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Desconfiança é proteção: um guia antigolpe

Conscientizar e não impor medo: desconfiar de intenções duvidosas é uma forma de proteção

O envelhecimento da população brasileira é uma conquista social. Vivemos mais, participamos ativamente da sociedade e seguimos tomando decisões importantes sobre nossa vida, nosso patrimônio e nossa família. No entanto, junto com esse avanço, surge uma preocupação crescente: o aumento dos golpes direcionados à população idosa.

Infelizmente, pessoas idosas têm sido alvos frequentes de fraudes financeiras, golpes virtuais, assinaturas indevidas de documentos, falsas ofertas de ajuda e até promessas enganosas de doações ou benefícios.

Créditos: Arquivo CN.

Entre os golpes mais recorrentes estão os empréstimos consignados não contratados ou com valores superiores ao acordado, refinanciamentos feitos sem autorização e a inclusão de seguros e tarifas desconhecidas. Muitos aposentados só percebem o problema quando o valor do benefício já está comprometido por descontos excessivos, dificultando sua subsistência.

Diante desse cenário, desconfiar não é um sinal de fraqueza, mas de proteção. E a família tem um papel fundamental nesse processo, orientando sem gerar medo, pânico ou sensação de incapacidade.

Por que os idosos são mais visados pelos golpistas?

Os golpistas costumam explorar três fatores principais:

  1. Confiança excessiva, construída ao longo de uma vida em que a palavra tinha grande valor;
  2.  Menor familiaridade com tecnologias digitais, como aplicativos bancários, links, biometria e assinaturas eletrônicas;
  3.  Medo de perder benefícios, como aposentadoria, pensão ou acesso a serviços essenciais. Esses criminosos se apresentam, muitas vezes, como funcionários de bancos, órgãos públicos, como o INSS, advogados, instituições beneficentes ou até conhecidos, criando histórias convincentes e urgentes para confundir e pressionar a pessoa idosa.

A importância da orientação familiar sem causar medo

Um dos maiores erros no combate aos golpes é abordar a pessoa idosa com tom de ameaça ou pânico, dizendo frases como: “Você pode perder tudo” ou “Estão enganando idosos o tempo todo”. Esse tipo de discurso pode gerar insegurança, vergonha e até isolamento.

A orientação deve ser pedagógica, respeitosa e contínua. A pessoa idosa não deve se sentir incapaz, mas sim fortalecida e informada. O ideal é que a família converse de forma tranquila, explique situações comuns de golpe e mostre que pedir ajuda é um ato de sabedoria, não de fraqueza.

Internet e celular: atenção redobrada

A internet trouxe muitos benefícios, mas também riscos. É importante orientar os idosos a:

Não clicar em links recebidos por WhatsApp, SMS ou e-mail, mesmo que pareçam oficiais; Desconfiar de mensagens com tom de urgência, como bloqueio de benefício, necessidade de atualização de dados ou promessa de valores inesperados;

Nunca informar senhas, códigos recebidos por SMS, dados bancários ou documentos pessoais por telefone ou mensagem.

A família pode ajudar configurando o celular, explicando passo a passo como identificar mensagens suspeitas e deixando claro que nenhum banco ou órgão público solicita informações sensíveis por esses meios.

Biometria e assinatura de documentos: cuidado essencial

Outro ponto sensível envolve o uso de biometria, assinatura física ou digital. Muitos golpes acontecem quando o idoso assina documentos sem compreender totalmente o conteúdo ou fornece biometria acreditando tratar-se de algo simples.

É fundamental reforçar que:

Nenhum documento deve ser assinado sem leitura completa e explicação clara;

* Biometria é como uma assinatura pessoal e não deve ser fornecida a terceiros, especialmente fora de bancos ou órgãos oficiais;
* Sempre que possível, um familiar ou pessoa de confiança deve acompanhar contratos, empréstimos ou alterações cadastrais.

Pessoas oferecendo ajuda ou doações: nem tudo é bondade!

Golpistas também se aproveitam da empatia e da boa-fé das pessoas idosas, oferecendo ajuda para resolver problemas, liberar benefícios ou até realizar doações para causas sociais. Nessas situações, a orientação é simples: ajuda verdadeira não exige pagamento antecipado, dados pessoais ou pressa.

Explique ao idoso que é válido agradecer, recusar educadamente e verificar com a família antes de aceitar qualquer proposta. Criar esse hábito é uma forma eficaz de proteção.

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Desconfiar é um ato de cuidado

Ensinar o idoso a desconfiar não significa torná-lo medroso, mas sim consciente. A desconfiança saudável protege, preserva a autonomia e evita prejuízos emocionais e financeiros.

A família deve estar presente, disponível para ouvir e orientar, criando um ambiente de confiança. Quando a pessoa idosa sabe que pode perguntar, confirmar e pedir ajuda sem julgamentos, o risco de golpes diminui consideravelmente.

Em tempos de tantas armadilhas, informação, diálogo e afeto são as melhores defesas. Proteger a melhor idade é uma responsabilidade coletiva, construída com respeito, paciência e educação contínua.

Juliana Pimentel Miranda dos Santos
Advogada especialista em direito previdenciário e bancário
OAB/ES 13.286
@julianapimentel.adv