E se fosse você?

Quem gosta de viver sabe que as coisas mais importantes desta vida se escondem nos detalhes simples dos acontecimentos ordinários. Não as aprendemos nos livros, nas aulas nem em sermões. Passam de pessoa para pessoa por meio de gestos e comportamentos concretos. A única forma de um pai ensinar um filho a ser honesto, por exemplo, consiste em ele mesmo ser honesto. Se assim não for, ele bem pode esforçar-se em dar ao filho enormes sermões sobre essa virtude, mas certamente não terá bom êxito. Por outro lado, se o pai for honesto, não precisará sequer usar as palavras.

Falando da simplicidade que se esconde nos detalhes – revelada por intermédio dos pequenos –, partilho uma experiência que vivi há poucos dias aqui em Portugal. Aliás é importante dizer que foi na Aldeia de São Romoão. Aldeia aqui tem uma conotação diferente do que eu imaginava, algumas são como se fossem pequenas cidades no Brasil, e São Romõao é uma destas. Fica ao pé da Serra da Estrela, um dos pontos turísticos mais importantes do País, terra linda e cheia de gente simples e acolhedora.

Alguns irmãos e eu fomos para este lugar em missão, e a mim foi designado o encargo de fazer uma pregação sobre a passagem bíblica de Lucas 19, 1-10, que narra a conversão de Zaqueu. Por acaso, você já leu ou meditou sobre essa passagem alguma vez na vida? Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos, naquela época, e não era bem visto por conta da profissão que exercia. Tinha muitos bens, mas era pobre por não ser amado. Gosto desta leitura, e logo me dispus a meditar sobre o que este homem experienciou naquele dia inesquecível em que justamente o Mestre do Amor, ao passar por Jericó, resolveu jantar em sua casa. Como será que ficou seu coração quando Jesus lhe dirigiu o olhar em direção àquela árvore – onde estava escondido entre galhos e folhas – nem um pouco preocupado com sua dignidade, mas movido pela vontade de conhecer, de perto, aquele Homem tão diferente dos outros rabinos do seu tempo? Dizem que ele subiu na árvore porque era de baixa estatura, mas será que foi só por isso?

Durante a pregação, fui estimulando cada um a se colocar no lugar de Zaqueu e a procurar imaginar seus sentimentos ao ouvir a voz do Senhor chegar a seus ouvidos, comunicando-lhe que iria visitá-lo… Depois perguntei: E se fosse você? Como receberia o Senhor para jantar em sua casa esta noite?

Com entusiasmo, cada um foi dando sua resposta. Algumas senhoras vibravam ao dizer que iriam fazer um banquete, usar toalhas de seda nas mesas, arrumar a casa com flores e caprichar nos detalhes. Iriam oferecer-lhe vinho da melhor qualidade, em taças de cristal e por aí seguiam dando asas à imaginação. Foi bem divertido e serviu também para quebrar o gelo – tanto do relacionamento entre nós, como do frio que naquela terra é caprichado.

Quando já estávamos retomando a concentração, ouvi uma voz de criança gritar forte no meio da assembléia: “Se Jesus fosse me visitar eu ia dar-lhe muitos beijos!”

Era o Abel, um menininho de cinco anos cheio de vida, com o rosto bem corado e olhos claros, como a maioria de seus conterrâneos. Ao som de sua voz, todos nós nos voltamos para ele, admirados. Eu tive até dificuldades para enxergá-lo no meio de tanta gente grande… Depois, fiquei alguns segundos contemplando a grandeza de Deus, que gosta de se revelar através dos simples. Dizer mais o que naquela hora? Abel disse tudo em tão pouco!

Voltei de São Romoão pensando: Certamente Jesus se sentiria muito bem na casa daquele menino, mas e eu, como será que tenho acolhido o Senhor em minha casa?

Há mais de dois mil anos, Ele visitou Zaqueu e levou a salvação para a casa dele mudando completamente sua história. Mas não parou por aí, o Senhor continua nos visitando também nos dias de hoje. Às vezes, Ele vem sem avisar, chega de mansinho, discreto, silencioso ou falante, através de quem já conhecemos. Outras vezes, vem de um jeito novo e através de pessoas novas. O certo é que quando Ele resolve nos surpreender, não há árvore que nos esconda do seu olhar penetrante. De vez em quando, o Senhor me visita assim: quando eu menos espero estou diante d’Ele, o olhar d’Ele sonda-me por inteiro. “Marca um jantar” comigo e nem pergunta se já tenho algum compromisso, simplesmente ultrapassa meus planos, quebra minha rotina e me ensina – com seu jeito – que é assim que se vive e se ama nesta vida. Ele não se prende às regras das leis e o tempo está nas mãos d’Ele!

Parece-me que o Abel já compreendeu a lição. Descobriu que o amor vai além de um banquete ou de uma mansão, e que a melhor acolhida está no calor do afeto traduzido. Eu estou aprendendo um pouco sobre isso a cada dia… E você? Preparemo-nos hoje para receber o Senhor em nossa casa. O certo é que Ele virá. Como? É tarefa nossa descobrirmos. Temos como pista o fato de que Ele prefere a simplicidade e nos enxerga sempre, mesmo que por um motivo ou outro estejamos “sob a árvore”.

Que saibamos acolher o Senhor e assim sermos alvo da salvação, que – com Ele – entra em nossa casa. Estamos juntos!


Dijanira Silva

Missionária da Comunidade Canção Nova, desde 1997, Djanira reside na missão de São Paulo, onde atua nos meios de comunicação. Diariamente, apresenta programas na Rádio América CN. Às terças-feiras, está à frente do programa “De mãos unidas”, que apresenta às 21h30 na TV Canção Nova. É colunista desde 2000. Recentemente, a missionária lançou o livro “Por onde andam seus sonhos? Descubra e volte a sonhar” pela Editora Canção Nova.

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