O zelo pastoral como fruto da comunhão e da entrega total
O zelo pastoral nasce da profunda comunhão com o Senhor. Diz Jesus: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo15,5). Sem essa comunhão – isto é, sem vida de graça e sem reta intenção – tudo aquilo que o padre realiza corre o risco de se tornar apenas um grande peso. A verdadeira alegria espiritual é fruto de uma vida realmente entregue. Entregar-se pela metade, sem esforço real e sem a busca de um ideal concreto e possível, é como dar murro em ponta de faca: cedo ou tarde, a frustração e a tristeza acabam ocupando o coração.

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A comunhão com Deus é o consolo do coração sacerdotal e, ao mesmo tempo, o ponto de partida de todo agir pastoral. Quando ela falta, até a criatividade pastoral pode se transformar em ocasião de frustração e perda do sentido do ministério.
O amor desinteressado e o exemplo do Cura d’Ars
É dessa comunhão que nasce um amor puro e desinteressado pelo povo confiado ao sacerdote. João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars, rezava certa vez: “Meu Deus, concedei-me a conversão da minha paróquia. Aceito sofrer o que quiserdes durante toda a minha vida!” Somente um verdadeiro amor de pai espiritual é capaz de fazer uma paróquia crescer no Reino de Deus e tornar-se sinal vivo do amor do Senhor.
O padre que ama verdadeiramente o seu povo, por amor a Deus, encontra unidade interior. A liberdade e a força do sacerdote estão nesse amor puro e desinteressado. O medo de se frustrar ou a busca de “planos B”, que não sejam o plano divino – a confiança e a entrega a Deus –, acabam conduzindo o padre, mais cedo ou mais tarde, ao fracasso interior.
Muitos sacerdotes, infelizmente, sentem-se frustrados no ministério. Dizem que já fizeram de tudo e que não há mais nada a fazer. Diante disso, o Cura d’Ars respondeu certa vez a um amigo: “Rezastes, chorastes, gemestes, suspirastes… Mas porventura jejuastes? Fizestes vigílias? Dormistes sobre o chão duro? Fizestes penitências corporais? Enquanto não o fizerdes, não julgueis que fizestes tudo”.
A verdade é simples e exigente: ou o padre ama, com um amor puro e desinteressado, o povo que lhe foi confiado, ou estará desperdiçando o próprio ministério. Amar o povo por amor a Deus não é um detalhe da vida sacerdotal – é a sua própria condição de possibilidade. Sem esse amor, o coração do padre corre o risco de endurecer, e o ministério de perder o sentido.
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A importância do cuidado com a vida intelectual
Além da vida de graça e da retidão de consciência, é necessário também um cuidado sincero com a vida intelectual.
Ela faz parte do zelo pastoral, porque forma a consciência do sacerdote. Alguns padres acabam se acomodando e pensam já saber o suficiente, deixando de lado o estudo e a leitura. No entanto, os conteúdos da fé – presentes no Catecismo, na reflexão teológica e nos grandes mestres da tradição – são um alimento precioso para a inteligência e para o coração do pastor.
O estudo como encontro e a contribuição da literatura
Esse estudo não é apenas acúmulo de conhecimento; antes de tudo, deve ser um encontro com o Senhor que se revela na verdade. Da vida intelectual brota também uma pregação mais sólida e mais fecunda, verdadeiramente orientada para a salvação das almas.
A literatura também tem seu lugar nesse caminho. Ela abre diante do sacerdote o vasto campo da experiência humana: seus dramas, suas perguntas, suas esperanças. Nesse contato com a realidade humana narrada nas histórias, o padre pode encontrar luzes preciosas para compreender melhor as almas que lhe foram confiadas.
Por fim, é preciso recordar: o zelo que nasce do amor próprio, alimentado por um perfeccionismo fechado em si mesmo, acaba destruindo o sentido do ministério. Já o zelo que nasce do amor a Deus – sustentado pela graça, pela reta consciência e pela pureza de intenção – conduz o sacerdote ao próprio coração de Deus. E é ali, no coração de Deus, que o padre reencontra o verdadeiro sentido da sua vida e do seu ministério.
Padre Leandro Rodrigues dos Santos
Arquidiocese de Curitiba
Mestre em teologia na Universidade Salesiana de Roma
Reitor do Seminário Propedêutico São João Maria Vianney
Pároco da Paróquia Santíssimo Sacramento em Curitiba


