Comportamento

Burnout parental: da cultura da performance ao sentido da vida

Como a cultura da performance alimenta o burnout parental e por que a Logoterapia nos convida a trocar a busca pela perfeição pela coragem de amar com humanidade

Parece insano, mas é preciso produzir, desenvolver competências, alcançar resultados, cuidar do corpo, administrar o tempo, construir uma carreira, manter relacionamentos saudáveis e, de alguma maneira, ainda encontrar disposição para cuidar dos filhos com paciência, presença e disponibilidade emocional. A cultura contemporânea nos diz, o tempo todo: você pode mais. Pode trabalhar mais. Pode aprender mais. Pode oferecer mais. Pode melhorar mais. E aquilo que, à primeira vista, parece uma mensagem de liberdade pode transformar-se rapidamente em uma nova e implacável forma de cobrança.

Crédito: Drazen Zigic / GettyImages

O autor Byung-Chul Han chamou a atenção para esse fenômeno ao descrever a passagem para a sociedade do desempenho, onde o indivíduo já não precisa que o outro seja a pressão, porque ele próprio se transforma em fiscal, cobrador e explorador de si mesmo, e essa lógica também invadiu a família. E talvez em nenhum outro lugar ela produza efeitos tão dolorosos quanto na experiência da parentalidade.

Um tribunal de avaliação permanente

Nunca tivemos tanta informação disponível e de modo automático acerca de como podemos educar as crianças. Há um grande número de métodos para dormir, alimentar, estimular, alfabetizar, brincar, conversar e disciplinar. Há especialistas para praticamente todas as questões da infância e milhares de conteúdos disponíveis a qualquer toque de tela.

Apesar disso, quanto mais informações, maior a sensação de que estamos falhando. A comparação é permanente: o filho do outro já lê, a filha da outra fala um segundo idioma, outra família viaja mais, outra criança parece equilibrada e sorridente em todas as fotografias das redes sociais.

Enquanto isso, dentro de casa, o cenário é outro: birras, desobediências, excesso de telas, tarefas escolares acumuladas, desavenças entre irmãos, noites mal dormidas e pais que, no final do dia, simplesmente estão sem energia. Surge então uma pergunta: “Será que estou fazendo o certo? Será que estou sendo uma boa mãe/um bom pai?”

É quando o amor começa a se transformar em desempenho e é quando a criança deixa de ser percebida como uma pessoa única a ser acolhida e passa a ser tratada como um projeto que precisa dar certo. Cada dificuldade torna-se um atestado de fracasso ou sucesso; para cada nota um julgamento; cada comportamento inadequado, uma culpa. E aquilo que deveria ser um encontro humano transforma-se em um tribunal de avaliação permanente, gerando o necessário para o que pode ser nomeado como burnout parental, um esgotamento dos pais.

O cansaço que vai além

É bem certo que pode aparecer o cansaço no processo de educar os filhos, considerando que exige tempo, renúncia, energia física, desgaste mental, ansiedade pelo resultado. O burnout parental, contudo, vai além do cansaço circunstancial e envolve um profundo esgotamento emocional, saturação diante das demandas cotidianas, distanciamento afetivo e a dolorosa percepção de que já não conseguimos ser a presença que gostaríamos para os nossos filhos; numa insatisfação interminável.

O principal e mais difícil é a contradição, pois justamente quando mais precisamos de proximidade, podemos nos sentir distantes daqueles que mais amamos. Continuamos funcionando no piloto automático ao preparar refeições, levar para a escola, organizar a rotina, resolver as pendências, mas, pouco a pouco, vamos parando de estar verdadeiramente presentes; apenas continuando a cumprir funções, mas perdendo o encontro com o filho.

Filho não é projeto

Para uma boa reflexão, vale a pena nos perguntar se estamos educando uma pessoa ou tentando fabricar um projeto, mesmo que a ideia de projeto seja com a melhor das intenções. Queremos proteger nossos filhos dos sofrimentos que experimentamos, oferecer o que não tivemos e prepará-los para um mundo competitivo. Mas existe um certo limite entre acompanhar alguém e tentar moldá-lo segundo as nossas expectativas. O filho não é uma extensão da biografia dos pais, tendo em vista que ele possui sua própria liberdade, sua história e seu mistério.

Nesse processo, corremos o risco de enxergar a educação como a tarefa de forçar a realidade a caber em um molde idealizado previamente, esquecendo que o verdadeiro papel parental consiste em preparar o terreno, proteger, nutrir e respeitar o ritmo próprio de crescimento de quem se ama. Em vez de perguntar “Que filho quero formar para satisfazer minhas expectativas?”, o caminho maduro nos convida a indagar: “Quem é este filho que recebi e como posso ajudá-lo a florescer em sua singularidade?” Educar não é fabricar; é acompanhar.

Do “como” ao “para que”

É exatamente nesse ponto que a teoria desenvolvida por Viktor Frankl, a Logoterapia, se torna uma bússola indispensável. Psiquiatra e neurologista, Frankl compreendeu que as pessoas são movidas pela vontade de sentido. Não vivemos apenas para buscar prazer ou evitar o sofrimento, mas precisamos encontrar uma razão pela qual a nossa vida e os nossos esforços valem a pena.

Muitos pais não estão apenas exaustos de fazer tantas coisas, mas estão exaustos de fazer tantas coisas sem conseguir perceber por que as fazem, visto que quando o sentido se perde, até o ato de cuidar vira um grande peso.

A cultura da performance está obcecada pelo “como”: Como educar melhor? Como otimizar o tempo? Como conseguir resultados? A Logoterapia nos conduz ao “para que”: Para que educamos? Para que estabelecemos limites? Para que vale a pena permanecer presentes?

Essa mudança de pensamento tende a libertar os pais da obsessão pelo controle dos resultados e pode devolver à responsabilidade concreta do momento presente. Assim, diante de uma birra ou de um dia difícil, a pergunta deixa de ser “O que um pai perfeito faria?” para se tornar: “O que este meu filho, nesta situação concreta, precisa de mim agora?”

Os três caminhos do sentido na vida familiar

Frankl identificou que podemos realizar sentido na existência por meio de três vias que encontram morada direta na rotina com os filhos:
Valores de criação (o que fazemos e oferecemos): O sentido habita nas pequenas obras cotidianas, que pode ser preparar uma refeição, contar uma história, ensinar um valor pelo exemplo, construir memórias simples. A cultura da performance mede a quantidade de produção; o sentido pergunta a quem estamos servindo pelo amor de nossos atos.

Valores de vivência (o que experienciamos e acolhemos): Manifesta-se na capacidade de contemplar. O abraço sem pressa, o sorriso inesperado, a pergunta curiosa, o silêncio compartilhado. Perdemos a capacidade de contemplar quando queremos transformar cada segundo da infância em um indicador de desempenho.

Valores de atitude (como lidamos com o inevitável): Educar envolve frustração, limites e erros. O sofrimento e o cansaço parental ganham sentido quando nos transformam por dentro, ensinando-nos a acolher a nossa própria vulnerabilidade com maturidade.

Guardiões do mistério de uma vida que desabrocha

Existe aqui uma ressonância profunda entre a Logoterapia e uma visão humanista e cristã da pessoa. Se ensinamos aos nossos filhos que eles só têm valor quando apresentam notas altas ou comportamentos impecáveis, reproduzimos dentro de casa a mesma engrenagem inadequada do mundo. Mas se queremos que eles experimentem o amor incondicional, isso precisa começar na forma como lidamos com os nossos próprios limites.

A vida não é um produto de alta performance, mas um dom e uma vocação. Os filhos não são propriedades ou troféus dos pais, mas pessoas confiadas à nossa guarda. O pai e a mãe são chamados a ser guardiões do mistério de uma vida que desabrocha.

Por isso, descansar não é fracassar, pedir ajuda não é incompetência, e reconhecer o cansaço não é falta de amor. Os filhos não precisam de robôs infalíveis e programados para a excelência, mas precisam de adultos reais, capazes de errar, pedir desculpas, rir de si mesmos e recomeçar.

Reencontrar o sentido do presente

A infância dos filhos não é uma preparação distante para a vida: ela já é a vida acontecendo agora. O antídoto para o burnout parental não está em fazer mais, otimizar mais ou buscar fórmulas mágicas de perfeição. O verdadeiro antídoto reside em resgatar o sentido do cotidiano: desligar o celular, olhar nos olhos, escutar a mesma história pela milésima vez, aceitar os próprios tropeços e simplesmente estar ali, presente.

A cultura da performance continuará perguntando o quanto conseguimos produzir, mas a ideia da logoterapia nos devolve a pergunta essencial: para que vale a pena viver? E, para quem educa, a resposta talvez esteja bem ali diante dos olhos, não sendo uma projeção de futuro idealizada, mas na pessoa única que nos convida, todos os dias, a trocar a ilusão da perfeição pela coragem de amar com humanidade.