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Você vive ou apenas se expõe? Os malefícios da superexposição da vida nas mídias

A era do compartilhamento constante e seus limites

As redes sociais e as mídias de forma geral mostram um tempo em que compartilhar a própria vida se tornou algo natural. Fotografamos o que comemos, mostramos onde estamos, registramos momentos íntimos, expressamos opiniões, emoções e até conflitos em tempo real.

Claro que, se compararmos um tempo que para saber do outro eu precisaria mandar uma carta, ter a paciência para que ela chegasse ao destino e voltasse com uma resposta, ou ainda, que se pagava caríssimo por uma ligação interurbana, as redes sociais aproximaram pessoas, facilitaram o acesso à informação e permitiram trocas que antes não seriam possíveis. No entanto, quando a exposição deixa de ser escolha e passa a ser uma necessidade, começam a surgir impactos importantes na saúde emocional.

Créditos: Ivan Pantic / GettyImages.

Esse movimento de uma intensa exposição tem gerado sofrimento àqueles que mostram não apenas o que vivem, sofrendo com isso, mas sentindo-se mal quando não podem compartilhar, e ainda pior, comparam-se e adoecem com isso.

A performance no lugar da vivência real

Expor-se nas redes não é, por si só, algo negativo, mas é um problema quando a vida passa a ser vivida para ser mostrada. A pose para a foto é feita para gerar impacto, a maquiagem precisa estar impecável porque vou aparecer na rede social, e perguntas como “o que estou sentindo?” são trocadas por “o que isso vai parecer para os outros?”. Vivemos mais a performance e a preocupação com o que o outro vai viver, do que necessariamente o que aquilo significa para mim.

A superexposição gera quase que a necessidade de palco permanente: a pessoa sente que está sempre sendo observada, avaliada, comparada. Isso gera um estado constante de tensão interna: o medo de errar, de não agradar, de não ser interessante o suficiente.

E quais os resultados? Esse tipo de pressão emocional contribui para a ansiedade, a insegurança, a necessidade de aprovação e dificuldade de se sentir bem com si mesmo.

O peso da comparação e a fragilidade da autoestima

Uma das coisas mais complexas de uma exposição constante e um malefício é a comparação. A rede social, que é um recorte da realidade, e muitas vezes, muito distante do que a vida realmente é, traz as fotos editadas, a necessidade de expor momentos felizes, o que sugere que as vidas reais sejam assim, sempre. Há uma sensação para muitos de que apenas ele está numa situação ruim, que é pequeno frente a essas vidas expostas, que está atrasado, que se encontra insuficiente. Alimenta-se nas pessoas mais vulneráveis emocionalmente, um sentimento de fracasso que, quando repetido diariamente, enfraquece a autoestima e aumenta a sensação de insuficiência.

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O resgate da intimidade e a verdade no silêncio

Outro risco importante é a perda da intimidade. Ela é um espaço psicológico fundamental, onde podemos ser quem somos sem precisar performar. A maioria das nossas experiências precisa ser vivida na intimidade, no silêncio, na privacidade, para que realmente possam ser sentidas. O que é real não precisa de holofote e quanto menor a exposição, maior a verdade sobre o que se vive.

Uma outra reflexão está relacionada à necessidade de validação que, nas redes sociais, vem através das curtidas e dos compartilhamentos de conteúdo e também dos comentários. Essas pequenas doses de reconhecimento fazem com que o cérebro libere sensações agradáveis quando recebe aprovação. Mas e quando o like, a curtida não vem? O que isso gera? Gera para muitos a frustração, a tristeza, a sensação de rejeição, a dependência da fala do outro. Quanto mais se expõe, mais necessita de retorno, e quanto menos retorno recebe, pior se sente.

A preocupação excessiva com a própria imagem também é gerada com a superexposição. A pose certa, o ângulo da foto, a imperfeição do corpo, quase tudo se torna um produto. Muitos começam a se ver como uma marca que precisa ser atrativa. Tudo isso traz o medo do envelhecimento, a distorção da autoimagem, ou seja, da forma com que a pessoa se percebe, exigências se ampliam quanto ao corpo e o que ele transmite, o que somado e à longo prazo esse tipo de pressão é muito desgastante.

Quando tudo é compartilhado, as relações também se tornam mais superficiais. As conversas mais profundas são trocadas por interações rápidas. Escuta-se menos, sente-se rápido, fala-se pouco, os vínculos reais diminuem. Tudo isso empobrece a qualidade efetiva dos relacionamentos.

Se o uso das redes sociais tem levado você ao excesso. Avalie sinais como ansiedade, sensação de inadequação, tristeza persistente, dificuldade de sentir-se satisfeito com a própria vida, medo de rejeição, dificuldade de concentração, busca de perfeição corporal, pois talvez seja tempo de rever o peso e a importância das redes sociais em sua vida.

Mas como usar as redes sociais sociais de forma mais saudável? Escolha o que partilhar e respeite a sua intimidade. Além disso, tenha momentos desconectados, pare de comparar sua vida com outros usuários de redes sociais ou mesmo os chamados influenciadores. Avalie se aquilo realmente se adequa aos seus valores. Viva fora das telas, viva a vida real e passe a valorizar mais o contato com pessoas do seu convívio.

Cuidar de sua saúde mental passa pela sua proteção, e o que é mais importante é que as emoções não precisam de plateia para existir. A vida mais importante não é a que aparece na tela, mas aqueles que têm significado pela experiência pessoal. Viva bem, viva melhor, viva com mais significado e coerência aos seus valores.


Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa