual,” no Natal de 1996, se dirigiu aos fiéis postados sob o frio da Praça de S. Pedro e após ser obrigado a interromper a sua benção e refazer suas forças disse bem humorado :

– Até o Papa tem as suas fraquezas… mas procura resistir!

Ao hospital que o acolhia e onde os profissionais da medicina carinhosamente zelavam por sua saúde, ele – da janela Vaticano 3 – certa vez se referiu àquele lugar como “santuário da esperança”. Deus permitia seu sofrimento para que ele partilhasse com os enfermos desse hospital, e os do mundo inteiro, a Mensagem de fé, esperança e caridade dAquele que assumiu nossas dores tomando sobre si os nossos pecados (cf. Is 53, 12c).

Pertinaz, resoluto, ousado, infatigável, obstinado, sábio. Todo e qualquer adjetivo que possamos usar se mostram limitados para qualificar esse servo fiel, exceto um: escolhido.

As enfermidades não impediram ao arquiteto-peregrino edificar a Paz, pedra a pedra, tijolo por tijolo. Como a pequenina aranha tecendo sua teia numa grande árvore, João Paulo II estendeu sobre o mundo a tênue e tenaz “teia” do diálogo e a concórdia entre as nações e entre os homens, envolvendo nações e povos nos continentes pobres e ricos. Esta teia tecida no Amor ao próximo, frágil e vibrante fio de esperança, fez tremer, abalou e demoliu um consistente muro criado pela arrogância e assim se abriu uma luminosa janela de liberdade para a Europa e para o mundo.

Corações em todos os cantos do mundo inquietavam-se quando, em público, fatigado o Papa se apoiava em seu báculo. Podíamos sentir que nesses momentos ele se debruçava sobre o peito e o Coração de Jesus na Cruz que encimava o seu cajado de Pastor universal. Nessas ocasiões se cumpria o que o rei Davi salmodiava “O Senhor é meu pastor … restaura as forças de minha alma” (Sl 22/23, 1;3); e na contingência de seus silêncios o Pontífice fez incontáveis e inefáveis pregações.

A exemplo do Cristo ele experimentou as dores mas familiarizou-se com o seu sublime calvário diário. Carregou a cruz de sua responsabilidade sem vacilar mesmo quando as dores das enfermidades e da incompreensão, tentavam sufocar seu espírito. O Espírito de Deus, O Consolador, o sustentava a cada passo, ainda que caminhasse lento e inseguro. Seu corpo vacilava mas sua alma se mantinha altiva e serena.

O saudoso irmão e pai, João Paulo II, em suas dores e agonia final comprovou as palavras de Santo Agostinho “Por isso te digo, ó minha alma, que és superior ao corpo, porque vivificas a matéria do teu corpo, dando-lhe vida, o que nenhum corpo pode fazer a outro corpo. Além disso, o teu Deus é também para ti vida da tua vida” (Confissões, Livro X, 6).

O profeta Daniel em seu quarto orava e louvava a Deus diante de janelas voltadas para Jerusalém (Dn 6,11b). Hoje, da janela número 4 na Jerusalém celeste onde não há lágrimas, nem luto, nem dor – merecido lugar por sua fidelidade ao Senhor, à Igreja, ao seu rebanho e às ovelhas extraviadas – João Paulo II acena sorridente e nos abençoa sob o olhar misericordioso do Pai, nosso Deus Criador, com o Filho e o Espírito Santo.

Depois deste saudoso e amado pastor o mundo não será mais o mesmo. Será melhor… muito melhor.

Glória a Deus!

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