Celibato, uma resposta de amor

“Pede-me e te darei as nações por herança e por patrimônio os confins da terra” ( Salmo 2,8)
Este versículo do Salmo 2, resume um chamado um tanto especial do Senhor.

Recordo-me como se fosse hoje, daquela faca no meu pescoço…

Foi no ano 2001, eu morava em Roma. Vivia muito de perto a realidade eclesial, no coração da Igreja. Estávamos vivendo o Consistório para a nomeação dos novos Cardeais. Toda nossa equipe de TV estava empenhada com as gravações e transmissões deste momento, tão lindo e significativo, da Igreja. O Papa João Paulo II acabara de escolher os representantes que seriam os Cardeais da Igreja Católica, os quais assumiriam, naquele dia, a missão de serem seus conselheiros na condução da Igreja de Jesus.

Lembro-me de uma entrevista com D. Cláudio Hummes, que acabara de receber sua nomeação como Cardeal de São Paulo.
Respondendo de forma muito clara e profunda sobre a missão dos Purpurados, disse: “As vestes mudam de cor, porque o vermelho indica o martírio, e os Cardeais são convidados a dar a vida pela Igreja.”

Aquelas palavras foram fortes para mim. Refleti bastante sobre a minha missão na Igreja, servindo ao Senhor numa comunidade. Era impelida a dar uma resposta a Jesus.
No dia seguinte, sofri um assalto, quase perdi a vida. Tive uma faca apertando forte meu pescoço… Naquele momento, as palavras de D. Cláudio me vieram à mente novamente. Será que eu estaria disposta a dar minha vida pelo Reino de Deus, vivendo como uma missionária, levando o Evangelho a toda criatura?

Mais uma vez o apelo do Senhor me fazia refletir sobre minha entrega.

D. Alberto Taveira, Arcebispo de Palmas, na mesma ocasião, celebrou uma Santa Missa para a Comunidade Canção Nova, e providencialmente, o Salmo era este: “Pede-me e te darei as nações por herança…” Então, o Arcebispo fez-nos um desafio: Pedir ao Senhor as nações por herança. Que santa “loucura” era aquela!

Confesso que tive medo de fazer esta oração diante dos desafios de uma vida missionária, longe da nossa Pátria, outra cultura, outro idioma… Uma realidade tão nova e exigente que o Evangelho nos impunha, mas no meu interior vinha a certeza de que Deus queria aquilo para mim.

Fui entendendo que, para uma vida missionária, dentro destes moldes, se fazia necessário uma entrega total. Reconheci o chamado de me consagrar inteiramente a Jesus, me fazendo toda dEle e para Ele.

Retornei ao Brasil, mas não tinha coragem de dar passo algum para uma consagração celibatária. Eu dizia: “Fui educada para o matrimônio, não fui preparada para viver a virgindade consagrada, não sei como se vive este estado de vida.”

Vivi momentos de crises, lutas interiores, medo, até que, como Jeremias, fui convencida a render-me, dizendo: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir.”

Toda história de amor tem dois tempos. Há o tempo do começo, quando se revela o amor ao outro com presentes, dando-se, principalmente, de si mesmo; e há o tempo em que já não basta dar presentes à pessoa amada, mas é preciso saber sofrer por ela. Só, então, se pode ver se é verdadeiro o amor. Assim, acontece também na história de uma vocação celibatária, há o tempo do chamado, quando impulsionada pela graça, a pessoa diz: “Sim, eis-me aqui”, com alegria e entusiasmo. E existe o tempo da maturidade, no qual, muitas vezes, na solidão, no cansaço, na crise, para manter aquele “sim” é preciso morrer para si. Aqui se tornam concretas as palavras de D. Cláudio: “morrer pela Igreja”, dando sua vida, para que através dela se torne presente o dom de Deus.

Hoje, posso, sem medo algum, dizer que minha vocação celibatária é um apelo constante de Jesus, para que eu dê minha vida a fim de que as nações O conheçam e que Sua Palavra chegue aos confins da terra!

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