✝️ Conversão

Quarta-feira de Cinzas e início da Quaresma: tempo de conversão profunda

Começa o tempo da Quaresma

Todos os anos, neste período, as cinzas são depositadas em nossas cabeças e, com este sinal, começa o tempo da Quaresma. Mas de onde vêm as cinzas? Elas são fabricadas a partir dos Ramos da Semana Santa do ano anterior. Assim, os ramos se tornam testemunhas de um ciclo: são abençoados no Domingo de Ramos e transformados em cinzas no início da próxima Quaresma.

Créditos: Arquivo CN.

Tradicionalmente, por piedoso costume, o povo guarda os ramos bentos para queimá-los em ocasiões de necessidade, pedindo que se acalmem tempestades, que sejam protegidos os lares e que sejam afastadas as doenças e as pragas da lavoura. Mas se os ramos forem conservados, são incinerados e transformam-se em cinzas.

Os acontecimentos humanos podem se tornar memórias duradouras

O grande patriarca Jacó, tendo aceitado os termos de um acordo proposto por Labão, tomou uma pedra como testemunha e pediu a seus irmãos para juntar mais pedras até fazer um pequeno monte com elas. Depois, Labão lhe disse: “Que este monte seja, hoje, testemunho entre mim e ti” (Gn 31,48). Por aí se vê que até os seres inanimados testemunham os acontecimentos humanos e podem se tornar memoriais duradouros.

Talvez seja por isso que, quando todos os homens se calam, resta o testemunho das pedras: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40). Portanto, quando receberes as cinzas, lembra-te de que elas vieram dos ramos. Ramos que foram cortados de árvores, guardados com devoção e agora destruídos para sempre.

És pó e ao pó hás de voltar

Pensa no ramo que, há um ano, tu mesmo levantavas na procissão. Levaste-o para casa e guardaste-o cuidadosamente. Muita coisa boa aconteceu; muitos problemas surgiram e foram superados; muitos fracassos e desilusões também tiveram lugar. E, então, ouve bem o que diz o padre ou o diácono enquanto impõe sobre ti as cinzas: “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” (cf. Gn 3,19). E, então, teu coração ficará repleto de sentimentos misturados: as coisas ruins não irão durar para sempre e várias delas já até tiveram fim. E, assim, renova-se a esperança com a lembrança de que tudo passa. Por outro lado, virão à tua mente as boas memórias de momentos de alegria e de vitórias alcançadas; e te será lembrado que também esses bons instantes foram passageiros. Afinal, tudo passa.

Tempo quaresmal: um olhar interior para refletir a vida

Esse tempo quaresmal nos propõe um olhar interior nos levando a refletir sobre as nossas vidas: “Ó, Senhor, como é que caímos tão facilmente em tantas ilusões? Como nos deixamos levar pela euforia de conquistas terrenas e por prazeres que são tão passageiros? E como pudemos nos deixar abater tão facilmente por males que também não podem durar pela eternidade?”.

Meu Deus, como gritam essas cinzas! Sim, elas gritam enquanto se cala o mundo. Elas gritam de modo repetitivo e tão claro que tudo, absolutamente tudo, passa. Passam as alegrias e as tristezas; passam as dores e os prazeres. Mas elas – as cinzas – testemunham também a verdade do que disse Jesus: “Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão” (Mt 24,35).

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É hora de conversão

Ramos e cinzas nos mostram, caro irmão, que é hora de conversão. Em nenhum lado para onde olhares, encontrarás a saída que procuras. A saída, a única saída, está no alto. Sabe de onde pode vir o teu socorro? Levanta os olhos para as montanhas. Teu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra (cf. Sl 120,1-2). Corações ao alto! Corações em Deus!

Que a Virgem Maria e o nosso Anjo da Guarda nos acompanhem nesta caminhada quaresmal. Amém.

Por Padre Ricardo Passamani