A fé supera a nossa crise existencial

O Evangelho pode sugerir duas perguntas para a nossa vida pessoal. A primeira é: em que fundamentamos o nosso conhecimento no que diz respeito à nossa fé? A segunda pergunta é: quais são as conseqüências da nossa fé para a nossa vida? Quanto à primeira pergunta, podemos fundamentar o nosso conhecimento sobre as coisas da fé a partir da Palavra e do Magistério da Igreja, que nos garantem a verdade, mas podemos fundamentar este conhecimento na opinião de muita gente que fala muita coisa a respeito de Deus sem entender nada de nada ou até mesmo termos uma fé sem fundamento nenhum. Quanto à segunda pergunta, podemos fazer da nossa fé o motor da nossa vida ou podemos ter apenas uma fé discursiva ou indiferente, que não representa nada para a nossa vida concreta.

Mesmo sabendo que nunca se chegará às certezas absolutas, deve-se buscar pistas que revelem como se dá uma verdadeira experiência com Deus. Falando em experiência com Deus, é bom começar a analisar primeiro o que vem a ser “experiência”. Pode-se dizer que a experiência é composta de dois elementos: o primeiro é um fato que modifica a vida; o segundo é a consciência desse fato. Se um fato modifica profundamente a vida, se torna, então, uma experiência marcante. É com a consciência destes fatos que se tiram as lições para a vida. Às vezes se tem uma experiência “incompleta”, isto é, pode, se ter tido um fato que modificou a vida sem que se tenha consciência disso ou consciência de um fato que não ocorreu. O exemplo típico do primeiro caso são jovens que se apaixonam sem saber que estão apaixonados. Muitas vezes, eles negam explicitamente este fato que outros conseguem perceber claramente. Num caso assim, a falta de consciência não altera o fato, mas dificulta o melhor aproveitamento desta experiência. No caso da consciência sem fato, tem-se o exemplo da “supermãe”. Ela pensa que ama o filho, mas, na verdade, o sufoca. Pensa que ama e quer o melhor para o filho, porém, não tem uma experiência verdadeira do amor.
Estes dois exemplos revelam que podem existir pessoas que dizem que experienciaram Deus sem que isso seja verdade; e pessoas que experienciam. Deus sem ter consciência desse fato. Sendo assim, o que as pessoas dizem a respeito da sua experiência com Deus não é o mais importante, mas sim a “realidade” do fato da experiência. É isso que ensina Jesus na sua famosa parábola conhecida como a do “juízo final” (Mt 25,31,46). Nem os justos que recebem de herança o Reino e nem os injustos sabem, não têm consciência, de ter tido ou não uma experiência com Deus. O que conta é o fato de ter ou de não ter aberto o coração (e as mãos) às necessidades dos irmãos.
Para a maioria das pessoas que foram acostumadas a dar mais valor à consciência, ao conhecimento da doutrina ou à confissão da fé, pode parecer estranho esta posição de Jesus. No entanto, numa experiência, o mais importante é o fato que modifica a vida das pessoas.

O Reino dos Céus não é algo estranho para nós por isso pode ser revelado através das coisas mais simples do nosso dia a dia. É por isso que Jesus usa dos elementos que fazem parte da nossa vida cotidiana, como a semente ou o fermento, para que possamos conhece-Lo. A partir disso, podemos compreender que ou fazemos do Reino dos Céus algo que de fato seja o elemento marcante do nosso dia a dia e direcione constantemente o nosso modo de agir ou não seremos capazes de descobrir o que Deus tem a nos dizer. Nosso olhar está sempre voltado para as realidades aparentes e, normalmente, estas realidades se sobrepõem diante do que é invisível aos nossos olhos.

È o caso do Evangelho, que nos mostra que as pessoas estavam com os olhos fixos nas aparências de Jesus, na sua origem, na sua família e na sua profissão, não sendo capazes de enxergar além e ver nele aquilo que as suas obras tornavam manifesto que é a sua divindade. O resultado disso tudo é que as pessoas não são capazes de reconhece-Lo na sua totalidade, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Tudo isso acontece por causa da dureza de seus corações. A presença do Reino de Deus na nossa história não pode ser obscurecida pela presença do mal no mundo. As pessoas devem ser capazes de analisar toda a realidade a partir dos critérios do Reino para, à luz do Espírito Santo, ser capaz discernir o bem do mal e escolher o que contribui para que ela possa se aproximar cada vez mais de Deus. Mas esta distinção não dá ao cristão o direito de condenar os que erram, ao contrário, ele deve ser um instrumento nas mãos de Deus para que todos sejam capazes de fazer esta distinção e trilhar os caminhos do bem.

Eduardo Rocha Quintella
Fraternidade S. J. da Cruz – O.C.D.S
Adorador Noturno da Catedral Nossa Senhora da Boa Viagem – B.H.
Tel.: (0xx31) 3486 –8507 – Belo Horizonte M.G.
eduardoquintella@terra.com.br

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.