Bem-aventurados os que não viram e creram: o relato evangélico
O discípulo Tomé não estava presente no dia da ressurreição, quando houve a primeira aparição do Ressuscitado. Por isso, ele relutou em crer e exigiu provas. Tendo transcorrido oito dias, o Senhor Jesus aparece, novamente, aos seus. Desta vez, Tomé está na companhia dos outros discípulos, ou seja, está com a Igreja congregada. Ele vê o Ressuscitado, toca-o e crê no mistério (cf. Jo 20). Bem-aventurados os que não viram e creram.

A título de curiosidade, vale dizer que, para dar visibilidade à atitude do discípulo que hesitou em crer e depois fez a sua confissão de fé, a Igreja custodia a relíquia de uma falange do seu dedo na Basilica di Santa Croce in Gerusalemme, em Roma. Além disso, há uma belíssima tela de Caravaggio, intitulada A Incredulidade de São Tomé, pintada entre 1601-1602, que retrata com precisão essa cena. A tela está em uma antiga galeria de arte em Potsdam, na Alemanha.
Os comentários de Santo Agostinho
Em diversos textos para o tempo pascal, Santo Agostinho comenta essa passagem do Evangelho e destaca que, enquanto Tomé precisou do auxílio dos sentidos para crer, a promessa de bem-aventurança proferida pelo Senhor Jesus é dirigida, especialmente, a todos os que viriam depois — ou seja, os que não tiveram a oportunidade de tocar as feridas do Senhor Jesus ressuscitado, mas que possuiriam uma fé digna de elogio por não depender nem do tato nem da visão.
No sermão sobre a incredulidade de São Tomé, o Bispo de Hipona explica que Tomé “viu o homem e confessou o Deus” (*Sermones ad populum*, Sermo 541). Nós, sem ver o homem ressuscitado, confessamos o mesmo Deus por meio da fé no testemunho apostólico. Tomando a inspiração dessa prédica agostiniana, é possível afirmar que Tomé tocou, fisicamente, o Senhor Jesus — que já possuía o corpo transformado — e creu. E nós, impossibilitados de tocar a materialidade do seu corpo ressuscitado, podemos tocá-lo pela fé. Na verdade, tocá-lo pela virtude da fé significa alcançar o mistério ou, melhor, ser alcançado por ele e deixar-se determinar por ele.
Fé e compromisso querigmático
O Senhor Jesus disse a Tomé: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20, 29). E concluiu com uma bem-aventurança que alcança os membros da Igreja de todas as épocas. Essa bem-aventurança enaltece os fiéis que não foram e não são testemunhas oculares do fato da ressurreição do Primogênito dentre os mortos (Cl 1, 18). Ademais, ela nos ajuda a compreender o sentido da fé e a responsabilidade querigmática da Igreja.
O autor sagrado afirma que “a fé é o fundamento daquilo que ainda se espera e prova de realidades que não se veem” (Hb 11, 1). A fé que nos foi infundida pelo Espírito Santo no ato do nosso Batismo leva-nos a experimentar a concretude do mistério da ressurreição do Senhor Jesus. Crer na ressurreição não significa apenas um assentimento intelectual, mas é também, e acima de tudo, o convencimento espiritual de que o Pai, no poder do Espírito Santo, ressuscitou o seu Filho, vencendo não só a morte do seu Unigênito, mas a morte na sua realidade mais profunda e abrangente.
Dessa maneira, foi-nos inaugurada uma via de vitória sobre a nossa própria morte. A virtude teologal da fé nos leva a fazer um ato de fé que consiste em confiar, lançar-se no mistério e deixar-se conduzir pela sua força vivificadora.
A bem-aventurança proclamada pela boca do Ressuscitado contempla a missão querigmática da Igreja. Se o Senhor Jesus chama de bem-aventurados — felizes — aqueles que haveriam de crer n’Ele, significa que à Igreja já havia sido confiada a missão sublime de continuar no mundo a missão do próprio Filho de Deus por meio do testemunho apostólico. Essa missão é chamada de querigmática porque consiste no anúncio do amor de Deus por nós. Anunciar esse amor não é proclamar uma teoria bonita e bem elaborada acerca do amor divino, mas sim narrar e contar os feitos concretos de Deus para nos salvar e levar a nossa vida à plenitude.
Enfim, que a contemplação das reações de Tomé desperte em nós o desejo incessante de tocar o Ressuscitado pela fé e de fazer a nossa confissão: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). Que a consciência de sermos alcançados pela bem-aventurança do Senhor Jesus nos leve a um ardoroso compromisso missionário, para que mais pessoas sejam também alcançadas e se tornem felizes e realizadas por crer!
Padre Robison Inácio de Souza Santos
Diocese de Guaxupé (MG), doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.




