A busca pela identidade é uma jornada intrínseca à experiência humana, um caminho que se inicia na infância e se consolida na maturidade espiritual. No contexto da formação católica, essa busca ganha uma dimensão transcendental: o encontro com o “quem eu sou” em Deus. O processo, no entanto, é marcado por fases distintas e desafios que exigem um olhar formativo, especialmente por parte dos pais e educadores.
A construção do “Eu”, identificações e a crise da adolescência
Na tenra idade, a identidade é um espelho das palavras e olhares que nos cercam. A criança, em sua pureza, absorve as “identificações” como tijolos fundamentais para a construção do seu “eu”. O elogio da professora, o reconhecimento dos pais, tudo isso contribui para a percepção inicial de si. Contudo, essa fase de construção passiva é apenas o prelúdio para a grande crise da adolescência.
A adolescência, frequentemente descrita como uma fase perigosa, é o momento em que o jovem, num ímpeto de autoafirmação, tende a rejeitar os “tijolos” que lhe foram impostos. É a busca por uma identidade autêntica, livre das projeções parentais. A imaturidade reside em permanecer apenas nas identificações externas, como o apego a marcas, posses ou relacionamentos superficiais (“sou alguém porque tenho a tal namorada”). Essa dependência do “outro” para definir o “eu” é a raiz de graves problemas, como a fragilidade emocional e a submissão a relações abusivas, onde o medo de perder o algoz supera a dignidade do próprio ser.
Cultivando a maturidade, a escolha livre e a identidade em Cristo
A verdadeira maturidade, por sua vez, é um ato de liberdade e discernimento. É o ponto em que o indivíduo, por livre e espontânea vontade, escolhe os “tijolos” que deseja para a sua vida, rejeitando aqueles que foram meramente colocados. Para o cristão, essa escolha madura implica reconhecer que a identidade mais profunda e inalienável reside no fato de ser filho de Deus, um ser transcendente, dotado de dons e potenciais únicos.
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Neste caminho, os pais e educadores têm um papel crucial: o de guardiões e facilitadores, e não de arquitetos. O grande desafio é evitar a tentação de projetar as próprias frustrações e desejos nos filhos (“eu queria que meu filho tocasse violino, mas ele é DJ”). É preciso respeitar a singularidade dos dons e a vocação de cada um, inclusive as decisões de missão e a forma particular de viver a espiritualidade. Menosprezar os dons ou “massacrar os pontos fracos” é bloquear o desabrochar do “quem ele é” em sua plenitude.
O papel da família na formação católica: respeitar e cultivar os dons
A educação dos filhos na fé passa necessariamente pelo respeito à sua individualidade. Nós somos chamados a cultivar os dons que Deus depositou em nossos filhos, e não a impor nossas expectativas. A espiritualidade do jovem deve ser acompanhada com respeito e abertura. Se um prefere a efusão de um retiro de massa, e outro a quietude de um mosteiro, ambos os caminhos devem ser validados e, se possível, proporcionados. Ajudar o filho a descobrir sua forma de ser espiritual é um ato de amor que o fortalece em sua identidade.
A plenitude do ser: cultivando o amor e a missão
Finalmente, a maturidade cristã culmina no paradoxo do amor: “Quanto mais eu sou o outro, mais eu me torno eu.” A plenitude do ser não se encontra no isolamento egocêntrico, mas na entrega e na missão. Ao levar o outro a amar o próximo, ao sair de si em direção à caridade, o indivíduo se descobre e se realiza em sua vocação mais profunda. A identidade em Cristo é, portanto, uma identidade em missão, onde o serviço ao próximo é o caminho mais seguro para a descoberta do verdadeiro “eu”. A lauda do ser se completa quando o amor se torna a única e definitiva identificação.


