Setenta vezes sete

“Fora! Saiam todos daqui! Pra fora todos vocês!” Ficamos sem entender o que se passava no coração da Dona Iraídes. Ela era tão calma, tão meiga! O que teria acontecido com ela, que a deixou tão transtornada a ponto de nos mandar retirar de seus aposentos com tanta veemência?

Era o final do ano de 1979. D. Iraídes freqüentava o Grupo de Oração e caiu enferma, com câncer na garganta. Como naqueles primórdios da Renovação Carismática Católica em Goiânia, éramos poucos ainda, nos acercamos daquela querida irmã com todo o nosso carinho e nos propusemos orar todos os dias por sua cura. Íamos a maioria de nós quase todos os dias até sua casa. Porém, à medida que rezávamos, seu estado de saúde só piorava, mormente nossas insistentes súplicas.

Chegando o dia 6 de janeiro de 1980, entramos no quarto de D. Iraídes para a nossa oração. Como era de costume fomos logo cumprimentando e eu disse então: “D. Iraídes, hoje é um dia muito especial, é o dia de Santos Reis”. Foi aí, que vimos o seu semblante sempre calmo se transformar em uma careta de ódio e ela gritou: “Fora! Saiam todos daqui! Pra fora todos vocês!” Já na saída perguntei a seu filho o que havíamos feito de errado. Ele retrucou: “Vocês falaram lá dentro uma palavra proibida nessa casa!” Sem entender nada do que se passava perguntei: “Palavra proibida? Não estou entendendo!” O rapaz completou: “Nessa casa não se pode falar a palavra REIS – é que o ex-marido dela se chama Reis e eles estão separados, com um ódio mortal há doze anos. Basta alguém dizer esse nome perto de minha mãe, que ela fica transtornada de raiva”.

Vimos que havia uma doença muito pior que o câncer, dentro de Iraídes. Ela estava com o câncer da alma, que é o rancor. Enquanto que as doenças que nos acometem, nos tiram as forças humanas, o ódio e o ressentimento arrancam a nossa paz. Só depois de quinze dias é que Iraídes aceitou que voltássemos a rezar por ela. Passou-se mais de um mês. Aos poucos, o Senhor foi amolecendo o seu coração.

Um dia, para nossa surpresa, ele falou: “Se vocês trouxerem o Reis, façam o favor de não me avisar”. Entendemos imediatamente que ela desejava reconciliar-se com ele. Sem demora, pedimos que ele viesse até a casa de sua ex-esposa. Ele morava no interior de Goiás e demorou um dia para chegar. Como de costume, entrei na casa de Iraídes. Ela estava dormindo. Apenas a sua enfermeira particular estava lhe acompanhando. Acordei Iraídes e ela olhou-me com aqueles olhos azuis e comentou, para a minha surpresa: “Você trouxe o Reis, não trouxe?” Respondi estupefado: “Como é que a senhora ficou sabendo?” Ela falou sorrindo: “Eu estava sonhando que vocês viriam, hoje, com ele”. Não só o Reis está lá fora, mas os nossos amigos do Grupo de Oração também. “O que eu faço então?”, perguntei. Ela respondeu sem pestanejar: “Vocês vão fazer como eu vi no meu sonho. Vão dar as mãos aqui no meu quarto, vão cantar uma música que eu quero para o Reis entrar”. Assim fizemos e cantamos essa música para o Reis entrar: “Pecador, agora é tempo de contrição e de temor…”

O tal Reis, era um homem grande. Mas, na medida em que se aproximava da cama de sua ex-esposa, ele foi diminuindo, diminuindo, até se ajoelhar na cabeceira de sua cama e falou, para nossa maior surpresa ainda: “Iraídes, meu amor, me perdoa!” Nos entreolhamos boquiabertos. Não tínhamos rezado com ele. Eles estavam separados há doze anos com um ódio mortal. Como é que agora, ao encontrar sua esposa, falava dela como meu amor? O casamento é indissolúvel e, não é uma separação pelo divórcio que torna as almas separadas. Quando rezávamos para Jesus amolecer o coração de D. Iraídes, o coração do Reis, que continuava sendo uma só carne o de sua esposa, mesmo separados por doze anos, também amolecia. Ela respondeu ao Reis: “A mim nada fizestes!”.

Todos nós choramos naquele quarto. O câncer da alma, que era o rancor, havia sido vencido!

Reis continuou com suas idas e vindas do interior de Goiás para não mais sua ex-esposa, mas sua esposa. Ele tinha uma casa de comércio noutra cidade e tinha sempre que voltar, mas deixava seu coração sempre com sua mulher. Um dia, o médico nos disse que ela não passaria mais daquela noite. Com o restinho de forças que ainda possuía, deu-nos a entender que não queria morrer sem ver o seu, agora, querido Reis.

Jamais me esquecerei daquela cena num hospital de Goiânia. Iraídes estava já recebendo oxigênio, em coma. Quando o Reis entrou, ele falou aquela palavra mágica: “Iraídes, MEU AMOR, não vai embora sem se despedir de mim!” Iraídes abriu os olhos, fez sinal que queria se sentar. Seus braços esquálidos abraçaram seu esposo. Colocou sua face macilenta pela doença bem encostada no rosto do Reis. E morreu nos braços dele.

Ele ainda ficou muito tempo abraçado a ela, chorando. Ficava se lamentando sobre a demora em voltar para os braços de sua esposa. Ao sair do quarto, para permitir que as enfermeiras preparassem tudo para o enterro, comentou com voz embargada pela emoção (assim eu recordo aproximadamente, pois faz quase vinte e cinco anos que tudo isso aconteceu): “Se eu tivesse deixado minha querida Iraídes partir sem receber o seu perdão e sem perdoá-la também, não sei o que seria da minha vida!”

Perdoar sempre, não é fácil. Então, por que Jesus pediu-nos que perdoássemos setenta vezes sete, sempre que alguém nos ofendesse? É porque o perdão não é só capacidade humana, mas um dom de Deus. É decisão humana, em primeiro lugar. Se você decidir perdoar, Jesus vai lhe ajudar, vai amolecer o seu coração como o do Reis. Você não sabe quanto tempo ainda terá para perdoar quem o ofendeu. Decida agora mesmo pelo perdão, antes que seja tarde demais!

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