parte I

O surgimento e a evolução da prática do Sacramento da Penitência

A evolução na forma de tratar os cristãos pecadores dentro da comunidade cristã

Caro internauta, para aqueles que professam a sua fé em Deus, dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, o Sacramento da Penitência não é algo totalmente desconhecido. Sabemos que esse Sacramento também pode ser chamado de Sacramento do Perdão, da Reconciliação, da Confissão, da Conversão.

Quem se aproxima dele, obtém da misericórdia de Deus o perdão das ofensas feitas a Ele. Ao mesmo tempo em que acontece a reconciliação com Deus, acontece a reconciliação com a Igreja. Se, muitos conhecem a sua finalidade, um número não tão significativo desconhece a sua origem e desenvolvimento histórico. Por isso, neste artigo, não vamos nos aprofundar na questão catequética, senão na questão histórica.

E, para bem compreendermos como se originou o Sacramento da Penitência, precisamos voltar para os primeiros séculos da Igreja. Naquele tempo, havia duas formas de ação com relação aos cristãos pecadores: a primeira era a forma preventiva; e, a segunda, a forma curativa.

O surgimento e a evolução da prática do Sacramento da Penitência

Foto ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

Forma preventiva e forma curativa

A primeira estava sustentada na firme aspiração, por parte dos fieis e dos seus líderes, de permanecerem íntegros e irrepreensíveis, afastando do seio da comunidade qualquer motivo que pudesse levar ao pecado. Assim, os membros da comunidade aconselhavam e exortavam uns aos outros. Além disso, rezavam continuamente em intenção da comunidade. Os que estavam mais firmes na fé animavam aqueles que estavam arrefecidos. Até hoje podemos notar esse lindo costume no nosso meio cristão.

A segunda forma, a curativa, por assim dizer, era mais penosa. O pecador era obrigado a se retirar do meio da comunidade. Tal atitude intentava cortar o mal pela raiz, evitando que ele se alastrasse pela comunidade e contaminasse os outros membros. Essa prática mais pesada se encaixaria muito bem no ditado popular que comumente escutamos nos dias de hoje: “uma fruta podre precisa ser retirada do cesto, caso contrário, poderia estragar as frutas saudáveis”.

Como eram aplicadas as penitências nos primeiros séculos da Igreja?

Em geral, até o sexto século, vigorava a seguinte norma: todos os pecadores graves deveriam, por princípio, ser submetidos à penitência canônica, ou seja, àquelas normas disciplinadoras da Igreja. Já, os pecados leves, eram perdoados por meio da oração, pelo jejum, pela esmola, pelas boas obras. Essas, também, são formas de penitência, porém, não canônicas. Cabia ao bispo decidir se a culpa devia ser submetida à penitência canônica (mais rigorosas) ou não. Além disso, cabia ao bispo estabelecer o modo e a duração da mesma.

Acontece que, havia nessa época, certa dificuldade de distinção entre o que poderia ser considerado pecado grave e o que poderia ser considerado um pecado mais leve. O fato é que, esse ato de pedir perdão e de aceitar a penitência estabelecida pelo bispo era, normalmente, um ato litúrgico. Cabe ressaltar que, esse ato muitas vezes vexatório, não visava humilhar o penitente, e sim tornar essa separação entre o pecador e a comunidade visível para todos. Esse procedimento tinha o intuito de fazer com que toda a comunidade ajudasse o irmão pecador no seu processo de conversão e de retorno.

Leia mais:
::Breve catequese sobre indulgência: pecado, culpa e pena
::Breve catequese sobre a indulgência: como entender essa remissão?
::Não faça desta Quaresma apenas mais uma em sua vida
::Dez fatos sobre a confissão

As penitências eram bem rigorosas

Não raras vezes as penitências eram duras. Os penitentes eram submetidos a rigorosos jejuns, vestir cilícios, dormir no chão, fazer prolongadas orações, fazer peregrinações penitenciais aos túmulos dos mártires, abster-se de comer carnes, transportar e sepultar os defuntos. Às vezes, o penitente era obrigado a permanecer na porta da igreja, sem poder entrar, suplicando a oração dos irmãos. Era permitido que eles ouvissem a Palavra de Deus na porta da Igreja, porém, deviam retirar-se no momento da celebração eucarística.

A duração dessas penitências poderia variar conforme os tempos e os lugares. Alguns bispos defendiam a duração de três anos, outros sete, outros ainda, vinte anos. Em alguns casos, a penitência poderia ser imposta por toda a vida, cessando com a morte do penitente. Ao final do período penitencial, na maioria dos casos o cristão pecador arrependido era reconciliado mediante um rito litúrgico solene o qual contava com a presença de toda a comunidade. Esse rito significava a reconciliação do pecador com a Santa Igreja.

Podemos perceber, então, que houve uma evolução bastante significativa na prática do Sacramento da Penitência. No próximo artigo, continuaremos apresentando esse processo de evolução até chegar ao modo como ele é realizado nos dias de hoje.

Deus abençoe você e até a próxima!

Referências:

MIRANDA, Mário de França. Sacramento da Penitência: o perdão de Deus na comunidade eclesial. 5 ed. São Paulo: Loyola, 1996.