fé em atos

Traga o contexto bíblico para a sua vida diária

É preciso que a leitura e a reflexão dos textos bíblicos gerem frutos na nossa vida. Para isso, devemos buscar a aplicação dos ensinamentos de Jesus Cristo cientes de que são épocas e sociedades diferentes, mas o caminho da salvação não mudou. Assim, uma vez compreendida em profundidade a lição, é hora da ação. São questões importantes: o que mudou da realidade social da época de Jesus para a qual vivo hoje? Qual ensinamento é preciso ser relembrado? Como posso transmitir essa lição? Para demonstrar a importância dessas reflexões, vamos analisar a passagem da purificação do templo, que de tão significante, é relatada pelos quatro evangelistas, mas até hoje gera muitas dúvidas e interpretações erradas.

A passagem da purificação do templo pode ser lida em Mt 21,12-17; Mc 11,15-19; Lc 19,45-48 e Jo 2,13-22. É narrado que Jesus expulsa do templo aqueles que ali vendiam e compravam, transformando aquele local de oração em um “antro de ladrões”. Mateus e Marcos falam, especificamente, dos vendedores de pombas. João cita também ovelhas e bois. Esses animais são importantes, porque representam as oferendas que eram entregues nos templos. Lembremo-nos de Maria e José que cumpriram o rito de purificação ao apresentar no templo “um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2,24), a oferenda dos pobres (Lv 12,8). Já para os que tinham melhores condições, a oferenda deveria ser de um cordeiro de um ano como holocausto e um pombinho ou uma rola como sacrifício (Lv 12,6).

Traga o contexto bíblico para a sua vida diária

Foto ilustrativa: andreswd by Getty Images

Os ensinamentos de Jesus e a nossa vida diária

Entende-se que aqueles vendedores e compradores que Jesus expulsou do templo estavam subvertendo o rito de purificação em um mercado de animais, pois quem não comprava ali não poderia cumprir com a lei. Além disso, havia o preceito de que não se apresentasse no templo “com as mãos vazias” (Ex 23,15). Assim, o que, de início, poderia servir para facilitar o cumprimento dos preceitos, corrompeu-se, conferindo às mercadorias um valor maior do que a fé e a oração. Daí a importância da ação de Jesus, que expulsou dali aqueles que maculavam o templo sagrado e impediam os fiéis de fazer suas orações sem que antes comprassem. Os preceitos então foram transformados pela tentação e ganância.

Com uma compreensão mais clara do contexto da passagem, é preciso trazer a lição para nossa realidade, o que faremos em dois pontos. Primeiro, o verdadeiro cristão não deve ir à igreja apenas para cumprimento do preceito. É importante participar da Santa Missa todos os domingos, mas é preciso observar para que seja uma participação sincera, e não uma presença superficial. Ir à missa, porque devo ir, enquanto trato com desprezo o irmão, falto com a caridade e não faço boas obras, é como desgastar a vida cristã com aparência mundana. Estejamos atentos: ir à missa, celebrar os sacramentos e participar de pastorais sem viver os ensinamentos de Cristo fora da Igreja é hipocrisia, mero cumprimento de preceitos, como daqueles que compravam sacrifícios para apresentar no templo e de lá foram expulsos.

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O outro ponto: e os vendedores? A ganância corrompeu o que, de início, seria um ato que facilitaria a vida do irmão. Se antes os vendedores visavam facilitar o acesso daqueles que desejam prestar o sacrifício, acabaram por se tornar gananciosos exploradores. Eles impediam que os fiéis entrassem no templo sem comprar suas mercadorias, usando dos preceitos e da Sagrada Escritura para constranger e intimidar. Nos dias atuais, devemos nos atentar para que o mesmo não ocorra em nossas paróquias. Vivemos em um mundo capitalista, que impõe um valor a toda atividade, e assim também é com os templos religiosos, que devem arcar com os custos de suas atividades, “pois, a César o que é de César” (Mt 22,21). É importante, contudo, evitar excessos. No que pudermos ajudar na manutenção das paróquias, façamos por caridade e fé, mas não por imposição nem constrangimento. E aos que não têm mínimas condições, que seja concedida a gratuidade, em especial para a celebração dos sacramentos, que comumente têm uma taxa.

Comércio de artigos religiosos e atos de fé

Portanto, o comércio de Bíblias, terços e outros artigos religiosos não é o que causou a expulsão dos vendedores e compradores na purificação do templo, tampouco é um ato condenável por si só nos dias atuais. Na verdade, o que devemos nos atentar é para que o pagamento ou a compra não seja impedimento para realização de atos de fé, como participação nas missas, orações na igreja, atuação em pastorais e, especialmente, celebração de sacramentos. É inegável que as paróquias têm custos de manutenção e, aos que puderem auxiliar, surge a obrigação. Por outro lado, aqueles que vivem em condição de miséria, que não lhes seja privado também a fé.

Devemos vigiar para que nossas ações não sejam mero cumprimento superficial de preceitos e para que nossas paróquias não se tornem onerosas para os fiéis. Que nossas obras sejam boas e deem frutos. Que nossas paróquias sejam acolhedoras com os mais necessitados. Tenhamos no coração a lembrança de sempre buscar o Reino de Deus e o mais nos será acrescentado (Mt 6,33). Sejamos honestos em nossas ações e caridosos com os irmãos. Que todo o templo seja purificado e livre de superficialidade e hipocrisia. Que assim seja!

Referências:

BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB, 18 ed. Editora Canção Nova.
BENTO XVI. Homilia durante a XXIII Jornada Mundial da Juventude. Vaticano, 16 mar. 2008.
FRANCISCO. Homilia. Roma, 7 mar. 2015.
FRANCISCO. Meditações Matutinas. 24 nov. 2017.


Luis Gustavo Conde

Catequista atuante na evangelização de jovens e adultos. Palestrante focado na doutrina cristã. Advogado com atuação na área de Direito de Família e Direito Bancário. Tecnólogo em Gestão Empresarial. Professor de cursos técnicos-profissionalizantes.
Instagram: @luisguconde Contato: luisguconde@gmail.com

 

 

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