A autenticidade de Santa Mônica
Santa Mônica não é somente a mãe de Agostinho. É a santa mãe de Santo Agostinho. A celebridade, a fama e a glória de Mônica estão ligadas ao maior dos Doutores da Igreja. Tudo o que se sabe dela é autêntico: é o elogio caloroso que o próprio filho Agostinho fez de sua Mãe, sobretudo em seu livro Confissões, sentindo a força da oração, da maravilhosa ação da graça de Deus ao mencionar os benefícios divinos em Mônica (Conf. Livro IX, cap 8). Ela nasceu por volta do ano 331 na África do Norte, dentro dos costumes de uma família cristã, romanizada.

Pintura clássica retratando Santa Mônica / Domínio Público
Agostinho diz: “Seus pais nem podiam adivinhar o que viria a ser aquele a quem geraram. A disciplina de Cristo e sua doutrina educaram-na no temor de Deus, no seio de uma família fiel à Igreja. Mais que a disciplina de sua mãe por sua educação, Mônica enaltecia a companhia e vigilância de uma velha serva, que desempenhava com solicitude o encargo que lhe confiaram os seus senhores a olhar pelas suas filhas, repreendendo-as quando necessário, com santa energia e severidade, e instruindo-as com discreta prudência e corrigindo-lhes defeitos de adolescente, educando-as na modéstia e temperança.”
Os cristãos da Igreja primitiva tinham ideias claras de suas vidas. Em meio a um mundo decadente, dominado pelo hedonismo, pela moral do prazer a qualquer preço, os cristãos entendiam as exigências da mensagem do Evangelho, a seriedade da caminhada.
A conquista do marido para Deus
“… Quando chegou à idade de casar-se, Mônica foi dada em matrimônio a um jovem, Patrício, a quem serviu como senhor, no quadro da cultura da época, devido à situação de inferioridade da mulher. Procurava conquistá-lo para Deus, falando-lhe através de seus bons costumes. Suportava também suas infidelidades com paciência, não tendo discórdia alguma. Se o coração do marido era afetuoso, o temperamento era arrebatado. Mas ela sabia que era melhor não resistir à ira do esposo, nem por ações, nem por palavras. Logo que o via mais calmo e sossegado, oportunamente lhe dava explicação de sua atitude, para mostrar-lhe como se tinha irritado sem refletir”. (Relato do livro Confissões IX,9 )
Com muita discrição, Agostinho deixa entrever a dura realidade que Mônica teve que assumir, sabendo que ali havia grande amor e que ela esperava da misericórdia de Deus, que convertesse Patrício do paganismo, de seu caráter violento, e isso aconteceu mesmo: antes da morte, Patrício dobrou humildemente seu orgulho, recebeu o batismo e morreu na paz e no amor.
A regra de ouro para a paz na família
Agostinho, descrevendo o esforço de Mônica, fala de uma forma muito sucinta de seu relacionamento com a sogra: “A princípio, a sogra irritava-se contra ela, de tal forma que minha mãe a conquistou com afabilidade, com paciência e mansidão, que terminaram os mexericos”.
Naquela região do norte da África, onde as pessoas eram sumamente agressivas, as demais esposas perguntavam a Mônica porque seu marido era um dos homens de pior gênio em toda a cidade, mas não a agredia nunca, e, ao contrário, os esposos delas as agrediam sem compaixão. Mônica respondeu-lhes: “É que, quando meu marido está de mal humor, eu me esforço para estar de bom humor. Quando ele grita, eu me calo. E como para brigar precisam de dois, e eu não aceito a briga…não brigamos”. Essa fórmula fez-se célebre no mundo e serviu a milhões de mulheres para manter a paz em casa.
Ser conciliadora, uma forma de fazer apostolado
Assim, podemos entender como Mônica sabia levar a paz e tranquilizar o ambiente, aberta à solidariedade afetiva com todos. E diz: “Concedestes ainda um grande dom a esta fiel serva. Sempre que havia pessoas em discordância, ela procurava, quando possível, mostrar-se conciliadora: era uma forma de fazer apostolado, semeando paz”.
O livro II das Confissões coloca diante de nós os problemas do adolescente Agostinho e as diferentes reações de sua mãe Mônica e de seu pai Patrício. Em seguida, ele fala do que lhe aconteceu nesta idade difícil, residindo em sua cidade natal – Tagaste. O final do Livro III das Confissões descreve a angústia de Mônica, sua atitude orante a suplicar uma luz que iluminasse o caminho de Agostinho e o livrasse dos extravios morais. A presença de Mônica era incômoda, porque lembrava-lhe que sua vida precisava tomar novos rumos. Após deixar Madaura, Agostinho mudou-se para a imponente Cartago, cidade que o fascinou tanto pelos estudos superiores quanto pela paixão por uma jovem, com quem se relacionou e teve um filho.
A busca de realização profissional, de Roma a Milão
Em busca de realização profissional, Agostinho decidiu partir para Roma. Embora Mônica desejasse acompanhá-lo, ele a abandonou no porto e partiu às escondidas. Mais do que cruzar o mar, Agostinho parecia tentar escapar de sua própria consciência e da presença de Deus — das quais a presença de sua mãe era uma advertência constante. Assim, ele seguiu viagem, deixando Mônica para trás na África.
Ao chegar a Roma, Agostinho, professor de retórica e oratória, começa a dar aulas, mas adoece pouco tempo depois. Desiludido com a capital do mundo e sede do Império, ele presta um concurso, é aprovado e passa a residir em Milão, no norte da Itália, onde assume um novo emprego.
A conversão de Santo Agostinho
No ano de 385, Mônica resolveu ir ao seu encontro, numa desconfortável viagem, sustentada apenas por sua coragem e sua determinação sem limites: ela sabia que não podia perder o “filho de tantas lágrimas”, como lhe dissera um Bispo. Agostinho enfrentava nova fase de sua evolução espiritual, a grande crise de conversão: a busca da verdade, do bem, da felicidade que não o deixava descansar, enfrentara vários grupos filosóficos, abandonara descrente o Maniqueísmo. “Minha mãe, forte na piedade, já tinha vindo ao meu encontro, seguindo-me por terra e por mar, confiando em Vós, no meio de todos os perigos.” Mônica fica feliz ao vê-lo já mudado, convertido e aconselha-o a escutar o Bispo Ambrósio como ela. (Conf VI)
Mas a longa paciência, a fé e a coragem de Mônica reconduzem Agostinho a Deus, que, após estudos profundos da Sagrada Escritura, pede o batismo, junto a seu filho Adeodato. Este relato está em Conf. VIII.
O testamento espiritual de Mônica
Junto com um grupo de amigos, inclusive seu filho Navígio, entre pensadores, Mônica vai com Agostinho para uma chácara em Cassicíaco, nas proximidades de Milão. Mônica era a alma de todo o grupo, oravam, tinham longas horas de discussões filosóficas, onde surgiram importantes Obras literárias de Agostinho.
No final daquele mesmo ano de 387, o grupo formado por Agostinho, Mônica, Adeodato, Navígio, Evódio e Alípio, empreende a viagem de retorno a Roma, e de lá para o porto vizinho, na cidade de Óstia, perto da foz do rio Tibre, onde residem. Foi ali que se passou o episódio conhecido como Êxtase de Óstia. Mônica, já enferma, orava junto à janela que dava para o mar, procurando com Agostinho recuperar as forças. Em uma conversa doce e profunda, Mônica e Agostinho esqueceram o passado e voltaram-se para Deus. Em oração, sentiram-se elevados por uma luz que antecipava a vida eterna. Cinco dias depois, Mônica adoeceu. Mesmo sob os cuidados atentos de seus filhos, ela sentiu o fim aproximar-se e pediu: ‘Enterrai meu corpo aqui, mas lembrai-vos de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais’. Enquanto recitavam os salmos, Mônica entregou sua alma a Deus e foi sepultada em Óstia. Sua vida, marcada pela espera e ligada à de Agostinho, revela que a santidade é acessível a todos, basta cumprir a vontade de Deus e buscar os Seus planos para nós.
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Oração a Santa Mônica – Modelo de esposas e mães cristãs
Ó Esposa e Mãe exemplar, Santa Mônica, tu que experimentastes as alegrias e as dificuldades da vida conjugal; tu que conseguiste levar à fé teu esposo Patrício, homem de caráter desregrado e irascível; tu que chorastes tanto e oraste, dia e noite, por teu filho Agostinho, e não o abandonaste mesmo quando te enganou e fugiu de ti.
Intercede por nós, ó grande Santa, para que saibamos transmitir a fé em nossa família; para que amemos sempre e realizemos a paz.
Ajuda-nos a gerar nossos filhos também à vida da Graça; conforta-nos nos momentos de tristeza e alcança-nos da Santíssima Virgem, Mãe de Jesus e Mãe nossa, a verdadeira paz e a Vida Feliz. Amém.
Santa Mônica, rogai por nós!
Ir. Clélia de Oliveira Fernandes – AM.
Referência Bibliográfica
ROCHA, Hylton M. Mônica: uma mulher forte: vida de Santa Mônica para o homem de hoje. 18. reimpr. São Paulo: Paulus, 2023.






