Paternidade divina
Com a oração do Pai-Nosso, Jesus Cristo nos ensina a nos dirigirmos a Deus como Pai. Orar ao Pai é entrar em Seu mistério, tal como Ele é, e tal como o Filho no-lo revelou. Como observa Tertuliano, a expressão “Deus Pai” nunca fora revelada a ninguém; quando Moisés perguntou a Deus quem Ele era, ouviu outro nome. A nós, este nome foi revelado no Filho, pois este nome novo implica o “novo” do Pai.
Ao ensinar o Pai-Nosso, Jesus revela também a Seus discípulos que eles foram feitos partícipes de Sua condição de Filho. Mediante a revelação desta oração, os discípulos descobrem uma especial participação na filiação divina. Como afirma São João em seu Evangelho, a quantos acolheram o Verbo feito carne, Jesus deu o poder de chegar a ser filhos de Deus. Por isso, com razão, os cristãos rezam segundo o Seu ensino: “Pai Nosso”.

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A distinção entre a filiação de Jesus e a nossa
Jesus Cristo sempre distingue entre “meu Pai” e “vosso Pai”. De fato, quando Ele reza, nunca diz “Pai Nosso”, o que demonstra que Sua relação com Deus é totalmente singular. Com a oração do Pai-Nosso, Jesus deseja conscientizar Seus discípulos de sua condição de filhos de Deus, indicando, ao mesmo tempo, a diferença que há entre Sua filiação natural e a nossa filiação divina adotiva, recebida como dom gratuito de Deus.
Parresia na oração
A oração do cristão é a oração de um filho de Deus que se dirige a seu Pai com confiança filial. Essa confiança se expressa nas liturgias de Oriente e de Ocidente com a bela palavra, tipicamente cristã: parresia. O termo indica simplicidade sem rodeios, confiança filial, segurança alegre, audácia humilde e a certeza de ser amado.
Originalmente, o vocábulo parresia indicava o privilégio da liberdade de palavra do cidadão grego nas assembleias populares. Os Padres da Igreja adotaram esse termo para expressar o comportamento filial do cristão diante de Deus. Ao chamarmos Deus de “Pai Nosso”, reconhecemos que a filiação divina nos une a Cristo, o “primogênito entre muitos irmãos”, por meio de uma verdadeira fraternidade sobrenatural. A Igreja, portanto, constitui esta nova comunhão entre a divindade e os homens.
Santidade e fraternidade
A santidade cristã, ainda que seja pessoal e individual, nunca é individualista ou egocêntrica. Se rezamos verdadeiramente ao nosso Pai, saímos do individualismo, pois o amor que acolhemos nos liberta. O adjetivo “nosso”, no começo da oração do Senhor, bem como o “nós” dos quatro últimos pedidos, não exclui ninguém. Para que a oração seja dita em verdade, devemos superar nossas divisões e oposições.
A fraternidade estabelecida pela filiação divina estende-se a todos os homens, pois, de modo verdadeiro, todos são criaturas e filhos de Deus, chamados à santidade. Como se costuma dizer, na terra há apenas uma raça: a dos filhos de Deus. Por isso o cristão deve sentir-se solidário na tarefa de conduzir toda a humanidade para Deus.
O impulso para o apostolado e o amor cotidiano
A filiação divina nos impulsiona ao apostolado, que é uma manifestação necessária de filiação e fraternidade. Devemos pensar nos demais — primeiramente naqueles que estão ao nosso lado — como filhos de Deus, portadores de toda a dignidade desse título maravilhoso.
Portanto, o nosso comportamento deve refletir essa realidade: temos de nos portar como filhos de Deus com os Seus demais filhos. O nosso amor deve ser sacrificado, diário, composto por mil detalhes de entendimento, sacrifício silencioso e uma entrega que não se faz notar, mas que transforma a realidade ao nosso redor.




