👀 Atenção!

O sacrifício diário com o próximo: escuta sem esperar recompensa

A arte da escuta

Atualmente, muitas pessoas se encontram necessitadas de atenção e escuta, mas nos encontramos num mundo agitado, no corre-corre da vida, na era virtual onde muitos já não olham nos olhos para dialogar. Pode-se intuir que diálogo e escuta se tornaram sinônimo de sacrifício. Muitos mantêm os olhos fixos nas telas, gastam muita energia diante do seu tablet ou celular, e o pior: há casos em que eles próprios adentram num vazio existencial. Nesse contexto, alguns caminham na “escuridão”, cercados por sentimentos de solidão, ansiedade e transtornos diversos.

Créditos: Arquivo CN.

Pesquisas do G1, realizadas no ano de 2025, apontam que, em um levantamento global de dois milhões de pessoas, o uso excessivo e precoce de smartphones são os piores indicadores de saúde mental em jovens adultos que apresentam sintomas como pensamentos suicidas, desregulação emocional, baixa autoestima, desconexão com a realidade e sinais de sofrimento psíquico grave com prevalência desses sintomas entre as mulheres. Esse cenário evidencia que muitos cristãos que permanecem dentro dos “muros” das Igrejas encontram-se, da mesma forma, reféns do uso excessivo de telas. Em abril de 2025, em uma reportagem do Vatican News, o Papa Francisco pediu para olharmos “menos as telas” e “mais nos olhos”, a fim de descobrir “o que realmente importa: que somos irmãos, irmãs, filhos do mesmo Pai”.

O perigo das telas e o chamado do Papa Francisco

O Papa enfatiza que não devemos nos distanciar dos demais e da realidade: “Rezemos para que o uso das novas tecnologias não substitua as relações humanas, mas respeite a dignidade das pessoas” (Vatican News, 01 de abril de 2025).

Diante dessa realidade, poderíamos perguntar: Atualmente, escutar o próximo tornou-se um fardo? Um sacrifício?

Nas relações interpessoais, temos preservado a arte de escutar uns aos outros com atenção? O que fazer para voltarmos à originalidade de um povo que é convocado, em sua amizade com Deus, a escutá-Lo? Pois Ele mesmo diz: “Ouve, ó Israel! O Senhor é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,4-5). É certo que se educarmos os ouvidos para ouvi-Lo, obviamente estaremos treinados para ouvir o próximo.

O valor do sacrifício na vida espiritual

Lembremo-nos de que o caminho da perfeição passa pela cruz, e não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual, pois o progresso na vida espiritual envolve ascese e mortificação (Cf. CIC 2015). Reflitamos sobre o valor do sacrifício, assimilando-o como fruto da experiência pessoal com o Amor de Deus, pois amor e sacrifício se entrelaçam e exercem funções na vida cristã: “Assim, é o amor que deve ser considerado antes de tudo e buscado sem descanso, pois é ele que dá significado e constitui-se no valor principal do sacrifício. Portanto, deve-se falar dele desde o início da vida espiritual, salientando-se que o amor de Deus facilita singularmente o sacrifício, mas nunca pode dispensá-lo” (TANQUEREY, 2018, p.172).

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Quando ouvir se torna uma oferta de amor?

Amar a Deus consiste em doar-se ao próximo. Mas quando o ato de ouvir se torna sacrifício? Quando há em nós um grande desejo de falar, de expressar opinião, de julgar excessivamente sem, contudo, ouvir as necessidades do irmão; quando, diante dos nossos ímpetos, somos egocêntricos e, em alguns momentos, esquecemos que, diante de nós, talvez se encontre alguém com um coração sofrido, angustiado, deprimido, cansado, alguém precisando de atenção.

Façamos o “sacrifício” de ouvir com atenção! Aprendamos a sacrificar nosso tempo em favor do próximo, sem esperar recompensa.

Ponhamos em primeiro lugar o amor de Deus em nossa vida, para que melhor aceitemos e pratiquemos o sacrifício: “Que tudo seja temperado com o amor a Deus e ao próximo” (TANQUEREY, 2018, p.173). O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Amor é o primeiro dom, e ele contém todos os demais; este amor, Deus o derramou em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. Todos somos dotados do amor de Deus, pelo Espírito ( Cf. CIC 736). E como ensina o Senhor: “Nisto temos conhecido o amor: (Jesus) deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a vida pelos nossos irmãos.

Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade ( Cf. 1 Jo 4,16.18). Irmãos, sigamos firmes na arte de amar.

Sua irmã,

Cássia Duarte Leal
Comunidade Canção Nova