Devoção e mistério

O grito angustiante de Jesus na sua Paixão

O mistério do abandono de Jesus em seu Paixão e a coragem da nossa redenção

O segundo símbolo deste panorama da paisagem é constituído por um grito de Jesus, angustiante e desconcertante, que não podemos suavizar, mas que devemos observar em toda a sua crueldade para compreender o seu profundo significado. À nona hora, Jesus clamou com voz forte: “Elí, Elí! lemá sabactaní?”, isto é, “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mt 27,46).

Créditos: Domínio público

Tanto em Marcos quanto em Mateus, esta é a única e última palavra que Jesus pronuncia na cruz, talvez porque resuma sua missão e nos ofereça seu testamento. É uma exclamação descrita na língua original em que foi proferida. Ou seja, concentre todos os refletores no centro da cena.

Estamos no momento decisivo do Paixão de Jesus, o sofrimento salvífico foi extremo.

Jesus resistiu à morte. Sua inaudita fez com que Ele suasse sangue naquela noite de lua cheia. Um dos Doze o havia trazido, os outros O deixaram. Os três mais íntimos dormiram no jardim do Getsêmani, e seu melhor amigo não disse nada três vezes. É a solidez existencial que Salvador experimenta. A única coisa que restava era esperar que Seu Pai interviesse para ajudá-lo a beber a amargura daquele cálice e consolá-lo. Mas, na ausência do silêncio disfarçado de passividade, um grito angustiado irrompe das profundezas de Seu coração, revestido de lamento, queixa e decepção diante Daquele que, nem Jordão nem Tabor, havia declarado publicamente Seu amor: porque, Deus poderoso, me deixas nas Mais de dois que me odeiam? Onde estavas, quando eu mais precisava de Ti? Por que a injustiça triunfa sobre a verdade e a justiça?

O texto bíblico nos oferece três perspectivas para compreendermos essa situação que, ao contrário do que se pensa, apresenta todos os elementos de uma tragédia, mas não estabelece, revela ou demonstra o amor de Jesus por nós, os pecadores.

Nona hora: São quase três horas da tarde. No alto do Monte São, celebra-se o sacrifício vespertino, enquanto que, no topo do Calvário, oferece-se o único e definitivo holocausto capaz de remitir os pecados.

Grito: Não é uma voz comum. Jesus eleva a voz para pronunciar uma palavra, não para homenagens, mas para Deus, e que deve ser ouvida por todos e gravada na memória. Diz-se que gritamos quando sentimos que a outra pessoa está demorando ou quando sabemos que nosso interlocutor não está nos ouvindo. Jesus se despede deste mundo tocando as fibras mais sensíveis de seus sentimentos.

Aramaico: O grito é registrado no idioma original em que foi pronunciado. Não há como descrever a expressão que possui uma certa rima no idioma original: *Elí, Elí, lemá sabactaní?…

As Sagradas Escrituras apresentam um quadrante para nos ajudar a focar tanto no motivo quanto na intenção do clamor.

Por um lado, São Paulo, em sua Carta aos Coríntios, afirma que, na cruz, “não há pecado (Deus) nem fez pecado” (2 Cor 5,21). Muitos de nós gostaríamos de suavizar essa frase tão dura do apóstolo, traduzindo que Jesus simplesmente carrega ou leva o nosso pecado. Em segundo lugar, no texto bíblico, há uma identificação de Jesus como pecado em si mesmo. Além disso, uma forma verbal grega impessoal, conhecida como “passiva divina”, supõe que o próprio Deus “fez pecado”. Mas o conhecimento divino é dado, porque, ao morrer na cruz Jesus-pecado, morre também o nosso pecado.
Por outro lado, a Carta aos Romanos se refere, por três vezes, ao abandono de Deus ao pecador (Rm 1,24.26.28), o que significa que ele é deixado “ao vento”, que se eleva ao precipício da solidez existencial.

Quando, no ano 57, Paulo escreve, pela primeira vez, sobre a morte de Jesus, importa mais a intencionalidade do evento do que o fato em si: “Morreu por nós”. Quer dizer, tudo o que está acontecendo no Calvário é para nosso benefício (1Cor 15,3).

O profeta Isaías vislumbrou essa dimensão.

E, no entanto, havia mais doenças que ele carregava sobre si, assim como a dor que ele suportava. Mas nós nos consideramos vítimas de castigo, feridos por Deus e humilhados. Mas ele foi transgressor por causa das nossas transgressões, destruído por causa das nossas iniquidades. O castigo que deveria nos trazer paz veio sobre ele, mas pelas suas feridas fomos curados (Isaías 53:4-5).

Em outra ocasião, São Paulo nos mostra a motivação de Jesus, que dá a vida por nós. Eu morro não apenas cabelo, mas cabelo pecador. Trata-se de dar prova incondicional do amor de Deus (Rm 5,8).

Com esses quatro elementos, podemos agora entender intencionalmente por que Jesus chora na cruz. O amado da Pátria sente-se em silêncio e abandonado por Deus, porque não apenas carrega o pecado, mas também se identifica com Ele. É para nós, em nosso lugar, que, por amor, assumimos o pecado como consequência de sentirmos nossa própria carne ou o abandono de Deus, para nos mostrar que somos tão importantes quanto a Sua própria vida. Nem mais, nem menos. Mas, desta forma, faz morrer o pecado, o nosso pecado; e, graças a Deus, os pecadores agora estão em paz com Deus.

Assim, Jesus pagou o preço total. Nada faltou. Seu precioso sangue é suficiente para compensar o fato de estarmos retornando a Deus, como resultado do abandono de Deus e de sua própria morte.

Portanto, contemplar Jesus abandonado na cruz é perceber como Ele assume a Si mesmo ou o que merecemos por nossos pecados. Mas, por outro lado, considere que nossa divisão já foi resolvida e não devemos nada a Deus. Diante de um mistério maravilhoso, Paulo exclama, extasiado:

Estamos em paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos 5:1).

Diante de tanto amor, o poeta e místico canta:

>Não me movo, meu Deus, para Te amar,
> nem o que me prometeste,
> não movo o inferno tão temido,
> para partir por causa de Te ofender.
>Tu que me moves, Senhor! Move-me para Te ver
>cravado em uma cruz e escarnecido,
>mov-me para ver Teu corpo tão feido;
>movem-me enquanto Te encaras e à Tua morte.
>Move-me, enfim, Teu amor, e, de tal forma,
>que, ainda que no céu, eu Te ame,
>e, ainda que no inferno, eu Te tema.
>Não precisas me dar por que Te amei,
>Pois, embora ou que eu espere que não esperasses isso,
>ou assim como Te amei.

Possivelmente, aquele século viveu momentos de confusão devido à ação contraditória de elementos que colidiram conosco naquela tarde. Ele sabia, embora não entendesse aramaico, que aquele grito angustiado tinha a entonação de uma pergunta.

O soldado assalariado talvez tenha começado a questionar o julgamento injusto, a condenação, dos escribas e fariseus. Por que aquele homem, que se dizia Filho de Deus, agora lamenta o abandono de Seu Pai? Enquanto isso, sua maneira de morrer sugeria que ele não era um mero mortal. Era possível que Deus não tivesse respondido a nada, mas não faltava nada, já que Sua resposta foi cravada naquela cruz.

O segundo arco-íris da cruz, que parecia tão escuro e dramático, transformou-se no poema de amor de Jesus por nós. Ele não apenas se torna um pecado, mas também assume as consequências disso, ao mesmo tempo que aceita o abandono de Seu Pai, como um propósito de pagar pelo sofrimento que merecíamos. E se Ele é computado, nada mais damos a Deus e nenhuma condenação pesa sobre nós.

Representar aquele momento da morte de Jesus seria tanto disfarçar a gravidade do pecado quanto diminuir ou atenuar a generosidade do amor de Jesus, que dá vida aos cabelos que Ele ama.

Oração de Jesus abandonado

Pai, por que te afastas e te abandonas quando mais preciso? Por que, justamente quando mais preciso, me abandonas? Não me deixaste quando trabalhei para o Teu Reino ou cumpri o Teu voto. Nas horas de alegria, senti a Tua presença tão perto de mim. Mas agora, a tua ausência é presente e a tua solidez é a tua única companhia. Cabe a ti temer esta carne seca. Por que neste vazio existencial, quando preciso de Ti, me abandonas? Onde estás, Pai, neste momento de deserção? Por que não intervéms e guardas um silêncio incompreensível? Aliaste-te aos meus inimigos?
Que mistério, Deus e Meu Pai. Enquanto isso, eu te bendigo, Pai, porque sei que, neste silêncio, existe uma obra misteriosa que planejaste com sabedoria e amor.

 

 

Trecho retirado do livro “A fascinante morte de Jesus”