Padre Wagner Ferreira

Devo afastar-me daqueles que praticam imoralidades?

A resposta a essa pergunta não é tão simples por conta da complexidade das relações humanas, o quanto impacta ou não meu comportamento na vida de outras pessoas, e, por fim, a importância da difusão do Evangelho de Jesus através do testemunho de uma vida coerente com a fé cristã. De todos os modos, apresento a você, leitor(a) deste artigo, uma breve reflexão sem esgotar o argumento.

O chamado à prudência e à maturidade

O compromisso com a vocação cristã gerada no Batismo implica sermos “sal da terra e luz do mundo”, conforme os ensinamentos de Cristo Jesus. É no emaranhado das relações pessoais, familiares e sociais que cada cristão é chamado a testemunhar a fé sem receios em relação aos desafios, como a indiferença e até mesmo a rejeição e contestação infligidas àqueles que creem no Salvador Jesus, como se verifica no testemunho dos mártires.

Ao enviar seus discípulos em missão, Jesus os instruiu acerca desses desafios: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16). Por causa do anúncio do nome do Senhor, os discípulos estão conscientes de que serão odiados, mas Jesus também garante: “aquele que perseverar até o fim será salvo” (cf. Mt 10,22).

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Outra coisa a ter presente é o quanto possuímos uma maturidade de fé a ponto de não nos deixarmos seduzir por pessoas cujo comportamento é contrário à fé cristã. Mesmo sendo discípulo missionário de Jesus, percebo que não fiz progressos na vida espiritual, e com isso eu me constato vulnerável a vícios e outras atitudes não condizentes com o cristão. Como se diz, “certas pessoas são tóxicas”, e se me encontro fraco na fé, o melhor a fazer é manter distância das pessoas as quais não consigo, de alguma forma, influenciar com o testemunho cristão; preservo distância, porque preciso trilhar um caminho que me conduz à maturidade cristã.

A ponderação sobre a maturidade espiritual é muito importante, como bem nos ensina a passagem em que o livro dos Atos dos Apóstolos narra acerca dos judeus exorcistas, uma vez que estes homens, filhos do sumo sacerdote Ceva, foram derrotados pelos espíritos malignos (cf. At 19,13-16). Presumir o sucesso espiritual ao usar no exorcismo o nome de Jesus que Paulo pregava, esse foi o erro dos judeus, tendo presente que eles não tinham fé em Jesus como Senhor e Salvador.

Superando o medo através da confiança na graça

O medo de retaliações ou perseguições não pode ser para nós cristãos um empecilho para não nos comprometermos com a evangelização através do testemunho da fé. No processo de amadurecimento da fé, a confiança na graça e na divina providência é essencial. Sobre isso, eis o ensinamento de Jesus: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois passarinhos por um passe? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois bem mais que os pássaros valeis vós” (Mt 10,28-31).

A responsabilidade do testemunho

Sem qualquer presunção e superando, com a graça de Deus, todo medo, o importante é valorizar o compromisso batismal em comunhão com a ação missionária da Igreja. Jesus enviou seus discípulos dois a dois também para nos ensinar que ninguém deve evangelizar de modo isolado, mas sempre em comunhão eclesial.

Por fim, devemos ter muita atenção às palavras de Jesus sobre o testemunho cristão: “Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10,32-33).

Padre Wagner Ferreira
Presidente da Comunidade Canção Nova e da Fundação João Paulo II