Uma das virtudes que nos faz felizes é sermos delicados com os outros, sem usar para com eles palavras ásperas, sendo compreensivo e tolerante com os seus pequenos defeitos
Há muita gente indelicada com os outros, que não poupam críticas e atos cínicos. Nunca se esqueça desse princípio básico de bom relacionamento: o outro tem a tendência de ser aquilo que você pensa e diz que ele é, por isso revelar-lhe os seus dons é fazê-lo descobrir-se e crescer. Devemos ser leais, discretos e silenciosos como a nossa sombra. Você já notou que ela é leal, segue você onde você for, não importa se o lugar é bonito ou feio; perigoso ou seguro, agradável ou desagradável? Você já notou que ela é discreta e está sempre submissa a você! Já notou que ela é silenciosa, meiga, tolerante?

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Ainda que haja noite no seu coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão dos outros
Como dizia padre Jonas Abib, o sofrimento é meu, mas o meu rosto é dos outros; ele não pode ser nunca fechado e triste. Não custa nada… um rosto alegre na monotonia do trabalho cotidiano; um silêncio cuidadoso sobre os erros dos outros. Uma palavra de reconhecimento e de incentivo para as boas qualidades do próximo. Um pequeno serviço prestado a um subordinado. Um sorriso alegre e uma palavra meiga para as crianças.
Não custa nada um aperto de mão caloroso e amigo para os tristes. Uma conversa paciente e interessada com os aborrecidos ou desagradáveis. Um olhar de afetuosa compreensão para os que sofrem interiormente. Uma saudação alegre e cordial para os pobres. Não custa nada uma crescente amenidade para com os impulsivos e coléricos. Uma confissão da própria fraqueza aos desanimados. Um reconhecimento leal do erro cometido.
Dom Helder dizia que há criaturas como a cana, mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura.
Os homens que foram bem sucedidos na vida foram sempre afáveis, alegres e generosos, pode verificar. Não fosse por nossa concepção dos pesos e medidas, sentiríamos o mesmo deslumbramento ante o vaga-lume e o Sol; ambos brilham, mas nós nos acostumamos a dar valor apenas para o que é grande e poderoso. O homem deve ser discreto, serviçal e bom; que ninguém venha a você e se retire sem sair melhor e mais feliz. Essa será a sua felicidade cotidiana. Talvez amanhã você não possa mais fazer o bem que pode fazer agora.
Precisamos também cultivar a gratidão, único tesouro dos humildes
Um benefício recebido é a mais sagrada das dívidas. Nossa gratidão deve começar para com Deus, pois d’Ele recebemos esta vida tão bela; d’Ele recebemos o dia novo que nasce, o pão de cada dia, o sustento, o lar, a saúde, a paz… Se fôssemos, ao final de cada dia, contar as graças que recebemos d’Ele durante o dia, nos sentiríamos como príncipes. Até mesmo Jesus ficou aborrecido quando curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer-lhe a cura. “Onde estão os outros? Não foram dez os curados”. E o mais intrigante é que o único que voltou não era judeu, mas um samaritano, odiado dos judeus. Muitas vezes na vida também é assim, aquele de quem menos esperamos a gratidão, e exatamente dele que ela nos vem.
Dói no coração do homem ver que não são reconhecidos os seus benefícios. Um coração ingrato é um coração árido; é como um deserto que sorve com avidez a água do céu e não produz coisa alguma. É duro saber que, às vezes, um pai e uma mãe criam dez filhos, e depois não têm um sequer que se prontifique a cuidar deles. Às vezes, um pai é capaz de sustentar dez filhos, mas dez filhos são incapazes de sustentar um pai. O terrível ingratidão dos homens!
Um poderoso caminho de felicidade é também saber manter o silêncio nas horas certas
Calar-se quando um tolo nos dirige a palavra é a melhor resposta que podemos lhe dar, por isso Jesus se calou diante dos seus acusadores hipócritas. É muito difícil refutar o silêncio do justo; é um argumento difícil de derrubar. Conta uma história dos árabes que, certa vez, um requerente apresentou-se a um califa que tinha grande mau humor. O califa recebeu-o com grossas injúrias. Mas o sujeito foi suficientemente sábio para lhe dizer calmamente: “Vossa Majestade é como o céu. Quando lança relâmpagos e trovoadas, é que está prestes a mandar o benefício de sua chuva”. Diante dessas palavras sábias, o califa acalmou-se e presenteou o requerente.
É assim que o homem sábio age, não apaga fogo com gasolina, mas com água. Nunca seja explosivo; nunca se imponha pelo grito; saiba falar baixo e vencer pela força da razão e não pela razão da força. Gritar ofende as pessoas e não resolve nada. Se gritar resolvesse alguma coisa, nenhum porco morreria nas mãos do açougueiro. Desconfia da explosão: o homem de caráter é calmo. A verdadeira força não é a do mar enfurecido que tudo arrebenta, mas a do rochedo imóvel que a ele resiste no silêncio. Não fales asperamente com os outros, porque aqueles a quem você fala vão te responder no mesmo tom de voz.
Lembre-se: as grandes verdades só se comunicam através do silêncio. Você já reparou nas lágrimas de uma mãe que chora? Já prestou atenção ao nascer do Sol lentamente? Já percebeu o silêncio na nave da grande Catedral? É por isso que os bons fotógrafos dizem que uma boa foto vale mais que mil palavras.
Quem fala o que não deve, escuta o que não quer. A lei mais elementar da Física é esta: a toda ação corresponde uma reação igual e de sentido contrário; e ela vale também para o relacionamento humano. Se você lança elogios, recebe elogios; mas se você lança bílis, vai receber bílis; então, não seja tolo, poupe a você mesmo de receber injúrias, poupando-as aos outros. Viva com sabedoria: a sós, vigie o pensamento e não o deixe vagar perigosamente pelo mundo da fantasia e do medo; em família, vigie o humor para não desabafar injustamente sobre aqueles que mais você ama; em sociedade, vigie a língua para não dar ocasião aos malvados. O peixe morre pela boca.
Há alguns anos, nas Olimpíadas de Seattle, nos Estados Unidos, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar.
Todos, exceto uma garota, que tropeçou no piso, caiu e começou a chorar. As outras oito meninas ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram a menina no chão, pararam e voltaram. Todas elas! Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo na menina que estava caída e disse: “Pronto, agora vai sarar!”.
E todas as nove competidoras deram os braços e andaram juntas até a linha de chegada… O estádio inteiro levantou-se e não havia um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos… As pessoas que ali estavam naquele dia repetem essa história até hoje.
Por que essas crianças fizeram isso? Porque, lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir nosso passo naquilo que nos propomos a fazer diariamente, e mudar o rumo de nossas vidas.
Capítulo retirado do livro “Para ser fiel” do Professor Felipe Aquino




