Indulgências: um tesouro desconhecido
Há verdades da fé que, embora antigas, continuam pulsando com força no coração da Igreja e, paradoxalmente, permanecem desconhecidas ou mal compreendidas por muitos cristãos. Entre elas está a doutrina das indulgências. Longe de ser um detalhe marginal ou uma prática ultrapassada, trata-se de um verdadeiro tesouro espiritual, profundamente ligado à concupiscência do homem, à misericórdia de Deus e à esperança da vida eterna.
Tudo começa no início da história humana
O pecado original é definido como a desobediência dos nossos primeiros pais que, ao preferirem a própria vontade à de Deus, fizeram com que toda a natureza humana caísse numa condição de pecado e inclinação ao mal. Essa inclinação, uma espécie de “fome de pecado” não é algo que o ser humano consiga vencer sozinho. Ela gera uma dívida impagável.
Deus em sua infinita misericórdia enviou seu Filho Unigênito, Jesus Cristo que assumiu sobre si o castigo da humanidade, oferecendo na cruz o remédio necessário para esse grande mal. Nele, a justiça e a misericórdia se encontram. Por meio do batismo, instituído pelo próprio Cristo, o ser humano passa a participar da vida eterna de Deus: o pecado original é apagado, assim como todos os pecados cometidos até aquele momento.
Mesmo depois do batismo, a inclinação ao pecado permanece
Por isso, a Igreja oferece o sacramento da confissão, que restaura a graça quando o fiel cai em pecados graves que interrompem o fluxo da vida divina na alma. Mas a misericórdia vai ainda mais fundo, já que mesmo após o perdão da culpa, permanecem os apegos ao pecado, chamados de penas temporais. E portanto, se uma pessoa morre em estado de graça, mas ainda permanece marcada por esses apegos, ela passa pelo purgatório.
Essa realidade, embora implícita, encontra fundamento nas Escrituras, como em Mateus 5,26: “Em verdade, te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.”
As indulgências surgem, então, como um auxílio concreto da Igreja para ajudar o fiel nesse caminho de purificação. Elas não são ritos mágicos, nem atalhos espirituais, mas a misericórdia divina para queimar as penas temporais e favorecer o desapego do pecado. Trata-se da aplicação dos méritos de Cristo, da Virgem Maria e dos Santos, concedida pela autoridade do Papa, a quem foi dado o poder de “ligar e desligar”.
Esse tesouro não é uma invenção tardia
As indulgências remontam aos primeiros séculos do cristianismo, quando mártires e confessores da fé escreviam as “cartas de paz” aos bispos, pedindo que seus sofrimentos fossem aplicados para aliviar as severas penitências públicas impostas aos pecadores convertidos.
Para obter uma indulgência, especialmente a plenária, não basta realizar uma obra piedosa. A Igreja estabelece condições claras: confissão sacramental, Comunhão Eucarística, oração pelas intenções do Papa e um arrependimento profundo e radical, marcado pelo desapego sincero do pecado. Não se trata de formalidade, mas da conversão real do penitente.
Ao longo da história, porém, essa doutrina também atravessou momentos de crise. A Reforma Protestante que surgiu num contexto complexo, marcado por tensões espirituais e políticas. Os Papas renascentistas buscavam recursos para a construção da Basílica de São Pedro, e as indulgências acabaram sendo mal interpretadas. Não havia uma “venda” tabelada, mas a concessão de indulgências vinculada a ofertas de esmola.
Houveram abusos de alguns pregadores, como Johann Tetzel, que agravaram este cenário. O então Frei Martinho Lutero reagiu a esses excessos, mas o que de fato foi preponderante é que o movimento foi instrumentalizado por príncipes alemães interessados em sua independência política e financeira de Roma, levando à radicalização de teses e ao surgimento de doutrinas heréticas, como o Sola Scriptura e o livre exame.
Mais tarde, no Concílio de Trento, a Igreja reafirmou a doutrina das indulgências, apresentando-a de modo ainda mais teológico.
Tudo isso e muito mais, é apresentado de forma profunda, clara e fiel à doutrina, no documentário “Indulgência: um tesouro desconhecido”.
A obra conta com a participação de especialistas que ajudam a iluminar esse tema com autoridade e sensibilidade: o Cardeal Mauro Piacenza, de Roma/Itália; Padre Leonardo, da Comunidade Canção Nova; Padre José Eduardo, de Osasco/SP; Padre Demétrio, de Niterói/RJ; Frei Ulise Zarza da Terra Santa; Professor Felipe Aquino, de Lorena/SP; e Professor Raphael Tonon, da Comunidade Pantokrator.
Convidamos a todos em preparação a Quaresma que se inicia, a redescobrir o sentido das indulgências, a profundidade da misericórdia divina e a beleza da comunhão dos santos. Um tesouro antigo, vivo e atual, agora revelado a todos que desejam compreender melhor os caminhos da fé.
Micheline Teixeira é consagrada da Comunidade Canção Nova, Logoterapeuta, roteirista e diretora do documentário.




