Para falar do verdadeiro sentido do Natal, parece-me muito propício usar essa homilia de Santo Agostinho.
“Desperta, ó homem: por tua causa Deus se fez homem. Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá (Ef 5,14). Por tua causa, repito, Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te libertarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado.

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Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a Sua misericórdia. Não voltarias à vida, se Ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se Ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te.
A experiência do Natal deve ser essa de despertar, acordar para essa grandiosa presença na sua vida e no seu interior. Você nunca está sozinho, sempre tem como contar com Ele. Você só precisa acordar e usufruir dessa verdade. E ele lhe abriu as portas da vida eterna, você então precisa acordar para isso: existe uma vida além dessa, uma vida em abundância! Acordar para a realidade sobrenatural e o sentido da vida. Celebremos com alegria a vinda da nossa salvação e redenção.
Celebremos este dia de festa, em que o grande e eterno Dia, gerado pelo Dia grande e eterno, veio a este nosso dia temporal e tão breve. Você pode dar grande valor e ter imensas expectativas para essa vida aqui, mas a vida verdadeira e plena não é essa, pois essa é frágil e passageira; aquela é plena e eterna. O Natal também é momento para encarar essa vida e ‘suas coisas’ como meros instrumentos para alcançar a eternidade.
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É um bom momento para refletirmos sobre essa transitoriedade da vida. Pare um pouco, um momento de oração para dar uma olhada na sua vida e onde suas escolhas o estão conduzindo … é para essa vida eterna e verdadeira? Se não for, se você só visa acumular para essa vida, está usando mal esse grande tesouro do tempo que Deus lhe concede.
Ele se tornou para nós justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1,30-31). A verdade brotará da terra (Sl84,12). O Cristo que disse “Eu sou a verdade” (Jo 14,6) nasceu da Virgem. E a justiça olhou do alto do céu (cf. Sl 84,12), porque o homem, crendo naquele que nasceu, é justificado não por si mesmo, mas por Deus. A verdade brotou da Terra porque o Verbo se fez carne (Jo 1,14).
E a justiça olhou do alto do céu porque todo o dom precioso e toda a dádiva perfeita vêm do alto (Tg 1,17). A verdade brotou da terra, isto é, da carne de Maria. E a justiça olhou do alto do céu, porque o homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu (Jo 3,27).
O despertar da alma para a vida eterna
Queridos leitores, que a graça especial do Natal o atinja como um chacoalhão, a fim de que você possa perceber sua vida por outra perspectiva a partir do encontro pessoal e íntimo com esse Menino cujo reinado não terá fim!
Justificados pela fé, estamos em paz com Deus (Rm 5,1) porque a justiça e a paz se beijaram (cf. Sl 84,11) por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo, pois a verdade brotou da terra. Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes, na esperança da glória de Deus (Rm 5,2).
Não disse “de nossa glória”, mas da glória de Deus, porque a justiça não procede de nós, mas olha do alto do céu. Portanto, quem se gloria não se glorie em si mesmo, mas no Senhor.
Eu gostaria de provocá-lo a um momento de falar a sua verdade para Jesus. Quando você pensa n’Ele o que lhe vem à mente para falar com Ele? Uma descrença, desconfiança, reclamação? Um agradecimento, pedido, lembrança? Não importa o que seja, desde que verdadeiro.
Partilho com você um fato ocorrido comigo: certa vez, um jovem partilhou comigo que achava que não acreditava em Deus. Respondi que ele falasse isso com o próprio Deus, que Lhe falasse sobre essa sua verdade. A partir dessa oração verdadeira, Deus mesmo providenciou uma experiência autêntica da Sua presença, que reavivou a fé daquele jovem. Aproveite o Natal para esse momento de verdade com Deus.
Eis por que, quando o Senhor nasceu da Virgem, os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Lc 2,14 Vulgata). Como veio a paz à Terra senão por ter a verdade brotado da terra, isto é, Cristo ter nascido em carne humana?
Ele é a nossa paz: de dois povos fez um só (cf. Ef 2,14), para que fôssemos homens de boa vontade, unidos uns aos outros pelo suave vínculo da caridade. Alegremo-nos com essa graça, para que nossa glória seja o testemunho da nossa consciência, e assim nos gloriaremos não em nós mesmos, mas no Senhor. Por isso disse o Salmista: “Vós sois a minha glória que levanta a minha cabeça” (Sl 3,4). Na verdade, que graça maior Deus poderia nos conceder do que, tendo um único Filho, fazê-lo Filho do homem e, reciprocamente, fazer os filhos dos homens serem filhos de Deus? Procurai o mérito, procurai a causa, procurai a justiça, e vede se encontrais outra coisa que não seja a graça de Deus.”
Depois da leitura dessa apaixonada homilia que lemos acima, eu gostaria de lhe sugerir ainda um brevíssimo retiro. Inicie com uma oração simples, falando sua verdade. Leia a homilia de Santo Agostinho, que pode ocasionar algumas perguntas próprias para serem refletidas em nosso coração; e entre tantas possíveis, poderíamos nos perguntar, por exemplo: Consigo superar o sentido da celebração unicamente por tradição e repetição, e deixar-me atingir pelos afetos e pela fé? Qual é, de fato, o sentido do Natal que carrego em meu interior?
Como tenho preparado o meu interior para esse Natal? Certamente, o tempo do Advento chama-nos, de tantas formas, a preparar-nos interiormente para a grande celebração do Verbo encarnado. Você pode tirar 30 minutos pelo menos para esse breve momento, depende da sua generosidade.
Curando a cegueira do coração neste Natal
Gostaria de encerrar ainda com a reflexão de santo agostinho sobre essa preparação interior De fato, porque “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós”, pelo Seu próprio nascimento fez um colírio com o qual fossem purificados os olhos do nosso coração e assim pudéssemos ver, por meio de Sua humildade, a Sua majestade. “O Verbo
Se fez carne e habitou entre nós”. Curou os nossos olhos. E o que se segue? “E nós vimos a Sua glória”. Sua glória, ninguém poderia ver, se não fosse curado pela humildade de Sua carne. E por que não podíamos ver? Que a vossa caridade preste, pois, toda a atenção!
Vede o que digo: tinha entrado como que poeira nos olhos do homem, tinha entrado terra, tinha ferido o olho, e não podia ver a luz: este olho ferido é ungido. Tinha-se ferido pela terra e terra ali se introduz para que se curasse. Todos os colírios e remédios nada são senão algo da terra. Tu te cegaste
pelo pó, pelo pó és curado; cegara-te, pois, a carne; a carne te cura. Tua alma tinha-se tornado carnal, consentindo nos afetos da carne, e os olhos de teu coração ficaram cegos. “O Verbo Se fez carne”, esse Médico preparou-te um colírio.
E porque Ele veio de tal modo para extinguir, a partir da carne, os vícios da carne e matar a morte com a morte, aconteceu-te que, porque “o Verbo Se fez carne”, possas dizer: “E nós vimos a Sua glória”.
Que glória é essa? A de ter se tornado Ele filho do homem? Aí está Sua humildade, não Sua glória! Mas aonde é conduzido o olhar do homem, curado pela carne? “Nós vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. A respeito da graça e da verdade, trataremos mais abundantemente
em outro lugar neste mesmo Evangelho, se o Senhor se dignar conceder-nos.
Sejam-nos suficientes, por agora, as coisas que dissemos. Edificai-vos em Cristo, confortai-vos na fé e vigiai nas boas obras: e não vos afasteis do lenho por meio do qual podeis atravessar o mar.
Que o Natal te faça questionar-se sobre as cegueiras, dificultando ver a amorosa presença do menino-Deus a quem voltamos o olhar de nossa fé nesse tempo solene.
Edvania Duarte Eleuterio
Missionária comunidade Canção Nova






