Quem procurais?

Há pouco, quando estava em oração, pensei nos dois primeiros Apóstolos que, solicitados por João Batista, seguiram Jesus nas proximidades do rio Jordão como lemos no início do Evangelho de João (cf. Jo 1, 35-37). O evangelista narra que Jesus se voltou e lhes perguntou: “Quem procurais?”. Eles responderam: “Rabbi, onde moras?”. Respondeu: “Vinde ver” (cf. Jo 1, 38-39). Naquele mesmo dia os dois que O seguiram fizeram uma experiência inesquecível, que os fez dizer: “Encontramos o Messias” (Jo 1, 41). Aquele que pouco tempo antes consideravam um simples “rabbi”, tinha adquirido uma identidade bem definida, a de Cristo esperado há séculos.

Mas na realidade, quanto caminho tinham ainda diante de si aqueles discípulos! Nem sequer podiam imaginar quão profundo seria o mistério de Jesus de Nazaré; quanto se poderia revelar imperscrutável o seu “rosto”. A ponto que, depois de ter vivido junto com ele três anos, Filipe, um deles, ouvirá na Última Ceia: “Estou convosco há tanto tempo e tu ainda não me conheces, Filipe?”. E depois aquelas palavras que expressam toda a novidade da revelação de Jesus: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9).


:: O discípulo nasce do encontro (Dom Cláudio Hummes)
:: Papa é acusado injuriosamente de “ocultar crimes sexuais”
:: Cobertura do V Encontro Mundial das Famílias com o Papa


Só depois da sua paixão, quando o encontrarem ressuscitado, quando o Espírito iluminar as suas mentes e os seus corações, os Apóstolos compreenderão o significado das palavras que Jesus tinha dito, e reconhecê-lo-ão como o Filho de Deus, o Messias prometido para a redenção do mundo. Então tornar-se-ão seus mensageiros infatigáveis, testemunhas corajosas até ao martírio.

“Quem me vê, vê o Pai”. Sim, queridos irmãos e irmãs, para “ver Deus” é preciso conhecer Cristo e deixar-se plasmar pelo seu Espírito que guia os crentes “para a verdade completa” (cf. Jo 16, 13).

Quem encontra Jesus, quem se deixa atrair por Ele e está disposto a segui-lo até ao sacrifício da vida, experimenta pessoalmente, como Ele fez na cruz, que só o “grão de trigo” que é lançado à terra e morre, dá “muito fruto” (cf. Jo 12, 24). Este é o caminho de Cristo, o caminho do amor total que vence a morte: quem o percorrer e desprezar “a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna” (Jo 12, 25). Isto é, vive em Deus já nesta terra, atraído e transformado pelo esplendor do seu rosto. Esta é a experiência dos verdadeiros amigos de Deus, os santos, que reconheceram e amaram nos irmãos, especialmente os mais pobres e necessitados, o rosto daquele Deus longamente contemplado com amor na oração.

Eles são para nós exemplos encorajadores a ser imitados; garantem-nos que se percorrermos com fidelidade este caminho, o caminho do amor, também nós como canta o Salmista nos saciaremos da presença de Deus (cf. Sl 16 [17], 15).

(…) Mas qual é “a geração” que procura o rosto de Deus, qual geração é digna de “subir ao monte do Senhor”, de “estar no seu lugar santo”? O salmista explica: são aqueles que têm “mãos inocentes e coração puro”, que não dizem mentiras, que não juram falso contra o próximo (cf. v. 3-4).

Portanto, para entrar em comunhão com Cristo e contemplar o seu rosto, para reconhecer o rosto do Senhor no dos irmãos e nas vicissitudes de todos os dias, são necessárias “mãos inocentes e corações puros”. Mãos inocentes, isto é, existências iluminadas pela verdade do amor que vence a indiferença, a dúvida, a mentira e o egoísmo; e além disso, são necessários corações puros, corações arrebatados pela beleza divina, como diz a pequena Teresa de Lisieux na sua oração à Santa Face, corações que têm impresso o rosto de Cristo.

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.