Uma infância marcada pelas dificuldades
José nasceu no dia 17 de junho de 1603, no vilarejo de Cupertino, em Nápoles, na Itália. Era filho de uma família pobre e com muitas dificuldades. Às vésperas de seu nascimento, sua família foi despejada por causa das dívidas de seu pai. No despejo, a família perdeu até os poucos móveis que possuía. Por isso, José nasceu num estábulo, na pobreza, assemelhando-se a Jesus já no nascimento. Sua vida, porém, seria marcada pelas dificuldades e pela superação através da graça de Deus.

Gravura de São José de Cupertino pelo artista italiano Francisco Antonio Lorenzini / CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
Talvez, por causa de todos os obstáculos que sua família passou, José cresceu com sérias dificuldades de aprendizado, tanto que não conseguiu aprender a ler. Teve sempre uma saúde muito frágil na infância e adolescência. Nessa fase, por várias vezes, esteve entre a vida e a morte. Além disso, possivelmente por alguma falta de coordenação motora, era desajeitado com as coisas. Por isso, era quase sempre ridicularizado e motivo de chacota onde quer que chegasse.
O chamado para a vida religiosa
José de Cupertino sentiu-se chamado para a vida religiosa desde pequeno. Apesar de suas limitações, tinha uma vida de oração profunda e uma intimidade tão grande com Deus que, frequentemente, tinha êxtases e dons extraordinários. Quando completou dezessete anos, pediu para entrar na Ordem dos Frades Menores Conventuais, na qual tinha dois tios frades. Entretanto, foi recusado por causa de suas deficiências e até mesmo por sua aparência.
Rejeitado pelos franciscanos, ele tentou entrar na Ordem dos Capuchinhos, na qual os frades buscaram inseri-lo em vários ofícios, mas sem melhores resultados. José de Cupertino entrava em êxtases constantes e, sem querer, quebrava louças e objetos do convento. Somem-se a tudo isso seus entraves de aprendizagem. Diante desse quadro um tanto desalentador, os capuchinhos também decidiram dispensá-lo. Nessa ocasião, ele teve que tirar o hábito franciscano. Esta, para ele, foi a pior das provações. Tempos mais tarde, ele disse que foi como se sua pele tivesse sido arrancada.
Depois de algum tempo, os Frades Menores Conventuais o acolheram como cuidador de uma mula no Convento de Grotella. Aos poucos, perceberam que José de Cupertino tinha uma vida santa, apesar de toda as suas limitações. E, ao constatarem sua vida de oração, sua austeridade, seu espírito de obediência, seu amor manifesto para com todas as criaturas, como São Francisco, e os dons sobrenaturais que se manifestavam através dele, decidiram pela sua admissão como frade.
Do esforço nos estudos ao sacerdócio
José de Cupertino sentia, em seu coração, o chamado não só para à vida religiosa, mas também para o sacerdócio. Sua dificuldade de aprender, porém, era grave. Ele progredia pouco nos estudos. Chegou a época do exame para ser admitido como diácono. Entregou-se à Virgem Maria e foi realizar a prova. Na ocasião, ele foi examinado pelo bispo de Nardò. Este pediu-lhe para explicar o único trecho do Evangelho que ele, de fato, sabia: “Felizes as entranhas que te trouxeram […]” (Lc 11,27). Sua resposta foi admirável e, assim, obteve a aprovação.
Após mais um tempo de estudos e dificuldades imensas, chegou o momento do exame oral, diante do bispo de Castro. José de Cupertino foi juntamente com os outros confrades. Mais uma vez, confiou a Nossa Senhora o exame. O bispo, porém, questionou alguns e ficou tão admirado com as respostas precisas dos avaliados que decidiu aprovar todos os outros sem examiná-los. Entre eles, estava José de Cupertino. Assim, ele foi ordenado padre pela vontade de Deus. E também se tornou o padroeiro dos estudantes.
Como sacerdote, José de Cupertino destacou-se pela santidade e pela sabedoria extraordinária que Deus lhe dava. Multidões começaram a acorrer onde quer que ele estivesse, ávidas do amor e da sabedoria que emanavam de sua vida e de suas palavras. Apesar disso, não deixou sua vida simples de frade franciscano. Cuidava dos animais, limpava o chão, lavava as louças e fazia sempre os serviços mais simples. Trabalhava muito, a ponto de ele mesmo se apelidar de “irmão Burro”.
Os dons de Deus na vida de São José de Cupertino
A vida de José de Cupertino sempre foi marcada pelos dons extraordinários. Estes manifestavam-se sempre, conforme a vontade de Deus. Percebia a alma das pessoas e as aconselhava sobre aquilo de que elas mais precisavam. Por meio dessas manifestações, Deus curava o coração de muitos que o procuravam. Colocava fim em desavenças, reconciliava inimigos e levava a misericórdia de Deus. Além disso, tinha o dom da levitação e dos êxtases nos momentos de oração. E isso acontecia com frequência, quando celebrava a Santa Missa e quando rezava.
A aura de santidade e os dons extraordinários manifestados na vida de José de Cupertino despertaram investigações da Inquisição. Ele foi denunciado ao Tribunal da Inquisição de Nápoles. O seu caso, ocorrido em 1638, foi um dos mais marcantes da história do misticismo católico. José de Cupertino não foi investigado por heresia doutrinária, mas pelo grande impacto público de seus fenômenos místicos, sobretudo, suas levitações e seus êxtases. As notícias sobre o “santo voador” espalharam-se de maneira muito rápida. Multidões eram atraídas para suas celebrações eucarísticas. Preocupados com a histeria coletiva, com o risco de eventuais fraudes para exploração da credulidade popular ou até mesmo com possibilidade de influência demoníaca, as autoridades eclesiásticas locais acusaram-no perante o Santo Ofício de Nápoles.
Em 1638, por ordem da Inquisição, José de Cupertino dirigiu-se até Nápoles para ser interrogado pelos juízes do Mosteiro de São Gregório Armênio. O processo consistiu em exames rigorosos para atestar sua sanidade e intenções. Durante uma das sessões do Tribunal, ao contemplar uma imagem sagrada ou falar sobre Deus, ele entrou em êxtase e levitou diante de seus próprios inquisidores. Impressionados e sem encontrarem quaisquer sinais de fraude, arrogância ou heresia, os juízes reconheceram sua profunda humildade e o absolveram de todas as acusações de engano (Mayer, 2014).
Não obstante tenha sido declarado inocente, a Inquisição determinou que o fenômeno era disruptivo demais para a ordem pública. Para evitar o tumulto das massas e preservar a Igreja de eventuais espetáculos públicos, o Santo Ofício infligiu a Jose Cupertino uma reclusão obrigatória e um isolamento severo. Ele também foi enviado a Roma para ser examinado pelo Papa Urbano VIII, e lá, também levitou.
José de Cupertino passou o resto de sua vida sendo transferido, de maneira secreta, de um convento para outro, passando por Assis, Pietrarrubia e Fossombrone. Era mantido em celas isoladas, proibido de celebrar missas públicas e de se comunicar com o mundo exterior. Ele aceitou todas essas punições e restrições com obediência e paciência (Brunelli, 2022).
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Depois de muitos contratempos e sofrimentos, predisse o tempo e o lugar de sua morte, a qual ocorreu em 18 de setembro de 1663, em Osimo, contando com sessenta anos de humilde testemunho e docilidade aos carismas do Espírito Santo.
Séculos mais tarde, os rigorosos registros inquisitoriais serviram de base documental para a beatificação e a canonização de José de Cupertino. Ele foi beatificado pelo Papa Bento XIV, em 1753, e canonizado pelo Papa Clemente XIII, em 1767.
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução de Euclides Martins Balancin et al. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2004. 2206 p.
BRUNELLI, Roberto. Vida de São José de Cupertino. São Paulo: Flos Carmeli Edições Eireli, 2022. 407 p.
MAYER, Thomas F. The Roman Inquisition: on the Stage of Italy, c, 1590-1640. Pennsylvania: University of Pennsylvania Press, 2014. 368 p.






