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Férias sem telas: o que fazer para criar memórias reais com os filhos

Com a chegada das férias escolares, muitas famílias trazem uma pergunta difícil: o que fazer com tanto tempo livre?

Na vida real e na prática, o que acontece, muitas vezes, é que celulares, tablets, televisores e videogames, ou seja, telas, acabam ocupando grande parte desse espaço. E isso não acontece porque os pais não se importam ou porque estão “errando”. A rotina é cansativa, a vida é corrida e, muitas vezes, as telas se tornam uma forma rápida de entreter as crianças enquanto os adultos continuam com as atividades cotidianas em casa e no trabalho.

Férias sem telas: o que fazer para criar memórias reais com os filhos - Três crianças correm felizes e de mãos dadas pela beira-mar durante um pôr do sol dourado. A imagem transmite alegria e liberdade, com a luz do sol poente criando um brilho quente na areia e na água.

Foto Ilustrativa: Imgorthand by Getty Images

O valor das férias vai além do descanso, pois é um tempo para que as crianças vivam outras experiências e também pode ser um tempo de fortalecimento de vínculos. É aqui que o combate às telas (ou pelo menos que ela não seja o único recurso) deve ser feito. Muitos de nós temos a memória de um passeio de férias, um bolo quentinho, o abraço de vó, a ida no parque. Na maioria das vezes, as memórias afetivas vêm das experiências mais simples da vida. Para as crianças, isso é ainda mais importante, porque boa parte do desenvolvimento emocional, social e cognitivo acontece justamente nas experiências simples do dia a dia.

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Menos telas, mais imaginação

Mas, também convido você a refletir, enquanto adulto e para com suas crianças, que a distração pela distração não nos conecta a nada. Uma vida de excessos nem permite que possamos brincar, explorar, conviver, se frustrar, criar soluções e até lidar com momentos de tédio fazem parte desse processo.

E talvez esse seja um ponto importante: hoje, muitos adultos têm dificuldade em tolerar o próprio tédio e também o tédio das crianças.

Quando uma criança diz “estou sem fazer nada”, nossa tendência é preencher esse vazio rapidamente, e, neste sentido, a tela faz isso com muita eficiência. Porém, nem todo vazio precisa ser preenchido imediatamente.

O tédio, relacionado ao tempo sem fazer nada, sem ter uma obrigação estruturada, tem uma função importante no desenvolvimento. É justamente nesses momentos que a imaginação começa a trabalhar, que a criatividade aparece e que a criança aprende a construir suas próprias formas de diversão.

As telas, por outro lado, oferecem estímulos constantes, rápidos e intensos. Vídeos curtos, jogos dinâmicos e conteúdos que mudam o tempo todo fazem com que o cérebro se acostume a uma alta frequência de recompensa. E esse comportamento é condicionado, ou seja, quanto mais recompensa o jogo dá, mais estímulo libera e mais o comportamento de jogar se repete.

Regulando emoções fora do mundo virtual

Isso ajuda a entender por que muitas crianças ficam irritadas quando precisam desligar o celular ou sair de um jogo. Não se trata apenas de birra, mas, muitas vezes, é uma dificuldade real de sair de um ambiente altamente estimulante para voltar ao ritmo normal da vida.

Estudos clínicos revelam uma real e importante relação entre uso excessivo de telas e sintomas como ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e baixa tolerância à frustração. Sabemos que a tecnologia não é um problema, mas sim, seu excesso e o lugar que ela ocupa na vida da criança.

Quando as telas se tornam a principal forma de lazer, de regulação emocional e de ocupação do tempo, outras experiências fundamentais acabam perdendo espaço; e a criança, em seu desenvolvimento, precisa de experiências concretas para que crie habilidades sociais, ou seja, relaciona-se com o outro, entender as emoções, agir com empatia, conversar, saber limites, participar de um ambiente, comunicar-se, ter boa capacidade de convivência, regular suas emoções presencialmente e não apenas com o clique que exclui o outro sem resolver pendências. Além disso, é necessário correr, brincar, errar, experimentar, conversar, movimentar-se e se relacionar com o ambiente.

Todas essas vivências, juntas, ajudam a organizar emoções, desenvolver autonomia e fortalecer habilidades sociais. E aqui existe um ponto importante para os pais: reduzir telas não significa apenas proibir. Na verdade, quando a estratégia é apenas tirar, sem oferecer alternativas, o conflito tende a aumentar.

E qual o caminho mais saudável? Substituir. Um dia vazio e sem opções leva a criança a querer o que dá prazer imediato, ou seja, telas.

Mas, então, o que fazer? Qual a solução prática para tudo isso?

Lembre-se de que você não precisa de algo caro ou elaborado. Muitas vezes, atividades simples fazem uma grande diferença: jogos em família, cozinhar juntos, brincar ao ar livre, fazer caminhadas, jogar bola, andar de bicicleta, desenhar, montar quebra-cabeças, criar histórias ou até participar das tarefas da casa de forma leve e divertida podem ser experiências muito ricas.

O exemplo começa nos pais

O mais importante não é a atividade em si, mas a qualidade da presença. Estar presente com um celular na mão também não resolve muita coisa. Não proíba seu filho de fazer algo que você mesmo faz com constância.

E esse talvez seja um dos maiores desafios. Lembre-se que a criança aprende principalmente observando. Então, oconvite para preparar as férias do seu filho passa também pela criatividade e pela necessidade de repensarmos nossa relação com as telas, com o tempo e com o que desejamos para nossa vida.

É na conversa e no convívio que vamos percebendo o outro. Certamente, não serão os games jogados ou as séries assistidas que serão mais lembradas no futuro, mas as experiências afetivas deixadas pela presença familiar da qualidade dada naquele tempo, e que será levada por toda a vida. É no passeio no parque, na partida de futebol, na visita à casa da vó com bolo quentinho, na pescaria, e tantas outras coisas que poderíamos falar aqui e, certamente, levaram você a alguma memória.

É da base oferecida aos pequenos que os ajudaremos nas próximas etapas e vivências emocionais de uma vida adulta mais saudável.

 


Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa