🤔 Reflexão

A reconstrução do livre-arbítrio feminino

O pecado, uma mancha na vocação original

Com o pecado original, tudo isso sofre uma “mácula”, “que inibe o desenvolvimento puro das forças levando a uma deformação, que precisará ser contrariada” (STEIN, 2020, p. 50). A palavra-chave de todo esse trabalho é essa.

Hoje, a natureza humana da mulher, em sua forma original, está manchada, ferida. E tudo o que ela recebeu, como inclinação pessoal e que seria de livre curso no seu desenvolvimento recebeu uma inversão. Então aqui precisaremos do empenho, da força humana e o auxílio da graça de Deus, para ser contrariada e retomar a forma original.

Essa mancha atingiu diretamente algo que lhe faz intrinsecamente parecida com seu Criador, que é a liberdade. Sendo criada à imagem e semelhança de Deus, a mulher recebe d’Ele o dom de ser livre.

Santo Agostinho chama de “livre-arbítrio”. Essa expressão vem do latim liberum arbitrium, Liberum significa “livre”, arbitrium vem de arbitrer, que quer dizer “juiz”, “árbitro”, “aquele que decide”. Portanto, liberum arbitrium significa, literalmente, “julgamento livre” ou “faculdade de decidir por si mesmo”.

Para Agostinho, o livre-arbítrio é um dom de Deus que permite ao homem escolher o bem ou o mal. A mulher então, antes do pecado original, tinha o livre-arbítrio íntegro. Após o pecado, continua podendo escolher, mas sua vontade está enfraquecida: tende ao mal; o bem agora precisa ser conquistado. Nesse percurso de “decisão da vontade” nos explica São Bernardo de Claraval que há uma “ponderação de motivos”, onde a alma reflete sobre fazer algo ou não o fazer porque há duas opções: escolhendo bem somos livres, escolhendo mal, somos escravos. A liberdade perfeita só é restaurada pela graça divina.

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A desordem e suas consequências

Para Platão, o homem está dividido em “partes superiores” (à alma racional) e “partes inferiores”(a alma sensitiva e concupiscente). A desordem trazida pelo pecado original inverteu a ordem nessa divisão. Sobre isso, Santo Agostinho (2019, p.35) nos diz que: “Só quando a razão domina todos os movimentos da alma, o homem está perfeitamente ordenado. Porque não se pode falar de ordem justa, sequer simplesmente ordem, onde as coisas melhores estão subordinadas às menos boas”.

Percebemos que existe uma hierarquia ontológica no homem e na mulher, e que para ela acontecer, de fato, as potências superiores precisam prevalecer, comandar as inferiores.

Na desordem trazida pelo pecado original, há uma inversão, um desequilíbrio nessas partes, desencadeando o mau uso do livre-arbítrio, que foi ferido. A capacidade de decidir que lhe foi dada por Deus é duramente golpeada, e a torna escrava, muitas vezes, das partes inferiores, servindo a elas. Uma mulher desordenada não é comandada por sua razão, por isso faz escolhas ruins para ela e para os que a cercam.

Trazendo para si e para todas as partes do seu ser consequências dilacerantes. Fazer mau uso do livre-arbítrio a faz preferir sempre os bens inferiores aos bens superiores, ao Bem Supremo, afastando-se moralmente do seu Criador e perdendo a sua liberdade, que é, justamente, para Agostinho, a capacidade de usar o livre-arbítrio corretamente, isto é, conforme o fim para o qual ele nos foi dado: escolher sempre o melhor.

Desequilíbrio nas relações

Muitas das forças da mulher se fragmentam e se tornam fraquezas. A inclinação pessoal se transforma numa preocupação exagerada consigo mesma e com os outros. Consigo mesma, isso reflete na vaidade, desejo de reconhecimento e na necessidade de falar. Com os outros, reflete-se na forma de curiosidade, bisbilhotice e um olhar indiscreto sobre a vida íntima.

A inclinação à totalidade a leva a empregar as suas forças em fazer muitas coisas ao mesmo tempo, deixando muitas inacabadas, e perdendo-se na dispersão. É uma tendência a ter seus olhos cuidando da vida dos outros mais do que se pode esperar, e uma tendência a ser superficial em tudo: uma perversão das suas virtudes maternais.

“A companheira participante, se transforma em perturbadora, que não admite o amadurecimento tranquilo e discreto; com isso, em vez de promover o desenvolvimento, o inibe e paralisa; a alegria de servir é substituída pela vontade de dominar. Quantos casamentos infelizes, quantos estremecimentos entre mães e filhos adultos, ou mesmo adolescentes, se devem a esse tipo de desvio” (STEIN, 2020, p.50).

No relacionamento com o homem enquanto companheira, também temos uma forte desordem, de sorte que: “o companheirismo transformou-se em relação de domínio, muitas vezes exercido de modo brutal, onde já não se tem em mente os dons naturais da mulher e seu desenvolvimento máximo: agora, ela é explorada como um meio para um fim, a serviço de uma obra ou para a satisfação dos próprios desejos. Nessa situação, é fácil acontecer de o déspota se transformar em escravo dos seus desejos, fazendo com que vire escravo da escrava que deve satisfazer os seus apetites. A serena comunidade de amor é revogada” (STEIN, 2020, p. 65).

Nessa face da vocação original da mulher, percebemos um duro golpe. O que naturalmente se daria pela complementaridade e união das forças para construção de um trabalho a dois é retalhado e perde a sua inspiração inicial.

Temos então uma relação cheia de desarmonia e rivalidades. Os sentidos e a mente já não caminham naturalmente na proporção certa; um forte antagonismo acompanha essa ligação. Em especial, o vínculo de corpo e cabeça entre os dois sofre uma grave perda. O homem, muitas vezes, leva a mulher à sujeiçã0 (que é algo completamente oposto à subordinação fruto do companheirismo). Em contrapartida, o desejo de entrega transforma-se em dependência afetiva do outro, correndo atrás do prazer para preencher um vazio interior.

Trago, por fim, algo que a mulher recebeu ali, ainda no paraíso, como uma sentença do Criador pelo seu primeiro mau uso do livre-arbítrio: as dores de parto e todos os incômodos característicos para que ela traga ao mundo uma nova vida.

Percebemos claramente que tudo entrou em colapso, saiu do lugar: uma clara degeneração em tudo que foi pensado por Deus para ambos. Elencamos, aqui, algumas das deformações que a mulher vive ao ser manchada pelo pecado, deixando claro que existem muitas outras, todas elas atentam exatamente contra características próprias da sua essência.

Leia também outros artigos da colunista Meiriane Faria:
.:A vocação original feminina segundo Edith Stein e Tomás de Aquino
.:Mãe e companheira: a essência e a vocação original da mulher

Ordo Amoris – A redescoberta da vocação original

Para trazer ordem a esse caos, estabelecido pelo pecado original e, posteriormente, pelas escolhas ruins que vão sendo feitas, devolvendo a mulher a ela mesma, Santo Agostinho nos apresenta o ordo amoris ou a “ordem do amor”, fundamentado na Escritura em Cânticos 2,4: “Ordena em mim o amor”. Um homem que experimentou, de forma abundante, os prazeres desse mundo, que viveu em sua humanidade os arroubos de uma vida desordenada, fez dessa a sua luta: buscar a ordem correta dos amores em si mesmo. É um caminho onde a vontade e o amor apontam para a vocação original perdida.

A vontade é a faculdade operacional da alma; dela dependem todas as decisões e determinações; ela é a causa da virtude e do pecado. Já o amor, para Agostinho, é o que move a vontade, é o que a arrasta para onde deseja: “Meu amor é o meu peso, ele me leva onde sou levado” (2004, p.407).

Sou atraído por aquilo que amo, “porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”(Mt 6,21).Para ele, então, o que amamos é o que nos atrai, nos conduz, define quem somos e nossas prioridades. O segredo está em descobrir o que amar e como amar: onde empregar as nossas forças para que sejamos conduzidos ao que de fato nos leva à perfeição. Como fazer então para perseguir esse amor e fazer dele o centro da minha vida para que tudo se ordene a partir dele? É o que veremos…

Meiriane Silva Conceição Faria
Comunidade Canção Nova