A saúde mental infantil tem acendido um alerta vermelho na sociedade contemporânea. Com base em artigos e pesquisas da área da psiquiatria e neurociência, a psicóloga Adriana Potexki, autora do livro “Vencendo os traumas que nos prendem”, aborda o aumento preocupante de transtornos psicológicos entre os mais jovens e traz reflexões cruciais sobre como a presença e o afeto familiar podem mudar essa realidade.
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Estatísticas alarmantes e a necessidade de olhares atentos
O crescimento dos transtornos e diagnósticos infantis
Dados do médico psiquiatra Luis Rojas Marcos revelam que 1 em cada 5 crianças apresenta algum problema de saúde mental. Além disso, houve um aumento de 200% na taxa de suicídio entre crianças de 10 a 14 anos, além de uma alta de 37% nos casos de depressão em adolescentes.
Os diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) também cresceram 43%. No entanto, nem todo comportamento atípico indica necessariamente uma patologia cerebral:
O fator atenção: A autora relata o caso de um pai que, ao ser notificado pela escola de que a filha poderia ter déficit de atenção, optou por dedicar mais tempo e atenção diária à menina — o que resultou na melhoria direta das notas escolares.
Reflexão antes do rótulo: Antes de assumir que a criança tem um transtorno mental, os pais devem avaliar se ela não está apenas necessitando de mais presença e acolhimento.
O poder do apego seguro no desenvolvimento infantil
O que é apego seguro e quais são seus impactos?
O apego seguro é a certeza interior da criança de que ela possui uma figura de referência (pai, mãe, avó, etc.) em quem pode confiar e a quem pode recorrer em momentos de dor ou medo. Essa sensação de proteção é construída desde a primeira infância, inclusive ao atender prontamente ao choro do bebê e oferecer colo.
Um estudo realizado nos Estados Unidos com 14 mil crianças apontou que 40% delas não possuem apego seguro. As diferenças entre quem desenvolve essa segurança e quem não desenvolve são marcantes:
Crianças com apego seguro: Apresentam desenvolvimento emocional, social e cognitivo superior, além de maior resiliência diante de crises familiares, pobreza, estresse parental e problemas escolares.
Crianças sem apego seguro: Estão mais propensas ao rendimento escolar e de linguagem mais pobres e a abandonarem os estudos ou empregos no futuro. Além disso, 25% evitam os pais quando enfrentam problemas por se sentirem ignoradas, e 15% não procuram ajuda por temerem ser ainda mais machucadas.
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Negligência, extremos educacionais e a função do sono
A negligência infantil nem sempre decorre da falta de recursos materiais. Mães e pais hiperconectados às telas ou excessivamente ocupados com o trabalho por vezes esquecem até de alimentar adequadamente os filhos no horário correto.
Outro ponto levantado é a repetição ou fuga dos modelos da infância:
- Filhos de pais superprotetores podem reagir tornando-se pais negligentes.
- Filhos de pais negligentes podem exagerar na superproteção quando adultos.
O sono como “lixeira dos traumas”
As crianças atuais também estão dormindo menos do que deveriam. A Fundação Nacional do Sono (EUA), após revisar 320 pesquisas, estabelece as diretrizes de descanso diário por faixa etária:
- Recém-nascidos: 14 a 17 horas por dia
- Bebês (4 a 11 meses): 12 a 15 horas
- Crianças de 5 anos: 10 a 14 horas
- Crianças de 6 a 13 anos: 9 a 11 horas por noite
- Adolescentes (14 a 17 anos): 8 a 9 horas por noite
- Adultos (18 a 64 anos): 7 a 9 horas por noite
- Idosos (65+ anos): 7 a 8 horas por noite
A neurociência e a psicologia explicam que o sono REM (fase profunda do sono em que ocorrem movimentos oculares rápidos) atua na cicatrização emocional. Ele estimula simultaneamente os hemisférios direito e esquerdo do cérebro (razão e emoção), funcionando como uma verdadeira “lixeira dos pequenos traumas” acumulados ao longo do dia.
Resgatando a proteção e o afeto na criancice
Para proteger a saúde emocional das crianças, é fundamental resgatar ações simples: garantir que durmam o suficiente, oferecer colo, permitir que sintam a segurança do ambiente familiar e restaurar o apego seguro como o porto seguro da infância.






