Tempo de esperança

No dia 30 de novembro passado, o papa Bento XVI assinou sua segunda carta-encíclica Spe salvi, na qual aborda o tema da esperança cristã. Na primeira tratou da caridade (Deus caritas est); falta agora uma encíclica sobre a fé, para completar a trilogia sobre as virtudes teologais, que fazem parte da essência da vida cristã. A publicação aconteceu 2 dias antes do início do período litúrgico do Advento, vivido pela Igreja como um “tempo de esperança”.

A esperança é um estado de espírito ou uma convicção que nos projeta para o futuro e já nos faz viver em função desse futuro; quem espera ansiosamente uma visita já vive antecipadamente as emoções do encontro; a mulher que espera um filho faz a experiência da maternidade bem antes do parto e até já projeta o futuro do bebê; e quem espera ser um profissional brilhante não poupa esforços e sacrifícios para alcançar sua meta. As esperanças humanas tornam a vida interessante e são como molas que nos projetam para o futuro e, de alguma forma, o trazem para o presente. A vida sem esperanças seria triste e sem cor.

Mas de qual esperança fala o Papa na encíclica? Naturalmente, não trata de todas as esperanças humanas, embora sejam importantes e belas; refere-se à esperança cristã que decorre da fé em Deus e dá um novo sabor à vida. Quem crê em Deus nunca está sozinho e não conta apenas com os próprios recursos e energias para alcançar a meta da existência; pode, por isso, sonhar alto, além do horizonte da própria finitude, e projetar-se na imensidão de Deus. A esperança cristã baseia-se na veracidade de Deus e conta com sua fidelidade para com as criaturas. Por isso, diz o Papa, quem espera, recebe uma existência nova e pode viver diversamente.

Decorre daí também uma compreensão própria das realidades deste mundo e sobre a existência humana: as coisas, bem como a vida do homem, não são governadas simplesmente pelos elementos do cosmos, nem pelas leis cegas da matéria ou da evolução. Não somos escravos do universo e de suas leis e a vida não é simples produto de casualidade da matéria. “O céu não está vazio”, afirma o papa; em tudo e acima de tudo, há uma Vontade pessoal que se revelou ao mundo como Providência e Amor.

A esperança cristã, por isso, não se refere somente a bens que já se podem possuir e usufruir já nesta vida; por importantes e belos que sejam, esses bens não satisfazem plenamente as buscas humanas; nosso coração quer mais, sonha com muito mais. A encíclica toca no tema da vida eterna que, talvez, possa parecer estranho ao pensamento contemporâneo, tão afeito à concretude e à autonomia pessoal. Talvez já não se pense mais na vida eterna porque esta parece distante e pouco desejável; para muitos é preferível usufruir o momento presente a esperar algo para além daquilo que podemos garantir por nós mesmos. E o papa pergunta: o que, afinal, queremos da vida?

A esperança cristã seria contrária ao bem deste mundo? No passado, o cristianismo foi taxado de alienante por anunciar esperanças realizáveis somente na vida eterna; a própria idéia de Deus, por isso mesmo, foi qualificada como contrária ao bem presente do homem. Na encíclica, o papa Bento XVI assegura que a verdadeira esperança cristã, longe de fechar o homem no individualismo ou de aliená-lo de suas tarefas nesta vida, compromete-o ainda mais nas responsabilidades terrenas, para plasmar este mundo dos homens de acordo com o reino de Deus. Portanto, somente uma fé mal compreendida e uma esperança desfocada levam a desprezar a vida e a fugir da tarefa quotidiana na edificação deste mundo.

Bento XVI também fala da insuficiência dos projetos de vida pessoal e social que colocam a esperança apenas em sistemas políticos e econômicos, no ideal do progresso científico e tecnológico, ou no aperfeiçoamento das estruturas da convivência humana. Tudo isso é necessário mas, por si só, não traz a redenção do homem; e, devendo ser gerenciado pelo próprio homem, depende da retidão de suas intenções e propósitos. Por isso mesmo, não pode haver a ilusão de que o bem final do homem consiste em alguma de suas próprias criações: as boas estruturas ajudam, mas elas terão sempre e apenas a medida do próprio homem e carregam a marca da sua falibilidade, podendo inclusive voltar-se contra o próprio homem.

Nos projetos humanos há sempre a esperança de redenção e salvação; mas o verdadeiro bem do homem só pode ser assegurado quando o objeto de sua esperança vai além daquilo que ele próprio pode dar-se e garantir para si. O homem tem necessidade da salvação. Este é um conceito caro ao cristianismo e às demais religiões, mas sempre mais complicado para o homem contemporâneo, tão auto-suficiente, que não consegue aceitar que sua vida possa depender de alguém outro. Mas, finalmente, só Deus pode salvar o homem e dar sentido e certeza à sua existência.

A encíclica também aborda a aspiração à verdadeira justiça como objeto de esperança. Neste mundo, porém, por mais que devamos buscá-la com todas as forças da reta vontade, a justiça será sempre imperfeita. No entanto, o coração humano tem fome e sede de justiça e não se satisfaz com meia justiça: ficará desatendido para sempre? A esperança cristã também está relacionada com as realidades “finais” da existência: o julgamento de Deus, o prêmio, o castigo e a vida eterna. O julgamento de Deus é a última instância da justiça. Não será indiferente, naquele momento, ter praticado o bem ou ter-se obstinado no mal.

O juízo de Deus, porém, não deve ser visto logo como uma instância terrível e sem apelação, pois será exercido no tribunal da misericórdia e da graça.

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