🙏 DEVOÇÃO

Nossa Senhora Aparecida: das redes vazias ao milagre da fé

A devoção a Nossa Senhora Aparecida

Aparecida é a máxima invocação mariana do Brasil. Mais de 11 milhões de peregrinos anualmente visitam a Virgem Negra, encontrada nas águas barrentas do rio Paraíba do Sul há mais de 300 anos. Também por isso, Aparecida está entre os maiores e mais importantes santuários marianos do mundo. Situado no Estado de São Paulo, o santuário não tem origem numa aparição propriamente dita, mas no encontro de uma imagem.

Fotografia em plano médio da imagem de Nossa Senhora Aparecida protegida dentro de uma cúpula transparente de vidro em formato esférico. A pequena estátua negra veste manto azul-marinho com bordados dourados, franjas e as bandeiras do Brasil e do Vaticano. Sobre a cabeça, ostenta uma coroa dourada trabalhada. O fundo desfocado exibe tons quentes e dourados do interior do Santuário Nacional.

Foto Ilustrativa: Arquivo Canção Nova /cancaonova.com

A mariofania que envolve a história, o culto e a devoção a Aparecida não está associada a nenhum tipo de visão ou de revelação sobrenatural. Também não estão presentes relatos de videntes ou de visionários. Em Aparecida, a revelação de Deus é sinônimo de encontro.

Nossa Senhora de Aparecida é o espelho da ternura de Deus que caminha e abraça cada filho e transforma a nossa realidade social. Ela é a mais bela inspiração para o nosso compromisso com a justiça e com a fraternidade.

Olhar para a Virgem de Aparecida é compreender que a verdadeira devoção mariana nos impulsiona a ajudar a erguer uns aos outros e anunciar, com a própria vida, o Evangelho.

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A pesca milagrosa

As circunstâncias do encontro da imagem foram narradas 40 anos depois, pelo padre João de Morais e Aguiar. O 1° Livro Tombo da paróquia Santo Antônio de Guaratinguetá registra o episódio que marcou a vida de 3 pobres pescadores que encontraram a imagem quebrada numa rede de arrasto, durante a faina da pesca.

O dia exato do encontro da imagem é difícil de precisar. Entre os dias 17 a 30 de outubro de 1717, passaram por Guaratinguetá o Conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida e Portugal, governador das Capitanias de São Paulo e Minas Gerais. A caminho de Ouro Preto e precisando de provisões para a longa viagem, mandou todos os pescadores buscarem todo peixe que pudessem.

Saíram rio acima João Alves, Domingos Garcia e Filipe Pedroso. Chegaram até o Porto Itaguaçu, sem nada pescar. À tarde, depois de uma prece, lançaram a rede mais acima: retiraram o corpo de uma imagem e, mais abaixo, a cabeça da mesma imagem, o que levou à sua designação como “Aparecida”. Em seguida, pescaram tanto peixe que logo puderam voltar.

Foi João Alves que achou a imagem. Filipe Pedroso guardou a santa em sua casa durante 15 anos, entregando-a a seu filho Atanásio, em cuja choupana, transformada numa capelinha, aconteceu o milagre das velas, com Silvana da Rocha. Em 1743, Dom Frei João da Cruz, então bispo do Rio de Janeiro, permitiu o culto público e a construção de uma capela de taipa de pilão, no Morro dos Coqueiros.

A pequena imagem de terracota é negra por causa da ação do tempo, da água do rio e pela fumaça de velas e tochas. Mede 37 centímetros de altura, de mãos postas em oração e de rosto compassivo. Representa Nossa Senhora da Conceição, revestida de manto azul e coroa. São célebres os prodígios do escravo libertado, da ceguinha curada, do caçador que se salvou de uma onça, da criança que se livrou de se afogar.

Despertar a fé, promover esperança e anunciar o Evangelho

A devoção era mais popular que clerical e começou na vila dos pescadores, que se reuniam ao redor da santa para rezar o terço e cantar ladainhas. Com o aumento das visitas dos romeiros, das esmolas, logo se pensava numa capela maior. Começaram a vir peregrinos de longe, tropeiros, carros de boi e cavaleiros que iam e vinham pela estrada que ia de São Paulo ao Rio de Janeiro e Minas Gerais, até que se construiu a atual igreja histórica em 1888.

A 28 de outubro de 1894, a convite de Dom Joaquim Arcoverde, então bispo de São Paulo, os missionários redentoristas chegaram, vindos da Alemanha, tornando-se guardiões da imagem. Desde então, a administração e a pastoral estão confiadas à Congregação do Santíssimo Redentor. No dia 8 de setembro de 1904, com aprovação do Papa Pio X, a Virgem Negra de Aparecida recebeu a Coroa de Rainha do Brasil. As crônicas da missão bávaro-brasileira destacam que a festa projetou o Santuário para todo o Brasil.

A vocação do Santuário é despertar a fé, promover esperança e anunciar o Evangelho, especialmente aos que mais necessitam. A pregação explícita da Palavra de Deus, a promoção da cidadania por meio de inúmeras obras de educação e de assistência social, as expressões de fé e de piedade popular, o trabalho pastoral de equipe e a vivência sacramental, formam o conjunto do projeto evangelizador do Santuário Nacional.

Como todo centro de peregrinação, Aparecida é um lugar de esperança e espiritualidade. O objetivo é acolher os peregrinos e enviá-los em missão. As prioridades pastorais do Santuário se constroem por meio do acolhimento e da evangelização. Mais do que um mero slogan, “Acolher bem é evangelizar” são eixos que orientam a ação pastoral.

Em sintonia com as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, a ênfase pastoral oferece aos romeiros a oportunidade de uma profunda e decisiva experiência de Deus. Em sua Casa, com a Mãe, procura-se centrar a fé em seu Filho Jesus, o Salvador que, na força do Espírito, indica o caminho do Pai.

A solidez da devoção mariana cultivada em todos esses anos demonstrou-se no ano de 1978, quando a imagem original foi quase de todo destruída num atentado. Apesar de o fato ter sido amplamente divulgado, as visitas ao santuário e o culto à Mãe de Jesus continuaram inalterados.

Padre Eduardo Catalfo, C.Ss.R.
Reitor do Santuário Nacional de Aparecida