Domingo e identidade cristã

Os muçulmanos guardam a sexta-feira, os judeus o sábado, e os cristãos o domingo. Em ambientes que vivem a convivência pacífica destas tradições religiosas, como a capital do Libado ou da Síria, Beirut e Damasco, esta diferença de ritmo semanal educa para a tolerância, o respeito pelo outro, e a consciência da diversidade das expressões da fé, que recomendam abertura e a busca de convergências mais profundas do que a mera coincidência de datas.

Portanto, em princípio, não será em torno do dia certo da semana que se joga o valor da mensagem que as religiões têm a nos transmitir. Sobretudo se partimos do princípio de que o “dia santo” é para iluminar de santidade todos os outros dias também.

Mas, acontece que a celebração do “Dia Sagrado” joga, sim, uma função determinante para sustentar a identidade do crente, e possibilitar-lhe o crescimento na assimilação e na vivência de sua prática religiosa. Sem o suporte semanal, que ajuda a retomar as motivações da fé, o crente corre o sério risco de ficar alheio à dinâmica de sua religião, e acaba perdendo sua identificação com ela.

Uma das recomendações do atual “Ano da Eucaristia”, que o Papa convocou para recordar os quarenta anos do Concílio Vaticano II, é exatamente a propósito do Domingo. Existe de fato o desafio de recuperar o sentido do domingo, e de encontrar a maneira adequada de celebrá-lo hoje, para que cumpra sua finalidade de ser o principal suporte externo para conservar a identidade dos cristãos, e possibilitar-lhes assim a vivência autêntica de sua fé.

Para perceber melhor o alcance que se o domingo se destina a ter, vale a comparação com os judeus e os muçulmanos.

Depois que perderam sua terra, seu templo, seu culto, foi a estrita observância do sábado que sustentou a identidade dos judeus ao longo dos séculos.
Para o muçulmanos, segundo testemunham os estudiosos que olham com simpatia esta grande religião, a prática externa que mais aglutina os fiéis e lhes dá uma identidade coletiva que os entusiasma, é a observância do “ramadão”, o mês de jejum e de oração. O desafio de jejuar todos os dias, com finalidade religiosa, cria laços de união e de fraternidade, que solidificam de modo impressionante a opção religiosa das pessoas, que uma vez muçulmanas, dificilmente deixam de o ser por toda a vida.

É o que está faltando para os cristãos. Um momento semanal intenso, que deixa marcas positivas para toda a semana, que motiva para o reencontro subseqüente, e que por sua vez vai criando a necessidade da participação periódica, que sustenta a adesão à comunidade e possibilita o lento assimilar dos conteúdos que as celebrações simbolicamente vão apontando. Esta a finalidade do domingo.

O domingo nasceu do impacto inesperado, produzido pela notícia da ressurreição de Cristo. Se pensamos no peso da tradição judaica, admira ver como os cristãos conseguiram emplacar o domingo. Os biblistas afirmam que temos poucos indícios materiais que possam comprovar a ressurreição, além do túmulo vazio. Na verdade, contamos com um fato sociológico de grande peso, que é o surgimento do domingo. Pois, como explicar a passagem do sábado para o domingo, a não ser em conseqüência de um fato singular, que provocou um impacto mais duradouro e decisivo do que qualquer tsunami! Aconteceu algo de extraordinário naquele “primeiro dia da semana”!

Diz o Evangelho que no primeiro domingo, Tomé não estava. Não estranha que tenha sido o último a acreditar. Quem não participa do domingo, vira Tomé. Segue o caminho da descrença. Sorte do Apóstolo, que os outros foram busçá-lo: “Tomé, vimos o Senhor!” E no outro domingo lá estava ele. Se todos os tomés viessem, não caberiam certamente em nossas igrejas.

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.