chega de ser morno!

Não leve uma vida mundana

Se procurarmos bem, é possível ver o mar daqui do meu apartamento, que fica no décimo primeiro andar. Entre prédios, casas, árvores e tantas coisas, há uma fresta, uma pequena brecha de onde se vislumbra um pedacinho meio verde, meio azul do oceano Atlântico. Lembro-me que quando viemos morar aqui e minha esposa percebeu isso, brincamos dizendo que se o apartamento fosse nosso e um dia quiséssemos vendê-lo, poderíamos colocar no anúncio: apartamento com vista para o mar. Outro dia eu estava na varanda com minha filha menor e quando avistei o oceano, lembrei de Santa Teresa e do amor de Deus. Este é o primeiro de uma série de cinco textos em que apresentarei uma reflexão sobre o caminho que devemos trilhar para sairmos de uma vida espiritual morna e mundana para uma busca determinada e incansável por Deus.

Santa Teresa d’Ávila nos ensinou que nossa alma é como um castelo com muitas moradas, cômodos e compartimentos. Deus habita no mais íntimo desse castelo, e quanto mais adentramos nessa construção, mais conseguimos perceber Sua Majestade e seu infinito amor e mais conseguimos corresponder a esse amor. O grande problema atualmente é que a maior parte das pessoas sequer entra no castelo da sua própria alma. Fica nas suas cercanias, do lado de fora dos portões, perdida entre as feras, que são as paixões desordenadas, os vícios, os pecados. A sensibilidade da alma fica então comprometida diante dessa situação, a ponto de a pessoa se tornar incapaz de enxergar o amor de Deus. Não é que Deus se afaste da pessoa. Ele está sempre no mais íntimo do nosso coração, falando conosco, convidando-nos a abandonar essa vida de perdição e a amá-Lo. Quando estamos fora do castelo, entretanto, somos como João, que será o personagem dessa nossa história. Ele mora longe do litoral, em algum recanto no centro do nosso imenso país e nenhuma circunstância fará com que ele aviste o mar lá de onde ele está. Ele pode subir no prédio mais alto da sua cidade e ainda assim seus olhos não alcançarão a beleza das praias, o encanto das ondas, a grandeza do oceano. Da mesma maneira, alguém do lado de fora do castelo não consegue tocar no amor de Deus.

Não leve uma vida mundana

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

A presença de Deus muda a nossa vida

Graças a Deus e à sua infinita misericórdia, vez ou outra o coração de alguém que está fora do castelo se abre à voz do Senhor, que fala por meio da pregação da Palavra, de uma música inspirada pelo Espírito Santo, do Evangelho vivido concretamente por alguém que busca a santidade e de tantas outras maneiras. Podemos imaginar, voltando ao nosso exemplo, que um dia João vê o mar pela primeira vez numa reportagem na televisão e fica encantado: “Como eu nunca havia pensado em conhecer a praia antes?”, ele diz para si mesmo. Aquele desejo começa a crescer no seu coração. Ele não tira o mar da cabeça. Passa a sonhar acordado com a praia: fecha os olhos e imagina seus pés descalços sobre a areia, quase consegue ouvir o barulho ritmado das ondas, sente no rosto a brisa refrescante que vem do mar. Tudo isso se torna tão forte que João decide passar um final de semana num hotel no litoral, e que maravilha! Ele nunca havia imaginado que a praia fosse um lugar tão bom. Nem quer sair da água. Essa é uma maneira possível de ilustrar a primeira experiência de alguém com Deus. Até ouvir falar do amor de Deus, a vida da pessoa parecia ser normal, seguir seu rumo ordinário, mas depois que você sabe que existe um Deus que ama você a ponto de morrer numa cruz, seu coração começa a desejar experimentar um amor desse tamanho, até que um dia, por pura graça, você se sente amado por Deus e sua vida muda.

Nesse ponto há três caminhos possíveis: o primeiro é o caso daquela pessoa que está tão apaixonada pelas coisas terrenas, tão suja no pecado, que despreza o amor de Deus. É o sujeito que vai à praia e incomoda-se com o sol, com o mar, com a areia e não quer nunca mais voltar ali. O segundo caminho é aquele escolhido pela ampla maioria dos cristãos, que pensam: “Nunca mais abandonarei Deus, quero sentir esse amor para sempre, não vou perdê-lo de vista”. Mas o que acontece? Fica mais fácil compreender se voltarmos ao nosso personagem, João. Ele ficou tão encantado com o mar que prometeu a si mesmo que iria se mudar de cidade para toda semana ir à praia. Imaginemos que ele comprou um apartamento parecido com o meu, que fica num lugar de onde é possível ver um pedacinho do mar. Que alegria quando ele descobriu isso! Várias vezes ao longo do dia ele vinha para a janela do seu quarto e ficava contemplando aquele azul, sonhando com o final de semana, quando ele voltaria a mergulhar naquelas águas salgadas e mornas. Os anos se passaram e João continua sua rotina de todo final de semana ir à praia, mas já não há mais aquela paixão pelo mar que existia no início. Ele se acostumou. No início, ele pensava em se mudar para mais perto, para um lugar de onde pudesse ir caminhando à praia todos os dias. Hoje ele se dá por satisfeito com o próprio modo de vida, pois mora a meia hora da praia e quase todo fim de semana está lá.

Leia mais:
.:O silêncio das pequenas coisas
.:Temos pressa para as coisas erradas
.:Você pode conversar com Deus em meio à tribulação
.:A cruz permanece firme enquanto o mundo gira

O caminho dos mundanos

Não é difícil perceber como a relação de João com o mar é parecida com a nossa relação com Deus. Um dia descobrimos um amor arrebatador e quisemos estar perto de Deus, ver Nosso Senhor. A nossa vontade era morar dentro do mar, se fosse possível. Com o tempo, fomos nos acostumando a encontrar Deus na missa aos domingos e aos poucos fomos nos convencendo de que isso era suficiente. Esse é o caminho dos mundanos. O mundano já não está mais afundado no pecado a ponto de ser impossível ver Deus. Ele olha para si e se vê trilhando um bom caminho, por ter abandonado a vida de pecado e estar buscando o amor de Deus. Exatamente por isso o mundano reza quando acorda e antes de dormir, vai à missa aos domingos, pensa em Deus, tem uma vida que ele julga espiritual, de quem segue a Deus, mas há algo fundamental sobre o mundano: ele coloca Deus numa caixinha, num quadradinho, num lugar específico, ao lado de todo o resto das coisas que compõem a sua vida. Deus é mais uma ocupação, mais uma tarefa, mais um item em seu cronograma semanal. Ele faz isso porque ainda ama demais o seu mundo, suas seguranças, seus projetos, seus sonhos e seus bens para colocar Deus como centro de tudo. É por isso que do seu apartamento o mundano só vê um pedacinho do mar. Sua vida é rodeada por tantos interesses, tantas realidades que elas vão se somando e ocupando todo o espaço, a ponto de ele quase nem conseguir ver mais a Deus no meio disso tudo. E para o mundano, está tudo muito bem. Ele sabe que no domingo pode ir à missa e encontrar Deus, como João vai à praia no fim de semana.

Mas não é assim que devemos corresponder ao amor de Deus. Não basta ser mundano. Deus quer de nós muito mais do que uma visita preguiçosa à igreja aos domingos, quer o que podemos chamar de terceiro caminho, mas isso é um assunto para o próximo texto.


José Leonardo Nascimento

José Leonardo Ribeiro Nascimento é casado, pai de quatro filhos e membro do segundo elo da Comunidade Canção Nova desde 2007. Natural de Paripiranga (BA), cursou Ciências Contábeis na Universidade Federal de Sergipe e fez pós-graduação em economia por meio do Minerva Program, na George Washington University, nos Estados Unidos. Trabalha, há 18 anos, como Auditor Federal na Controladoria-Geral da União em Aracaju (SE). Ele e sua esposa trabalham, há muitos anos, com a evangelização de casais e de famílias, coordenando grupos e pregando em retiros e encontros.
Instagram: @leonardonascimentocn | Facebook: @leonardonascimentocn

comentários