IDEALIZAÇÃO

A aceleração tecnológica e o desejo de voltar ao passado

O paradoxo da tecnologia e a nostalgia do tempo

A humanidade, de tempos em tempos, vive momentos de transição, transformação profunda, que, sem exageros, poderiam ser considerados revolucionários, com desdobramentos nas mais diferentes áreas. Alguns autores referem-se a esses momentos como “pontos de virada”, dada a complexidade e a extensão das mudanças que ocasionam.

Seguramente, hoje vivemos um desses pontos de virada, uma época marcada pela aceleração — em grande medida consequência dos avanços tecnológicos. Redes sociais, dispositivos digitais, comunicação instantânea e Inteligência Artificial transformaram substancialmente nossa relação com o tempo, com o conhecimento e, por fim, conosco mesmos.

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Praticamente tudo hoje está ao alcance de um clique: falar com alguém do outro lado do mundo, restaurar uma fotografia antiga, ouvir uma música esquecida ou recorrer às inúmeras possibilidades ao alcance das IAs. E aí se estabelece um paradoxo: quanto mais avançamos tecnologicamente, mais cresce em muitos o desejo de voltar ao passado.

Nostalgia e anemoia: entre a experiência vivida e a imaginação

E esse olhar para o que passou pode estar vinculado a uma nostalgia que seria a saudade de experiências vivenciadas ou mesmo a uma “anemoia”, um conceito contemporâneo que define a saudade de um passado que não foi experiencial, ou seja, de um tempo do qual soubemos, mas não vivemos.

A visão de Santo Agostinho sobre o tempo e a memória

No centro de ambos os conceitos está o passado, o pretérito, o decorrido. Santo Agostinho, no volume IX das “Confissões”, sua obra autobiográfica, ao se debruçar em reflexões sobre o tempo, estabeleceu que o passado, o presente e o futuro se entrelaçam de forma mais complexa do que uma simples sucessão de eventos.

O passado e o futuro não existem por si sós, e o presente escapa na imediatidade do momento. No entanto, o passado se faz presente pela memória e o futuro pela expectativa. E, assim sendo, a memória é parte constitutiva de nossa identidade: em certa medida, somos o que lembramos, em um processo de autorreferenciação.

O paradoxo digital: abundância de informação e distanciamento da experiência

No mundo cada vez mais tecnológico e acelerado, o homem tem a necessidade de identificar continuidade, de perceber raízes. E aqui se estabelece um paradoxo: se os recursos tecnológicos nos permitem hoje um acesso cada vez maior ao passado, por meio de fotografias, músicas, jornais e relatos em uma diversidade e volume extraordinários, por outro lado, evidencia o quanto estamos cada vez mais distantes dessa época, deste tempo. Afinal, reconstruir a aparência do passado não devolve a integralidade da experiência vivenciada. E é neste ponto que ficamos nostálgicos.

A dor do retorno x a idealização do passado

A nostalgia, que pode ser entendida etimologicamente como “a dor do retorno”, diz respeito à tristeza ou melancolia causada pela saudade de um tempo ou lugar do passado que não volta mais e é experiencial.

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Já a anemoia desloca-se para outro campo: o da imaginação. Pelos recursos de que hoje dispomos, criamos uma imagem do passado idealizada e que não comporta as suas próprias complexidades e problemáticas. E, sendo assim, é o sentimento de saudade de um mundo, de um passado que imaginamos ter existido. A saudade, neste caso, é de uma imagem do passado, e não do passado histórico. Ela se fundamenta naquilo que desejávamos encontrar no presente: simplicidade, pertencimento, estabilidade, proximidade, silêncio e sentido.

A busca por sentido na Era da Superficialidade

O presente nos faz refletir: o que fazemos mais rápido e com maior eficiência de fato produz mais sentido? Ou a aceleração presente tem nos deixado sempre à superfície das coisas, sem aprofundamento e consistência? Temos de considerar que as coisas que atravessam o tempo levam tempo.

Fazer memória: a perspectiva cristã e o resgate da humanidade

Como cristãos, não devemos desprezar o passado, mas elevá-lo à condição de memória. No olhar cristão, recordar não deve se reduzir a pensar em algo que aconteceu, mas ao “fazer memória” atualiza-se sacramentalmente a ação de Deus. E, sendo assim, não se trata de uma ideação do passado, mas de um olhar de gratidão.

Ao fazer memória, nosso olhar não se fixa no passado, mas contempla com expectativa o futuro, na certeza de que “o melhor está sempre por vir”. Olhamos com amor, reverência e adoração o santo sacrifício da morte e ressurreição de Cristo, situada no tempo e na história, na expectativa confiante e iminente de sua segunda vinda.

Preservando o essencial diante do futuro

Diante do avanço da tecnologia e das IAs, das transformações rápidas, dos bens efêmeros e da obsolescência programada, é urgente mantermos no presente e levarmos para o futuro os fundamentos de nossa humanidade: os valores, a família, a fé, a honestidade, o amor e a verdade. Somos desafiados a utilizar a tecnologia e suas benesses sem permitir que ela determine a maneira como vivemos.

Afinal, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Deus nos abençoe!