VOCAÇÃO SACERDOTAL

No ordinário, respondo ao Extraordinário: o chamado que mudou meus planos

Meu testemunho de vida é muito simples, diria que nada de tão extraordinário, mas, sem dúvida, sou muito amado por Deus.

Sementes de fé e valores de família

Sou de família católica, e recordo-me das minhas primeiras “aulas de catequese” com minha mãe e meu pai. Ela me ensinou a temer a Deus, a viver a fé, a participar da Missa e a contar com a intercessão e o exemplo de Nossa Senhora. Meu pai me ensinou a ser honesto, trabalhador e brincar um pouco com as situações da vida, tornando-a mais leve. Tenho mais três irmãs e sobrinhos. Minha família é uma bênção!

Diante do que aprendi em casa e o que escutava nas Missas, penso que fui sendo modelado nos princípios da verdade, honestidade, valorização da vida, da família, da partilha e do perdão. Com tudo isso, mais valores foram adquiridos com o restante da família: os avós, tios e primos. Contei ainda com a grande contribuição da escola, dos professores e colegas, e das pessoas com quem trabalhei. Uau, quanta gente me ajudou?!

Foto: Wesley Almeida

O desejo de uma “vida normal” e o despertar da vocação

Bom, diante dos valores que trazia em mim, que permaneceram e outros agregados, tinha o desejo do matrimônio, queria ter “meu cantinho”, minha casa, meus instrumentos de trabalho, um “carrinho”, esposa e filhos… “uma vida normal”. Contudo, sempre fui tímido; então, o namoro não aconteceu tão rápido. Mas eu queria alguém que fosse de Deus; em outras palavras, alguém de fé, de princípios e valores cristãos. Onde encontrar tal pessoa? Pensei: “Bom, no grupo de oração!”. Vivi muito bem a experiência de namoro, no respeito, na santidade e discerni que não era chamado ao matrimônio, mas à vida consagrada.

O incômodo sagrado: “Se queres ser perfeito”

Recordo-me de um momento forte de oração que uma palavra me saltou aos olhos “… se queres ser perfeito…” (Mt 19,21). Trata-se da passagem do jovem rico, a palavra dizia de entrega, abandono, confiança no Senhor, e a palavra “SE QUERES SER PERFEITO” me incomodava. Parei nela por um tempo, e ela virou uma pergunta “QUER SER PERFEITO?”. Assim respondi e respondo a cada dia ao Senhor: “Sim, quero. Sim, quero ser santo”.

E então? Onde entregar a minha vida? No sacerdócio diocesano ou em uma comunidade? Sentia-me chamado à vida comunitária e missionária. Penso que a vivência no grupo de oração que era de jovens me ajudou muito a dar este passo, pois, no grupo de jovens, vivi intensamente a oração, a vida comunitária e o engajamento na vida paroquial. No grupo de oração, amadureci na comunhão com Deus e cresci como gente no contato com os irmãos de caminhada; e sou muito grato a Deus pela simplicidade e profundidade daqueles primeiros anos do despertar da fé e do compromisso com a Igreja.

O caminho vocacional na Canção Nova: tempo de amadurecimento

Percebi que a Comunidade Canção Nova se encaixava com aquilo que eu buscava. Mas e aí, será que a Canção Nova me aceitaria? Será lá o meu lugar? Por que a Canção Nova?

Um colega de grupo de oração me passou o endereço do vocacional da Canção Nova. Então escrevi, e o engraçado é que eu pensei que, no outro dia, já poderia me apresentar para a obra. Achava-me pronto! Porém, era preciso ainda fazer um caminho de discernimento vocacional. No decorrer dos encontros… Ah, que bom!, eu entendi o motivo do tempo de caminho vocacional: era necessário ainda o amadurecimento, algumas curas, algumas renúncias e provas.

A confirmação do chamado ao sacerdócio ministerial

Ingressei na comunidade em 2003 já com o desejo do sacerdócio, e mais uma vez o Senhor me pediu para esperar. Primeiro, vieram as etapas iniciais, tempo de conhecer o carisma, vivência comunitária, oração e trabalho. Imagino que os formadores nesses anos analisaram: “Será que este rapaz tem carisma?” Só depois veio o tempo de seminário – e o discernimento continuou, pois vivemos intensamente a vida fraterna, a oração e o trabalho.

Nossa comunidade é mista: há também moças que se consagram a Deus, há irmãos que se conheceram e constituíram família aqui dentro. Então, surge a pergunta: “E agora? É possível ser Canção Nova e casar-me?!” Porém, diante de tudo o que vivi – experiência familiar, grupo de oração, etapa inicial na comunidade, formação no seminário, e destaco ainda as pessoas que me acompanharam –, isso me fez discernir que a Canção Nova era o meu lugar, e o meu estado de vida era o sacerdócio ministerial.

Uma vida doada e sustentada pela Graça

Enfim, hoje tenho 23 anos de Canção Nova e 16 anos de padre. Sou muito feliz! Não consigo me ver em outro lugar, não porque aqui seja um lugar perfeito, mas pelo dom que é perfeito, porque é de Deus, e por Ele posso ser santo.

Quando recordo minha história, com sinceridade, não vejo nada de extraordinário de mim, mas percebo que o Extraordinário me amou, me chamou e tem me sustentado. A ELE glória para sempre!

Obrigado, Pai das Misericórdias, por ter inspirado o padre Jonas, meu pai-fundador; obrigado por este servo que frágil foi forte, que limitado foi ousado. No chamado dele, o Senhor me chamou e continua a chamar. Ó Pai, ajuda-me a responder todos os dias com amor a Vós e àqueles que eu encontrar. Amém!

 

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Padre Marcio Prado é natural de São José dos Campos (SP) e membro do Núcleo da Comunidade Canção Nova desde 2003.
@padremarciocn