Solidão como possibilidade de encontro

Uma condição essencial para que nossos relacionamentos sejam equilibrados e sadios, é a qualidade do relacionamento que temos com nós mesmos. Se o coração não tem a devida maturidade para se enfrentar em sua real identidade, este se construirá de maneira oca e ausente de inteireza, existindo fragmentado em meio a ilusões.

A experiência do deserto e da solidão é de grande valia para que o ser se contemple e enfrente, e assim, possa se compreender como é.
De forma a nos oferecer uma rica possibilidade de encontro, remetendo-nos ao encontro com nós mesmos e nos preparando para, a partir da consciência do que somos, nos encontrarmos verdadeiramente com o outro.

Há quem não se permita viver a experiência da solidão e tende a criar barulhos e ocupações por receio do silêncio, o qual revela o que somos.

Existem aqueles que afirmam “ser de todos” e comunicar-se constantemente com todos; porém, é preciso recordar que o lançar-se na dimensão relacional não pode ser fuga, mas sim, um passo consciente de alguém resolvido em sua individualidade, que deseja doar e comunicar o que é e também acolher a verdade expressa por outro. Contudo, ninguém pode doar-se, se antes não se possuir.

Os desertos proporcionados pela vida, se bem direcionados, podem preparar-nos qualitativamente para o encontro com os demais, e principalmente, para o encontro com Deus.

A solidão e o silêncio revelam o que somos, fazendo-nos entender nossa singularidade, e conseqüentemente, a singularidade daqueles que nos acompanham. Ao vivê-los [solidão e silêncio] aprendemos a compreender as diferenças que nos caracterizam, assim como as de cada pessoa. Assim, poderemos reconhecer: “O outro não sou eu. Ele pensa, vive e ama de outra forma, e desse modo, precisa ser respeitado e acolhido”. No deserto descubro um outro que possui uma singularidade e que não tem a obrigação de ser do jeito que eu quero nem de corresponder às minhas carências e frustrações.

Quando passamos a nos enxergar de frente, fazendo a experiência de nos aceitar como somos, podemos amar inteiramente aos outros sem os forçar a ser o que desejamos. O amor real não exige que o outro se encaixe em nosso modelo de perfeição, este compreende e aceita que o outro é bastante – é “ele mesmo” – para nos decepcionar.

A solidão ajuda a formar em nós essa percepção, preparando-nos para um qualitativo encontro, pois nela somos capazes de nos contemplar, compreender e nos doar com inteireza. Por isso, é preciso se assumir para se doar, percebendo-se como único para assim poder acolher a unicidade de outra pessoa. Um pouco de solidão, muitas vezes, tem a função de nos equilibrar… Repito: quando bem vivida (no autoconhecimento) e direcionada, tendo como meta o amor e a autodoação.

O deserto é também experiência de liberdade, de perceber-se livre e amado por Deus – que respeita o que somos – e de entender que para amar uma pessoa é preciso renunciar a uma mentalidade de posse, deixando-a livre para se expressar como é.

Que essa bela experiência do deserto nos confira profundidade e nos leve a compreender nosso imenso valor e o de cada pessoa. Dessa maneira, poderemos amar com mais qualidade e com o sagrado respeito que nos torna mais autênticos e “encontrados” em nossa essência, possibilitando-nos a realização com relação ao que somos.

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