A importância de um dogma
No primeiro dia do novo ano civil, a Igreja Católica celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. A maternidade divina de Maria é um dogma proclamado e aceito por todas as denominações cristãs que conservam a sucessão apostólica e os sacramentos (católica, ortodoxa e não calcedonianas). No âmbito protestante, esse dogma é mal compreendido e muitas vezes refutado. Muitos protestantes questionam: “Por que Maria é chamada de Mãe de Deus se, na Bíblia, esse título não aparece?”

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Embora a palavra dogma seja interpretada no âmbito da cultura secular como algo negativo, no âmbito da teologia cristã, o dogma é uma realidade sempre positiva, por se tratar de uma verdade de fé fundamental. Sergei Bulgakov, grande teólogo ortodoxo russo do século XX, ensina que o dogma é a realidade que conserva em nós a vida do próprio Deus.
A história do dogma
Durante o Concílio de Éfeso (ano 431 d C), a Igreja – ainda não dividida – afrontou uma heresia (doutrina equivocada) chamada nestorianismo. Nestório, então Patriarca de Constantinopla, passou a defender a seguinte tese doutrinal: onde há natureza, há pessoa. Naquele contexto, ainda não havia clareza quanto à distinção filosófica entre os conceitos de natureza e de pessoa.
Seguindo o raciocínio equivocado de Nestório, existiriam em Jesus Cristo duas naturezas (divina e humana) e duas pessoas (divina e humana). Existiriam, portanto, duas filiações – uma natural e humana, nascida de Maria; outra divina e sobrenatural, gerada por Deus Pai. Entre as duas naturezas não existiria união ontológica (união do ser), mas apenas uma união moral (apenas uma aproximação). Desse modo, Jesus de Nazaré não deveria ser chamado Deus, pois ele seria apenas um homem em quem habitava o Logos (Verbo) divino. Sendo assim, Maria não poderia ser chamada “Mãe de Deus”, mas apenas “Mãe do homem Jesus de Nazaré”.
Essa heresia chamada nestorianismo, por causa de Nestório, negava a união hipostática substancial (união do ser) e a unicidade da pessoa de Jesus Cristo (ser uma única pessoa divina), ou seja, negava o Mistério da Encarnação. Jesus Cristo seria metade Deus e metade homem. Dito de maneira analógica, ele seria uma espécie de centauro da mitologia grega (metade cavalo e metade homem). Maria seria mãe apenas da metade homem de Jesus Cristo.
O sentido do dogma
Os bispos de então, muitos deles Padres da Igreja, inspirados pelo Espírito Santo e reunidos na celebração do Concílio de Éfeso, proclamaram o dogma “Maria Mãe de Deus” (em grego THEOTÓKOS) para defender o Mistério da Encarnação do Logos (Verbo). Resumindo, o Filho de Deus é uma única pessoa divina que possui duas naturezas distintas e inseparáveis, a divina e a humana. No Mistério da Encarnação, aconteceu a união das duas naturezas (divina e humana) e Maria é “Mãe de Deus” porque o Logos (Verbo) de Deus se encarnou no útero dela.
A maternidade divina de Maria se refere à segunda pessoa da Santíssima Trindade, ou seja, ao Filho Jesus Cristo. Os bispos da Igreja, durante o Concílio de Éfeso, não quiseram enaltecer Maria a ponto de transformá-la numa espécie de divindade, apenas quiseram lhe dar a devida honra e, sobretudo, defender o Mistério da Encarnação do Logos (Verbo), sem o qual não teríamos sido salvos.
Que a celebração dessa solenidade, que traz à baila mistério tão sublime, nos ajude a adorar o Mistério da Encarnação do Verbo e a dar à Maria a mais profunda e sentida veneração! Que a Santíssima Mãe de Deus, participante da vida divina (Cf. 2Pd 1, 4), interceda para que o novo ano civil seja mais um tempo de graça abundante para a Igreja e para o mundo!
Padre Robison Inácio de Souza Santos, Diocese de Guaxupé (MG), doutorando em Teologia Dogmática pela PontifíciaUniversidade Gregoriana de Roma




