A devoção a Nossa Senhora Aparecida
Aparecida é a máxima invocação mariana do Brasil. Mais de 11 milhões de peregrinos anualmente visitam a Virgem Negra, encontrada nas águas barrentas do rio Paraíba do Sul há mais de 300 anos. Também por isso, Aparecida está entre os maiores e mais importantes santuários marianos do mundo. Situado no Estado de São Paulo, o santuário não tem origem numa aparição propriamente dita, mas no encontro de uma imagem.

Foto Ilustrativa: Arquivo Canção Nova /cancaonova.com
A mariofania que envolve a história, o culto e a devoção a Aparecida não está associada a nenhum tipo de visão ou de revelação sobrenatural. Também não estão presentes relatos de videntes ou de visionários. Em Aparecida, a revelação de Deus é sinônimo de encontro.
Nossa Senhora de Aparecida é o espelho da ternura de Deus que caminha e abraça cada filho e transforma a nossa realidade social. Ela é a mais bela inspiração para o nosso compromisso com a justiça e com a fraternidade.
Olhar para a Virgem de Aparecida é compreender que a verdadeira devoção mariana nos impulsiona a ajudar a erguer uns aos outros e anunciar, com a própria vida, o Evangelho.
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A pesca milagrosa
As circunstâncias do encontro da imagem foram narradas 40 anos depois, pelo padre João de Morais e Aguiar. O 1° Livro Tombo da paróquia Santo Antônio de Guaratinguetá registra o episódio que marcou a vida de 3 pobres pescadores que encontraram a imagem quebrada numa rede de arrasto, durante a faina da pesca.
O dia exato do encontro da imagem é difícil de precisar. Entre os dias 17 a 30 de outubro de 1717, passaram por Guaratinguetá o Conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida e Portugal, governador das Capitanias de São Paulo e Minas Gerais. A caminho de Ouro Preto e precisando de provisões para a longa viagem, mandou todos os pescadores buscarem todo peixe que pudessem.
Saíram rio acima João Alves, Domingos Garcia e Filipe Pedroso. Chegaram até o Porto Itaguaçu, sem nada pescar. À tarde, depois de uma prece, lançaram a rede mais acima: retiraram o corpo de uma imagem e, mais abaixo, a cabeça da mesma imagem, o que levou à sua designação como “Aparecida”. Em seguida, pescaram tanto peixe que logo puderam voltar.
Foi João Alves que achou a imagem. Filipe Pedroso guardou a santa em sua casa durante 15 anos, entregando-a a seu filho Atanásio, em cuja choupana, transformada numa capelinha, aconteceu o milagre das velas, com Silvana da Rocha. Em 1743, Dom Frei João da Cruz, então bispo do Rio de Janeiro, permitiu o culto público e a construção de uma capela de taipa de pilão, no Morro dos Coqueiros.
A pequena imagem de terracota é negra por causa da ação do tempo, da água do rio e pela fumaça de velas e tochas. Mede 37 centímetros de altura, de mãos postas em oração e de rosto compassivo. Representa Nossa Senhora da Conceição, revestida de manto azul e coroa. São célebres os prodígios do escravo libertado, da ceguinha curada, do caçador que se salvou de uma onça, da criança que se livrou de se afogar.
Despertar a fé, promover esperança e anunciar o Evangelho
A devoção era mais popular que clerical e começou na vila dos pescadores, que se reuniam ao redor da santa para rezar o terço e cantar ladainhas. Com o aumento das visitas dos romeiros, das esmolas, logo se pensava numa capela maior. Começaram a vir peregrinos de longe, tropeiros, carros de boi e cavaleiros que iam e vinham pela estrada que ia de São Paulo ao Rio de Janeiro e Minas Gerais, até que se construiu a atual igreja histórica em 1888.
A 28 de outubro de 1894, a convite de Dom Joaquim Arcoverde, então bispo de São Paulo, os missionários redentoristas chegaram, vindos da Alemanha, tornando-se guardiões da imagem. Desde então, a administração e a pastoral estão confiadas à Congregação do Santíssimo Redentor. No dia 8 de setembro de 1904, com aprovação do Papa Pio X, a Virgem Negra de Aparecida recebeu a Coroa de Rainha do Brasil. As crônicas da missão bávaro-brasileira destacam que a festa projetou o Santuário para todo o Brasil.
A vocação do Santuário é despertar a fé, promover esperança e anunciar o Evangelho, especialmente aos que mais necessitam. A pregação explícita da Palavra de Deus, a promoção da cidadania por meio de inúmeras obras de educação e de assistência social, as expressões de fé e de piedade popular, o trabalho pastoral de equipe e a vivência sacramental, formam o conjunto do projeto evangelizador do Santuário Nacional.
Como todo centro de peregrinação, Aparecida é um lugar de esperança e espiritualidade. O objetivo é acolher os peregrinos e enviá-los em missão. As prioridades pastorais do Santuário se constroem por meio do acolhimento e da evangelização. Mais do que um mero slogan, “Acolher bem é evangelizar” são eixos que orientam a ação pastoral.
Em sintonia com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, a ênfase pastoral oferece aos romeiros a oportunidade de uma profunda e decisiva experiência de Deus. Em sua Casa, com a Mãe, procura-se centrar a fé em seu Filho Jesus, o Salvador que, na força do Espírito, indica o caminho do Pai.
A solidez da devoção mariana cultivada em todos esses anos demonstrou-se no ano de 1978, quando a imagem original foi quase de todo destruída num atentado. Apesar de o fato ter sido amplamente divulgado, as visitas ao santuário e o culto à Mãe de Jesus continuaram inalterados.
Padre Eduardo Catalfo, C.Ss.R.
Reitor do Santuário Nacional de Aparecida






