🐑 Pastoreio

Pastor e ovelha: uma reapresentação da pastoral

“O pastor deve ter o cheiro de suas ovelhas…” Com essa frase, que foi marcante no pontificado do Papa Francisco, eu gostaria de introduzir essa temática tão presente na Igreja nos dias de hoje, mas que tem suas raízes na tradição bíblica e na realidade camponesa na qual estava inserido o próprio Jesus. Falo da relação: Pastor – Ovelha / Ovelha – Pastor. Uma metáfora, inclusive, questionada e criticada por teólogos como Renold Blank. No entanto, não obstante os limites da linguagem colocados nesta realidade, a frase do Papa Francisco repropõe esta imagem ao mundo.

Créditos: Laurinson Crusoe by Getty Images.

Nas palavras e no pastoreio de Francisco, resgatamos um termo que se tornou cada vez mais importante a partir da Igreja pós-Concílio Vaticano II. O termo é pastoral. Do latim, essa palavra indica aquele que cuida, guia, apascenta um rebanho. Inclusive, foi esta a ordem de Jesus dada a Pedro, presente no Evangelho de João (Jo 21,15-18).

Quem são os pastores, quem são as ovelhas?

Na história, este termo ou conceito [contido na raiz de sua palavra] de pastoral se fortaleceu como uma ação social da Igreja em favor de uma necessidade concreta. Como exemplo, temos as muitas pastorais presentes em nossas comunidades cristãs: a Pastoral da Criança, a Pastoral da Pessoa Idosa e, assim por diante, uma vasta ação pastoral que permeia o existir da Igreja no mundo. E aqui nos colocamos a pergunta: quem são os pastores, quem são as ovelhas, às quais o Papa Francisco se dirigia?

Parece-me importante retomar esses termos e reapresentá-los ao mundo de hoje. E faço isso a partir de sua própria raiz bíblica na tradição cristã. Para tanto, não me fundamento nas muitas passagens bíblicas que falam sobre apascentar o “rebanho do Senhor”, mas refiro-me àqueles humildes pastores no campo de Belém, que “viram no céu uma estrela” (cf. Mt 2,2) e foram à manjedoura, e viram o Menino, o Pastor Supremo (cf. Jo 10,11).

Os pastores e a tradição judaica

A história, a partir daí, todos nós conhecemos bem. No entanto, vale contextualizar quem eram estes pastores antes do nascimento de Jesus. De acordo com a tradição judaica, o serviço que os pastores realizavam os tornava impuros, fato que os impedia de estar, como os outros, dentro das sinagogas. Eles, os pastores, eram considerados a classe mais baixa da sociedade. Valendo-se da metáfora pastor-ovelha — designada para a relação cuidador–cuidado, líder–liderado — entendemos que pastor e ovelha estavam na mesma condição: ambos no campo, oferecendo à sociedade um sacrifício diferente. As ovelhas, ao serem sacrificadas, reparavam os pecados de muitos. Os pastores sacrificavam a dignidade de estar na sinagoga, para que muitos tivessem seus pecados perdoados.

Pastores e ovelhas guiados pela luz que vem da pessoa de Jesus Cristo

Pastor-ovelha, ovelha-pastor, não fala de uma relação de poder, como interpretara Renold Blank ao escrever Ovelhas ou protagonistas – A Igreja e a nova autonomia do laicato no século XXI, embora possamos enxergar esta relação; e é justamente neste ponto que Francisco repropõe. A Igreja não é uma empresa na qual o poder político ou econômico dita as regras de seu modo de ser no mundo. Muito pelo contrário, ela tem suas raízes no campo dos excluídos. Seus pastores de hoje são aqueles que se identificam como ovelhas e se deixam guiar, não mais pela estrela no céu, mas pela luz que vem da pessoa de Jesus Cristo, como um farol que mostra e ilumina nosso caminho (cf. Jo 8,12).

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A humildade, serviço e mística

Hoje, são ovelhas não aqueles que são silenciados em suas habilidades e potencialidades em vista de se entregarem a uma guia cega e irracional. Mas são ovelhas aqueles que se identificam como pastores e atuam neste campo — sempre missionário — dos excluídos, que é a própria sociedade em que vivemos.

Este perfil exige humildade, serviço e mística: três características que podem ser tema para uma próxima conversa, mas que, por agora, posso dizer que, sem elas, a relação pastor-ovelha, ovelha-pastor, é comprometida e corrompida. Perde seu sentido original, entrega-se à técnica de liderar e se afasta daquele “fazei isto em memória de mim…” (cf. Lc 22,19)

Padre Robson Caramano
Mestrado em Filosofia com especialização em filosofia prática na Pontifícia Universidade Gregoriana