08 de abril

Dia Mundial do Combate ao Câncer: uma mensagem inspiradora

Carta aberta: quando ninguém está ao alcance do seu grito

No dia 8 de abril, o mundo volta os olhos para o combate ao câncer

Para quem recebe a notícia, o mundo não “se volta”: ele para. O coração acelera, a visão escurece e o corpo reage a uma realidade que a mente ainda custa processar. Eu, no silêncio ensurdecedor de um consultório, recebi o diagnóstico de câncer no endométrio. Há momentos difíceis na nossa vida em que não temos ninguém por perto para nos segurar; o grito da nossa dor não estará ao alcance do outro, pois a dor é nossa. Contudo, Deus nos vê e sente a nossa dor.

Arquivo Pessoal de Grazielle Camara

Eu me lembro daquele instante: enquanto eu olhava pela janela, e voltei a olhar para a médica, fiz a pergunta que mudaria tudo: “É maligno?”. A resposta foi um ‘sim’ que ecoou como um trovão. Naquele momento, dentro de mim, instalou-se um furacão. Sendo uma jovem adulta e cheia de expectativas, os pensamentos não paravam. Pensei na minha mãe, na minha comunidade, na minha vocação… Eu estava em uma imersão, recém-chegada, em preparação para o meu compromisso definitivo.

E, de repente, o furacão

No meio desse caos, o meu questionar — “Onde está Deus que deixou isso acontecer?!” — passou como um breve pensamento quando me lembrei de Santa Teresa d’Ávila. Ela viajava de burro para um dos conventos da Ordem Carmelita quando o animal a derrubou em plena lama. Suja e com a perna machucada, ela reclamou: “Senhor, que bela hora para acontecer isso! Por que deixastes isso acontecer?”. Uma voz do Céu lhe respondeu: “É assim que trato os meus amigos!”. A santa mística retrucou no ato: “Se é assim que tratais os Vossos amigos, não me admira que tenhais tão poucos!”.

Naquele momento, pensei: “Ele está me dizendo que eu sou, de fato, sua amiga”. Em um relance no meio da tempestade, senti: “Deus me ama muito”. Sem enxergar um palmo à frente, a minha única reação foi abraçar o que havia de mais sólido em mim naquele furacão: a minha fé.

A sociedade cria o fardo de que o paciente oncológico, especialmente os consagrados, os padres e os fiéis em geral, devem ser um “exemplo” de sorriso inabalável e discursos belos

Mas o diagnóstico assusta, dói. E admitir isso não é falta de fé; é humanidade. Eu chorei, e chorei muito! Fui acolhida pela minha comunidade, pela minha mãe, tive uma boa rede de apoio e uma psicóloga que me ajudou muito. Vi o agir da Divina Providência em pessoas que cuidaram de mim, e nem eram conhecidas até então. Recebi muitas orações e também rezei muito; minha fé me levou a ofertar por muitas intenções, pois eu não queria perder tempo.

Não perdi a serenidade nem o sorriso, mas a doença me fez “mais gente”, mais humilde. Ela me levou a um maior autoconhecimento — falo aqui da fé, mas, principalmente, das minhas fraquezas. Tinha dias em que eu estava alegre; em outros, não queria ver ninguém. Minha oração era dizer: “Jesus, estou com medo, triste, sem forças, sinto-me só, ninguém me entende, mas eu confio em Vós”. Outras vezes, eu apenas rezava o Salmo 39 (40) e, no último versículo, eu só conseguia chorar: “Quanto a mim, sou pobre e desvalido, mas o Senhor vela por mim. Sois meu protetor e libertador: ó meu Deus, não tardeis”. Em outros momentos, o silêncio era minha única companhia.

Foi duro. O diagnóstico, a cirurgia radical onde perdi o útero, as trompas e os ovários — órgãos que, para nós mulheres, são o lugar de gerar a vida. Achei que acabava ali, mas vieram as radioterapias, braquiterapias e as quimioterapias, onde os cabelos caíram. Eu me permiti sentir todas essas dores. Tive a coragem de ser frágil e reconhecer que eu não tinha o controle. Encontrei força na oração dos irmãos quando a minha própria voz sumia. Descobri que minha missão de salvar almas não passava apenas pelo que eu fazia, mas pelo que eu permitia que Deus fizesse em mim através da dor.

Você não precisa ser forte o tempo todo

Você só precisa ser d’Ele — com suas fraquezas, suas dúvidas e seu “Sim” que, mesmo trêmulo, continua sendo real. Do jeito que você está, abandone-se confiadamente em Deus. Viva um dia de cada vez. Deixe-se cuidar. Faça o que estiver ao seu alcance: reze, ouça boas músicas, leia bons livros, caminhe, ligue para alguém especial, vá tomar um sorvete.

Mas, principalmente, permita-se sentir. Chore sempre que quiser, partilhe sua dor, peça ajuda. E está tudo bem! Só não deixe o seu coração endurecer. Não se revolte contra Deus, pois Ele sente com você, Ele chora com você. Essa dor vai passar. Aguenta firme. Esta é a hora da provação da fé. Ela é real, ela custa, é duro viver tudo isso – eu sei! –, mas você não está sozinho. Deus tem o controle da nossa vida, e a palavra final é d’Ele.

Grazielle Camara da Silva
Membro da Canção Nova desde 2018 no modo de compromisso do Núcleo