Edith entra para a política

Como foi o início da conversão de Edtih Stein

Em fevereiro de 1919, é aberta a Assembleia de Weimar. Em 28 de junho, a Alemanha assina o tratado de paz em Versailles.

Edith Stein dedica-se à atividade política, auxiliando na instauração da República de Weimar. Entra para o Partido Democrata e participa ativamente nas reuniões de seu partido político em Berlim. Nesse mesmo período, engaja-se mais uma vez na luta a favor do voto das mulheres. O direito de voto havia sido concedido em novembro de 1918, mas por uma lei um tanto ambígua e hesitante. Edith distribuía panfletos para motivar e ensinar as mulheres a usar o direito adquirido, para que ele não fosse revogado. Mas ela não se sente realizada com todas essas atividades políticas, e, aos poucos, vai entendendo que sua missão mesmo é ser filósofa e professora.

Como foi o início da conversão de Edtih Stein

Tenta, mais uma vez, tornar-se professora universitária, postulando em Gotinga, Friburgo e Kiel, pois a lei havia sido modificada e autorizava agora o ingresso de mulheres na docência universitária. Mas ela não consegue, pois a mentalidade reinante nas universidades ainda não aceitava a presença de mulheres em uma cátedra.

Profunda crise e vida interior de Edtih Stein

Nos anos de 1920 e 1921, Edith Stein passa por uma profunda crise e busca interior da verdadeira , uma crise que se dá na “alma da alma”, no seu núcleo pessoal, que se expressa como uma crise de busca pela verdadeira fé.

Paralelamente, ela elabora uma série de trabalhos científicos que mostram sua reflexão sobre a política de seu tempo: Uma investigação sobre o Estado. Isso mostra como que, mesmo em uma busca interior, Edith não estava alienada dos acontecimentos políticos que estavam acontecendo ao seu redor: ela ressignifica, dá um novo significado à política.

Esse texto finaliza o que muitos consideram a primeira fase dos escritos steinianos, onde ela se mantém muito próxima ao pensamento de Edmund Husserl. Stein aprofunda a constituição do ser humano, tanto individualmente quanto intersubjetivamente.

Professora autônoma de Filosofia

Edith Stein tenta, mais uma vez, acessar a um cargo docente na universidade. Ela não desiste de seu sonho, mas não fica parada quando não é bem-sucedida. Decide dar aulas de introdução à filosofia fenomenológica a mais de trinta pessoas na sala de piano da sua casa.

Ela revisa as notas dessas aulas por muitos anos e suas correções mostram um aprofundamento nas noções de “eu pessoal” e de “alma”. Ela faz revisões e acréscimos ao que compreendia do método de Husserl a partir das suas leituras de Santo Agostinho, Santa Teresa de Jesus, Santo Tomás de Aquino, Dionísio Areopagita, Duns Escoto, São João da Cruz entre outros. Os textos usados para essas aulas serão publicados apenas em 1994, sob o título: Introdução à Filosofia.

A importância dos vínculos de amizade

Apesar de não estar mais vinculada à universidade, Edith Stein continua se correspondendo com os membros do Círculo de Gotinga:  com o casal Conrad-Martius, Jean Hering, Alexandre Koyré, Roman Ingarden, Fritz Kaufmann, entre outros, e com o próprio Edmund Husserl.

Uma boa parte dessa correspondência foi preservada e publicada, permitindo que se conheça como foi a vida de Edith Stein, no período que não se encontra descrito nos seus Escritos autobiográficos – da defesa de sua tese até a sua entrada no Carmelo de Colônia.

Encontro da verdadeira fé

Em junho de 1921, Edith passa pela casa de sua amiga Anne Reinach, jovem viúva, que tinha se convertido do protestantismo para o catolicismo. Anne pede a Edith para escolher um livro em sua biblioteca, para ler nas férias, e caiu em suas mãos o Livro da Vida de Teresa de Jesus. Enquanto estava de férias em Bergzabern, na casa de sua amiga a fenomenóloga Hedwig Conrad-Martius, Edith Stein lê a autobiografia de Santa Teresa D’Ávila, decidindo dar o passo ao catolicismo: “No verão caiu em minhas mãos a ‘Vida’ de nossa Santa Madre Teresa e pus fim à minha longa busca da verdadeira fé” (EA, p. 543)1.

Edith Stein busca incessantemente um fundamento em seu interior e se encontra com uma Pessoa, Jesus Cristo. Ela comunica sua decisão à sua família, que não a compreende e nem a aceita. Mas todos reconhecem que é impossível demovê-la, quando toma uma decisão.

Para melhor entendermos como se deu a conversão de Edith Stein, é preciso pesquisar em seus escritos autobiográficos o modo como ela passou da descrição fenomenológica do fenômeno da experiência religiosa – visto inicialmente como um experiência de pessoas com quem ela se relacionava – como uma vivência que ela não conseguia preencher empaticamente, para uma vivência que passou a ser percebida em seu próprio interior.

Leia mais:
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Diante da experiência religiosa dos convertidos

Edith Stein relata, ao falar dos primeiros anos universitários em Gotinga, sua postura fenomenológica com relação aos filósofos – alunos e professores – convertidos ou crentes. Ela afirma que esse foi o seu primeiro contato com “um mundo que até então lhe era completamente desconhecido” (EA, p. 333).

Nesse período, inicia-se o rompimento de seu ateísmo e a queda “das preconcepções racionalistas”, dentro das quais havia crescido, fazendo com que “o universo da fé” surgisse de repente diante dela: Contentava-me em acolher em mim, sem resistência, os estímulos que vinham das pessoas à minha volta, e fui por elas progressivamente transformada – quase sem perceber” (EA, p. 333).

Edith também comenta em seus escritos autobiográficos a grande influência do filósofo fenomenólogo Max Scheler naqueles seus primeiros anos em Gotinga. Ele havia se convertido ao catolicismo e, naquela época, “estava saturado de ideias católicas, fazendo propaganda delas com todo o brilhantismo do seu espírito e força de sua palavra.” (EA, p. 332). Embora ela afirmasse nunca ter tido essa experiência religiosa tal como era relatada por Scheler, reconhecia, por meio da vivência empática, que, para aquelas pessoas, era uma vivência autêntica e verdadeira.

Em 1916, no final de seu estudo sobre a empatia, Edith Stein reconhece que é preciso aprofundar a análise da dimensão interior da alma, buscando entender melhor em que consiste essa relação empática que muitas das pessoas que ela admirava – Max Scheler, Edmund Husserl, o casal Reinach, Conrad-Martius – diziam ter com “os espíritos” – Deus, os anjos, os santos etc., e ela reconhecia ser, para essas pessoas, uma vivência autêntica e verdadeira.

Percebe que existe uma relação entre a experiência religiosa e a liberdade humana. Isso a instigou sobremaneira no interesse em conhecer cada vez mais essa interioridade da pessoa humana, pois ela mesmo reconhecia que é nela que se dá a verdadeira experiência da liberdade humana e a responsabilidade pessoal perante os fatos da história, como ela escreve em uma de suas cartas ao seu amigo polonês Roman Ingarden.

Edith se torna capaz de compreender e aprofundar a verdadeira especificidade do ser humano como “pessoa” à medida que vivencia a possibilidade de uma relação pessoal com Deus na interioridade de sua própria alma.

Batismo de Edith na Igreja católica

Em 1º de janeiro de 1922, depois de ter sido sabatinada e recebido elogios pela sua perfeita compreensão da doutrina católica – estudada profundamente desde a sua decisão de entrar na Igreja católica – Edith é batizada na Igreja de São Martinho, em Bergzabern, com o nome Edith Teresa Hedwig Stein. Como era costume na época, modifica o seu nome acrescentando o nome de Santa Teresa e o de sua amiga protestante, Hedwig Conrad-Martius, que foi a sua madrinha de batismo. Recebe a comunhão no dia seguinte.

O Padre Eugen Breitling foi quem aceitou que sua a amiga protestante fosse sua madrinha de batismo na Igreja católica, após receber a permissão do bispo local. Ele estava muito envolvido com os movimentos litúrgicos e ecumênicos, que terão uma grande influência sobre o catolicismo de Edith. Apesar de ter sido vivenciado em um período anterior ao Concílio Vaticano II, o antecipou em vários pontos importantes. O padre Breitling percebe o grande valor de Edith Stein e a coloca em contato com o Padre Joseph Schwind, vigário geral de Espira e filósofo, local para onde Edith irá se mudar e iniciar sua nova vida como docente em uma escola de moças das irmãs dominicanas.

O Padre Joseph Schwind será interlocutor de Stein e seu conselheiro espiritual até 1927, ano de sua morte. Esse é um detalhe importante para compreender as atitudes que ela tomou após a sua conversão, nunca sozinha, mas sempre acompanhada por um diretor espiritual e no contato por cartas com seus amigos mais íntimos.

Referências Bibliográficas:

1 Edith Stein. Vida de uma família judia e outros escritos autobiográficos. Trad. Maria do Carmo Wollny e Renato Kirchner. Rev. Juvenal Savian Filho. São Paulo: Paulus, 2018. – Coleção Obras de Edith Stein. Esse texto será referido aqui por: EA (Escritos Autobiográficos).

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