A vocação original da mulher
Você pode ser o que quiser?
Nascemos mulheres ou nos tornamos mulheres?
O homem, a mulher escolhe sua identidade ou a recebe?
Qual a minha, a sua missão específica? Existe alguma diferença entre a alma feminina e a alma masculina?
Uma mulher que não sabe quem é, qual sua missão e vocação, vive uma crise, pois está desorientada, não sabe o que fazer, o que pensar, “não saber ao que se ater”. A isso chamamos de “crise”, e essa crise se revela em como ela vive o seu dia a dia diante do mistério da sua feminilidade.
A redescoberta da vocação original retira a mulher desse lugar de desencontro e de crise, e a faz descansar, repousar, agarrada a sua verdade e aquilo que ela foi feita para ser.
A vocação e a essência da mulher por São Tomás e Edith Stein
Para São Tomás, todo ser, tudo que existe possuí uma essência. Todos nós possuímos uma essência, é ela que define o que somos. Na essência está também a finalidade, que diz aquilo para o que a pessoa foi feita, para o que ela existe e cuja finalidade é Deus – não é sucesso, não é dinheiro, é Deus. E sem entender essa finalidade, não há felicidade. Na essência, está definida a identidade.
De onde vem essa essência, como ela é plantada em nós? O homem, quando criado por Deus, recebe, em seu coração, uma vocação universal. Chamamos assim porque todo homem, sem exceção, recebe de Deus essa convocação, a um mesmo fim último, que é a santidade. A palavra “vocação” vem do latim vocare, que significa “chamar”. Para São Tomás, escolástico e metafísico, a vocação universal e o fim último do homem é Deus. “O homem foi criado à imagem de Deus”. “Sua finalidade é a visão beatífica d’Ele, isto é, conhecer e amar a Deus na eternidade”.
Eu quero trazer para você Edith Stein, filósofa, fenomenóloga, discípula de Husserl, convertida ao catolicismo, carmelita, mártir. Ela retoma São Tomás, mas aprofunda existencialmente a questão da vocação: Para ela, cada mulher tem uma vocação pessoal e única, mas enraizada na mesma vocação universal.

Créditos: Arquivo CN.
Ela chama de vocação original, que é o chamado inscrito por Deus na própria estrutura da mulher, é aquilo que você é chamada a ser antes de decidir qualquer coisa. Não é profissão. Não é inclinação psicológica. É estrutura ontológica. O ser precede o agir. A essência precede a escolha. A vocação precede o projeto de vida.
Você tem uma forma interior espiritual. E essa forma foi criada por Deus. Tem estrutura. Tem direção. Tem um modo próprio de amar e servir. Mas atenção: a vocação original não é “Descobrir meu talento”. “fazer o que gosto”, “seguir meu coração”. É tornar-se aquilo que Deus quis quando a criou. Você não é apenas biologia.
Para Edith Stein, influenciada por Tomás Aquino, a mulher não é um produto do acaso, mas uma pessoa criada com essência determinada, para uma missão específica.
Não seria apenas uma inclinação pessoal, uma preferência, mas um desígnio divino: Deus cria cada mulher com um propósito, uma missão a cumprir. A palavra “propósito” vem do latim propositum, que significa “aquilo que está adiante”, ou seja, algo que precisamos alcançar. A vocação original se torna assim a meta, o propósito pelo qual a mulher empenha a sua busca nesta terra; concretizá-la exigirá seu empenho diário.
A vocação original e universal são comuns ao homem e à mulher. Mas, dentro dela, existe uma diferenciação das funções de acordo com a natureza diversa dos sexos, sendo equivalente à missão que cada um deles porta. No paraíso, Deus os criou da mesma natureza humana, ambos com alma racional, mas diferenciados quanto ao sexo (gênero).
A mulher não se inventa, ela se descobre chamada. Quando não entendemos isso e acreditamos no que nos afirma a modernidade que substituiu: Essência → por construção social /Natureza → por autoafirmação / Finalidade → por desejo.
Resultado: A mulher já não pergunta: “Para que fui criada?” Ela pergunta: “O que eu quero ser?” Isso inverte a ordem.
Consequências: Confusão sexual /Relativismo moral / Ansiedade existencial / Profissionalismo vazio / Vida sem eixo transcendente.
Sem finalidade objetiva, a liberdade se torna peso. A vocação original, ao contrário: Dá direção / Dá hierarquia / Dá critério / Dá estabilidade interior.
A alma é a forma do corpo
Onde está depositada em nós a nossa essência, aquilo que define o que somos, nossa missão e finalidade?
“À imagem de Deus o criou”(Gn 1:27). Isso quer dizer que deu a eles uma alma racional com inteligência e vontade, e criou ali o homem corpo – alma e espírito. Deus criou também a alma feminina e a alma masculina, e ela deu forma ao homem e a mulher, cada um com uma essência própria, carregada de características e potências que foram definidas ali na criação de ambos, conforme a missão o propósito pensado especificamente para cada sexo. E o corpo é gerado a partir dessa alma. Está na alma então a definição desse ser.
A Doutrina da Igreja ensina que cada alma, em singular, é criada diretamente da mão de Deus. A concepção tomista-aristotélica vê na alma a forma essencial de todo ser: “anima forma corporis est – a alma é a forma do corpo, como afirma São Tomás.
Sendo a forma do corpo humano a alma, está nela a essência tanto do homem quanto da mulher. Edith Stein deduziu da verdade formulada por Tomás: anima forma corporis: “a alma é o princípio formador do corpo, e, em vista do corpo feminino deve corresponder também uma alma feminina…”. A alma é então a forma supramaterial que anima um corpo, configurando-o a partir do interior segundo sua espécie essencial.
Tomás de Aquino assume Aristóteles e aperfeiçoa: A forma é o princípio que atualiza a matéria / A alma humana é a forma do corpo. Ou seja: a alma não está “dentro” do corpo como água num copo. Ela é o que faz o corpo ser um corpo humano vivo. Sem alma → cadáver. Com alma → ser humano.
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A alma feminina
Olhando para a criação, a partir da evidência que Deus inicia a humanidade com duas formas (a feminina Eva e a masculina Adão), vemos claramente que a diferença não está somente na parte corpórea, material, mas, de forma determinante, naquilo que há em ambos de imaterial: na essência, na natureza, na alma.
E como no ser humano há uma unidade entre corpo, alma e espírito que entrelaça e envolve todas essas realidades, garantindo um ser completamente diverso do outro em todos os seus aspectos e nuances, essas diferenças intrínsecas se revelarão na existência de cada um, na medida em que assume o seu papel, o seu lugar no mundo, na sociedade, na vida.
Edith Stein salienta que “Segundo a minha convicção, a espécie humana se desdobra na espécie dupla, homem e mulher, de modo que a essência do ser humano – em que não se deve faltar nenhum traço de um ou do outro lado – se manifesta de dupla maneira, revelando-se a marca específica em toda a estrutura do ser. Não é só o corpo ou funções fisiológicas que são diferentes; a vida toda no corpo é diferente, a relação entre alma e corpo é diferente e, no âmbito da alma, difere a relação entre o espírito e a sensibilidade, bem como a relação entre as diversas forças espirituais” (STEIN, 2020, p.167).
Tendo o homem e a mulher não só corpos, mas naturezas e essências diversas e específicas, encontramos nessas realidades inclinações que definem o modo de ser de cada um, sua identidade e, como fruto dela, sua missão. Está escrito, então, em suas almas a sua vocação original, o que haverão de ser neste mundo, para que, de forma ordenada, homem e mulher caminhem em busca daquilo que foi perdido no paraíso: uma vida em perfeita ordem.
Meiriane Silva Faria
Missionária da Comunidade Canção Nova, graduanda em Filosofia
Bibliografia:
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, Ecclesiae: São Paulo, 2017.
MARÍAS, Julián. Antropologia Metafísica: a estrutura empírica da vida humana. São
Paulo: Duas Cidades, 1971.
STEIN, Edith. A mulher segundo a natureza e a graça. São Paulo: Ecclesiae, 2020.



