A ideologia purista não condiz com a realidade
É intelectualmente honesto dizer que não há culturas, línguas ou religiões que sejam totalmente puras no sentido de não ter assimilado elementos de outras tradições culturais, linguísticas e religiosas. A ideia de um certo purismo não se sustenta quando se analisa a realidade. Os povos avançam na história e compartilham as suas inspirações, as suas descobertas e os seus feitos. A própria Bíblia nos apresenta exemplos de costumes que os hebreus assimilaram a partir do contato com povos pagãos.

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Santo Ambrósio de Milão, no Comentário à 1ª Epístola aos Coríntios, afirma que a verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo (Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Sancto est). É sinal de maturidade quando um ajuntamento de pessoas percebe que outro grupo possui algo de verdadeiro e se apropria dessa realidade com o intuito de fazer a sua comunidade crescer. O compartilhamento de elementos ricos e verdadeiros no âmbito cultural, linguístico ou religioso não deve ser confundido com sincretismo.
A diferença entre intercâmbio e sincretismo
O intercâmbio é harmonioso, orgânico e positivo, já o sincretismo é uma deturpação dessa troca salutar porque implica a justaposição de elementos que, de per si, são contraditórios. A palavra sincretismo (syn-kretismós) vem do grego e significa, etimologicamente, “com Creta” ou “coalisão dos cretenses”. A considerar o uso contemporâneo da palavra, sincretismo significa associação de elementos diversos e contraditórios, fusão heterodoxa de doutrinas, crenças ou elementos culturais.
Um exemplo de intercâmbio é a maneira como nós herdeiros da tradição judaico-cristão concebemos e representamos iconograficamente os anjos como seres espirituais alados.
Estudiosos defendem a tese de que essa concepção teria sido herdada da religião dos persas, praticantes do zoroastrismo. Essa influência teria ocorrido durante o exílio na Babilônia (séc. VI a. C). Trata-se de um dado estético-espiritual muito belo e que não compromete a sistematização da angeologia judaico-cristã, apenas a enriquece.
Um exemplo de sincretismo é quando uma pessoa se diz cristã e defende a crença na reencarnação. Um dos elementos fundamentais da religião cristã é a crença na ressurreição da carne. O apóstolo Paulo ensina: “Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã a nossa fé” (1Co 15, 13-14). Crer na ressurreição significa crer que cada ser humano é corpo, alma e espírito – numa unidade e unicidade perfeitas – e que após a morte não se reencarna, mas faz a experiência do mistério da ressurreição. Logo, uma pessoa não pode se dizer cristã e acreditar na reencarnação porque é, absolutamente, contraditório.
A realidade brasileira exige discernimento
A formação do povo brasileiro se dá a partir da miscigenação. Somos uma realidade muito plural, formada a partir de diversos elementos culturais, linguísticos e religiosos. Isso faz do Brasil um terreno fértil para a consolidação do sincretismo, especialmente, o religioso. Considerando que o sincretismo consiste na justaposição de elementos contraditórios, é necessário então fazer um sério discernimento antes de assimilar qualquer doutrina ou prática religiosa que seja estranha à nossa tradição religiosa, especialmente a cristã católica.
Que o discernimento levado a termo, por meio da oração, do estudo e da honestidade intelectual, nos ajude a aplicar o conselho paulino: “Examinai tudo e guardai o que for bom” (1Ts 5, 21). Ademais, que a aplicação desse conselho nos leve primeiro a conhecer bem a nossa própria tradição religiosa antes de nos aproximar da do outro. Por fim, que a nossa aproximação à tradição religiosa do outro seja marcada pelo dever de respeito e pelo direito de discordância.
Padre Robison Inácio de Souza Santos – Diocese de Guaxupé (MG), doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.




