A inteligência artificial chegou e veio para ficar
Os sistemas reúnem dados impossíveis de serem armazenados pelo cérebro humano. Porém, precisamos nos lembrar de que também ela foi produzida pelo conhecimento do ser humano; logo, não é algo superior ao homem. Sendo assim, é possível que ele evite eventuais riscos e preserve sua dignidade de ser imagem e semelhança de Deus.

Crédito: MTStock Studio / GettyImages
Sabemos que o uso que fazemos das coisas define a sua qualidade moral. Utilizada para bons fins e com bons meios, a IA pode, sem dúvidas, ajudar o homem em muitos campos. Mas, usada de modo leviano, poderá nos desconstruir — e aí está a preocupação da Igreja.
Preservar o ser humano
O Papa Leão XIV, em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações deste ano, cujo tema é “Preservar vozes e rostos humanos”, afirma, com clareza, que, se permitirmos que sistemas que simulam voz, rosto e emoção humanas dominem nossas interações, corremos o risco de enfraquecer pilares essenciais da convivência humana — da escuta e do pensamento crítico à compreensão empática do outro. Leão XIV alerta para que não deixemos perder nossas capacidades de pensar e criar, delegando aos chats essas habilidades que nos diferenciam das outras criaturas.
Como usar a inteligência artificial de forma benéfica?
Há dois erros que o cristão pode cometer diante das novas tecnologias: achar que precisa se distanciar delas ou mergulhar a fundo em seu uso, sem critérios. O Papa, no entanto, nos oferece outra perspectiva:
“O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas. Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.” (Leão XIV, Mensagem para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais)
Desses três pilares, quero me deter no que tange à educação, que, de acordo com o Papa, inclui o conhecimento de como tudo isso funciona, a fim de nos proteger de potenciais danos.
A educação para o uso da IA
Como, em nosso país, ainda é insuficiente o ensino que se oferece, principalmente nas escolas, sobre o modo de funcionamento dos meios de comunicação, nós mesmos precisamos procurar esse conhecimento — e não de forma superficial. Nesse sentido, é a busca pela verdade que deve nos guiar: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
Ir em busca das fontes da informação, aprofundar a pesquisa para saber se determinada pessoa existe, ter critérios para as pesquisas nos chats de IA — tudo isso são caminhos, mas não os únicos. É necessário compreender também que essas tecnologias utilizam algoritmos que “entendem” como você pensa e buscam prever ou influenciar o seu comportamento. Muitas vezes, fazer uma desintoxicação tecnológica ajuda, mas o autocontrole precisa ser diário.
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Buscar relações humanas
Os últimos papas frisaram bastante a riqueza de olhar nos olhos e de estabelecer comunicações reais. Procurar relações presenciais, ter uma vida em que o contato humano seja frequente são antídotos que nos ajudam a sair da bolha digital. Ninguém está isento de cair nos vícios do uso excessivo e danoso desses recursos. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, exorta: “Quem pensa estar de pé, veja que não caia” (1Cor 10,12).
Deus quis se comunicar pessoalmente conosco por meio de Cristo, justamente porque é a experiência do que vemos e ouvimos que nos transforma. Quando ficamos presos em nossas casas, na época da pandemia, sentimos extrema falta do calor humano, porque precisamos de um semelhante para nos mantermos mais vivos. Nada substitui um aperto de mão, um abraço caloroso ou uma boa risada.
Quem de nós não foi tocado, um dia, por um gesto ou atitude de alguém? Lembro-me de quando, em um retiro espiritual, o olhar de uma pessoa voltado para mim foi suficiente para me remeter ao olhar de Cristo, a quem nunca vi pessoalmente.
O ser humano tem a dignidade de ser imagem e semelhança de Deus; isso nos torna únicos e insubstituíveis. Nosso rosto e nossa voz são a nossa identidade; portanto, é preciso protegê-los de serem utilizados para qualquer fim. Em muitos casos, é decisão nossa oferecê-los ou não para serem transformados em dados. Sempre seremos livres para decidir e responsáveis pelo que escolhermos.



