O chamado para conformar-se a Cristo
A Quaresma, celebrada pelos cristãos em preparação para a Páscoa, é caminho com muitos itinerários que ganham sentido a partir de um horizonte: o desafio espiritual de qualificar o ser humano, chamado a conformar-se a Cristo. Isto é, conquistar as mesmas feições e atitudes do Redentor da humanidade.
O ser humano precisa interessar-se por esse desafio, que é capaz de dar alento e sabedoria ao coração, permitindo-o alcançar respostas capazes de dar rumo novo à vida.

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A busca pelo sentido além dos ídolos contemporâneos
A busca por conformar-se a Cristo não pode se restringir às experiências vividas no seguimento de influencers, no cultivo de ídolos das artes ou dos esportes. Conformar-se a Cristo é a oportunidade de prover-se de uma fonte inesgotável de sentido para viver, de coragem para lutar por um mundo melhor e, assim, qualificar-se pela conquista de um tecido humano e espiritual da mais alta qualidade. Os caminhos para conformar-se a Cristo são muitos, de vários tons. O próprio sofrimento pode ser um ponto de partida.
A transfiguração do sofrimento pela cruz
Todo ser humano é visitado por situações de sofrimento, mas a dor em si não é capaz de fazer com que uma pessoa se torne boa. Já a experiência do sofrimento iluminada pelo sofrimento de Cristo, na sua paixão e morte, oferta de si na cruz, torna o ser humano melhor, possibilitando-o a compreender melhor a própria dor.
À luz da oferta de Cristo na Cruz, o ser humano deve ofertar a si mesmo para alcançar a redenção que todos precisam. E um ser humano comprovadamente qualificado, conformado à Cristo, tem a competência de não perseguir, e mesmo se sofrer com perseguições, não ultrajar; mesmo se ultrajado, não caluniar, ainda que for vítima de calúnias. Um ser humano que se faz amigo de todos, movido sempre por misericórdia.
Aqueles que vivem a própria dor à luz da oferta de Cristo aprendem a esperar sempre em Deus, particularmente nas circunstâncias difíceis.
A confiança inabalável na Sabedoria Divina
Ensina o beato Columba Marmion que, esperar em Deus, repousar no seu seio, quando tudo corre bem, não é de grande virtude: o ser humano, apesar das dificuldades vividas, deve estar sempre convencido de que Deus jamais o abandonará, auxiliando-o a encontrar saídas, com sua sabedoria, seu poder e seu amor.
Vale lembrar também o Papa Francisco quando apontava a vivência da Quaresma como anseio pelo sopro de vida que o Pai de Jesus e de todos não cessa de oferecer à humanidade. Conformar-se com Cristo é aprender e admitir que Jesus se fez fraco e cansado pelo caminho, fazendo-se homem, sendo Deus por causa de cada ser humano.
Provoca Santo Agostinho com fortes interrogações: de fato, que caminho pode percorrer quem está em toda parte e nunca ausente de lugar nenhum? Tenha-se muito presente, impactando-se, que Cristo se dignou a vir, não somente assumindo a carne, mas também a condição de escravo. Assumir a carne é o caminho percorrido por Ele.
Santo Agostinho lembra que Deus é o médico das almas, instituiu o tempo favorável, referindo-se à Quaresma. Um tempo suficiente aos justos para orar, e aos pecadores para suplicar; os primeiros pedem o repouso, os segundos pedem o perdão.
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Cristo é o caminho que deve ser trilhado com humildade e caridade
A Quaresma é santa e salutar para conduzir o juiz à misericórdia, o pecador à penitência, o justo ao repouso. Portanto, um tempo para conformar-se a Cristo, despertando para o seu seguimento que inclui a prática da humildade para se chegar aonde ele chegou. Ele, Cristo, facilita a todos os seres humanos o percurso rumo à salvação.
Cristo é o caminho. Um caminho que deve ser trilhado com dois pés: a humildade e a caridade, conforme ensinam os santos. Para estes, a caridade atrai todos, mas a humildade é o primeiro degrau. Há de se começar sempre pela humildade.
O conformar-se a Cristo faz de todo ser humano um viajante. Um viajante peregrino que deve ter, na Palavra de Deus, seu alimento diário, alimento da alma. Um pão que não deixa ressecar o coração, mas fortalece-o com sua substância rica e fecunda.
O coração fica banhado da prece de um presbítero chamado Pedro Blois, que vale a pena recitar sempre e de coração: “Senhor, espero em ti! A tua sabedoria é infalível, teu poder invencível, tua bondade infatigável, teu amor sem fim. Ainda que me veja flagelado ou em chamas, espancado ou morto, hei de esperar em ti, Senhor: contando que ajudes e me ensines a fazer a tua vontade; concede-me um sinal que me prove a verdade do teu amor para que te procure e em ti espere. És bom para quem confia em ti, para a alma que te procura. Tenho certeza que aqueles que te servem não são oprimidos, mas honrados, porque muito honrados são os teus amigos, ó Deus. (Sl 138,17).
Vale a pena, é uma aposta exitosa e de ganhos perenes, esforçar-se, por algum caminho ou itinerário, para conformar-se a Cristo.
