A vocação original e a alma feminina
A essência da mulher e sua vocação original estão profundamente ancoradas em sua alma e corpo. Conforme a Escritura e a experiência humana, a mulher é destinada a ser companheira do homem e mãe dos seres humanos. Essa predisposição não é apenas física, mas psíquica, baseada no princípio tomista de que a alma é a forma do corpo (anima forma corporis), o que confere à mulher uma natureza organizada especificamente para essas funções. Como afirma a obra citada, “o corpo da mulher é formado de tal maneira que seja uma só carne com o outro e que nutra dentro de si uma nova vida humana” (STEIN, 2020, p.49).
As dimensões da maternidade: biológica e espiritual
A maternidade é apresentada como um caminho de amadurecimento e generosidade, onde a mulher retira o olhar de si para focar no outro.
- Maternidade Biológica: É a disposição natural para gerar, abrigar e nutrir a vida. O corpo feminino, com o útero e os seios, é o indício material dessa missão. Contudo, gerar é apenas o começo; a plenitude da maternidade exige a ascensão para o campo da alma.
- Maternidade Espiritual: Essa dimensão é acessível a todas as mulheres, independentemente de terem filhos biológicos. Ela se manifesta na maturidade de quem vive o “amor de benevolência” (bene volere), buscando o bem do próximo sem esperar nada em troca, assemelhando-se ao amor sacrificial de Jesus na cruz.

Créditos: Arquivo CN.
A mulher possui um olhar íntegro, que percebe a pessoa em sua totalidade — corpo, alma e espírito — e não apenas como uma peça funcional da sociedade. Isso a torna uma formadora de almas, com uma sensibilidade aguçada para o sagrado e para a educação na fé. Edith Stein recorda que essa missão de proteger e nutrir o desenvolvimento das almas é uma predestinação que visa combater o mal e promover o bem (STEIN, 2020, p.176). Além disso, a mulher é dotada de uma intuição concreta, sendo capaz de perceber as necessidades alheias pelos detalhes, tal como a Virgem Maria nas Bodas de Caná.
A mulher como companheira e auxiliar
A segunda face da vocação feminina é o companheirismo, especialmente manifestado no matrimônio, mas estendido a toda a sociedade. O termo bíblico Eser Kenegdo define a mulher como uma “ajuda que lhe corresponde”, um espelho que reflete a natureza do homem e o complementa.
Ser “auxiliar” não implica inferioridade, mas sim ser o amparo e a força que socorre. Como destaca a autora, a responsabilidade do homem de governar e guiar poderia ser pesada demais sem a ajudante que assume para si as tarefas do lar e do desenvolvimento pessoal do companheiro (STEIN, 2020, p.78, 49). Matthew Henry reforça essa dignidade ao notar que a mulher foi feita da costela de Adão: “não da sua cabeça para governá-lo, nem dos seus pés para ser pisoteada por ele, mas do seu lado para ser igual a ele”.
Empatia, subordinação e doação
A alma feminina destaca-se pela capacidade de empatia e compaixão, unindo sua alegria ou sofrimento ao do próximo, como um Cirineu que ajuda a carregar a cruz. No que tange à hierarquia das relações, o texto aborda a subordinação não como escravidão, mas como uma ordem de criação para a harmonia do corpo social e familiar. Assim como o corpo serve ao espírito, a alma feminina é destinada a uma “obediência obsequiosa” que serve de amparo e fonte de força (STEIN, 2020, p.114).
Por fim, a realização da mulher encontra-se no desejo de doação e entrega. Seja no matrimônio ou na virgindade consagrada, a mulher se encontra quando se doa sem reservas. Essa entrega é um símbolo da entrega da Igreja a Cristo, fundamentada na renúncia e no esquecimento de si para a comunhão com o outro e com Deus.
Meiriane Silva Conceição Faria




