🧠 Psicologia

O caminho de cura à luz da fé

A chaga do abuso e o silêncio das famílias

O tema do abuso sexual infantil e juvenil é uma chaga que atinge a sociedade e, de modo particular, a comunidade de fé. Longe de ser um problema restrito a estranhos, os dados revelam uma realidade dolorosa: a maioria dos abusos é perpetrada por pessoas próximas, em quem a criança ou o adolescente depositava confiança. Estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que 44% dos abusos são cometidos por pais e padrastos, e uma parcela significativa por conhecidos, tios, primos e vizinhos, essa proximidade do agressor é o cerne da confusão e do trauma, pois subverte a ordem natural do amor e da proteção.

A culpa injusta e a confusão entre o bem e o mal

Uma das consequências mais devastadoras do abuso é a culpa que a vítima carrega. Como pode alguém que foi violentado sentir-se culpado? A resposta reside na manipulação e na quebra de confiança. O abusador, muitas vezes um amigo, um professor admirado ou um familiar querido, utiliza-se dessa relação para cometer o ato, gerando na vítima uma profunda confusão entre o bem e o mal. A pessoa abusada passa a questionar a própria percepção da realidade, sentindo-se “suja” ou “indigna de ser amada”. Essa dor pode se manifestar de diversas formas, inclusive na esfera física, como o ato inconsciente de engordar para “esconder” o corpo, numa tentativa desesperada de se proteger de olhares e toques indesejados.

É crucial que a comunidade de fé e os pais compreendam que o abuso não se restringe à consumação do ato sexual. Ele abrange qualquer invasão, seja o toque indevido, a exposição à pornografia ou a exibição de um órgão sexual. O abuso é a distorção da sexualidade, um ato que fere a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus.

O porto seguro da família e a prevenção pelo amor

A prevenção mais eficaz começa no lar, com a construção de um porto seguro onde a verdade possa ser dita sem medo de julgamento. Os pais precisam ser a voz que diz: “Filho, se você se meter em uma enrascada, se algo muito ruim acontecer, por favor, me conte.” O silêncio da vítima é frequentemente motivado pelo medo de ser julgada, de apanhar ou de não ser acreditada.

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A Igreja, à luz da Teologia do Corpo de São João Paulo II, oferece um caminho formativo essencial. Não se trata apenas de alertar sobre o perigo dos desconhecidos, mas de educar para a beleza da sexualidade e do amor. A sexualidade e o corpo não são feios ou vergonhosos; são dons sagrados que devem ser protegidos e preservados. Ao ensinar a beleza do sacramento do matrimônio e a união de alma que acontece no amor verdadeiro, os pais e educadores católicos dão aos jovens a consciência daquilo que não é o amor. A verdadeira prevenção é a formação para a dignidade, que ensina a reconhecer e a rejeitar tudo o que a desfigura.

O caminho inadiável do perdão e da cura

Para a vítima, o caminho da cura passa inegavelmente pelo perdão, um processo que a fé ilumina, mas que deve respeitar o tempo e a dor de cada um. O perdão, neste contexto, não significa impunidade para o agressor, mas sim a libertação da vítima do peso da ofensa. O processo de cura, muitas vezes auxiliado por terapias reconhecidas (como o EMDR, citado no áudio, e validado pela Organização Mundial da Saúde), exige um triplo movimento de perdão:

  1. Perdão aos Pais: É comum a vítima questionar: “Por que meus pais não perceberam?” É preciso ajudá-la a entender que a manipulação do abusador é poderosa e que, na maioria dos casos, a omissão dos pais não é culpa, mas resultado da astúcia do agressor.
  2. Perdão de Si: A vítima precisa urgentemente libertar-se da culpa injusta. É um ato de fé e de razão reconhecer a própria inocência. O abuso é um crime cometido contra ela, e não por ela.
  3. Perdão a Deus: O questionamento “Por que Deus permitiu isso?” é natural na dor. A fé nos convida a compreender que Deus é o primeiro a sofrer com o sofrimento de Seus filhos, e que Sua misericórdia e amor são infinitamente maiores do que qualquer mal.

A Igreja, em sua missão de cuidar da vida, tem a responsabilidade de ser um farol de esperança e um instrumento de cura. A dor do abuso é real, mas a graça de Deus é maior. O caminho é longo, mas a promessa é de restauração da dignidade e da integridade da pessoa, para que ela possa, enfim, viver a plenitude do amor para a qual foi criada.