Para que o bem seja verdadeiro...

«É totalmente falsa e ilusória a defesa que se faz dos direitos humanos – como, por exemplo, os direitos à saúde, à moradia, ao trabalho, à família e à cultura – se não se defende, com a mesma energia, o direito à vida como primeiro e capital direito, fundamento de todos os outros direitos da pessoa».

Não nego que, ao me deparar com essa afirmação do papa João Paulo II, fiquei bastante preocupado. Por quê? Porque sempre pensei que o verdadeiro cristão é aquele que sabe dialogar com as diversas correntes de pensamento que compõem a sociedade e se dispõe a apoiar quaisquer iniciativas direcionadas ao bem-estar social, cultural e econômico dos povos, independentemente se elas são promovidas por esta ou aquela organização, este ou aquele partido político.

De fato, um famoso escritor latino gostava de repetir: «Nada do que é humano me é estranho». Da mesma forma, onde quer que haja uma necessidade a acudir, uma esperança a suscitar, uma mão a estender, um passo a dar, lá é o lugar do verdadeiro cristão. Mantendo sempre os olhos voltados para Deus, o cristão aprende a amar os irmãos – começando pelos mais necessitados – com o mesmo amor de Deus, um amor simultaneamente paterno e materno, afetivo e efetivo.

Mas o que é que João Paulo II quis dizer com essa afirmação? A meu ver, nada mais nada menos do que isto: o bem só é verdadeiro quando tomado em sua globalidade. Assim, de nada adianta buscar ou proporcionar o bem-estar social, cultural e econômico se, ao mesmo tempo, não se busca ou não se proporciona o bem integral da pessoa humana.

Esta é a diferença entre a ética católica e a ética que promovida por numerosos organismos ou agremiações políticas. Graças à consciência socio-política que um número cada vez maior de pessoas está adquirindo, não são poucos os organismos e partidos – às vezes, porém, mais na teoria do que na prática – que defendem e promovem valores como a liberdade, a educação, o emprego, a moradia, etc. Mas, enquanto eles param por ali, os cristãos fazem um passo a mais, e defendem e promovem também outros valores, que, muitas vezes, não são vistos como tais por esses mesmos organismos e partidos, como o respeito pela vida (em seu início e em seu término), a fidelidade matrimonial, o casamento heterossexual, etc.

Os cristãos fazem essa opção porque sabem que os valores culturais, sociais e econômicos de um povo são realmente tais se estão vinculados a outros valores, mais profundos e universais. Para os que sabem ver, todos os dias a história está a provar que, de nada adianta ter estudo, moradia, dinheiro, carro, fama, etc., se, ao mesmo tempo, não houver outra riqueza, constituída por valores mais “substanciais”, normalmente oferecidas por uma religião bem entendida e melhor ainda praticada.
Por esses e outros motivos, compreende-se facilmente que não é fácil ser cristão.

Quase sempre, como já advertiu o próprio Jesus, ele será “sinal de contradição”. E ninguém gosta de ser esquecido, marginalizado ou perseguido. Sobretudo por pessoas com quem defendeu grandes batalhas…

Mas o Papa é incisivo: «É falso e ilusório defender alguns direitos e, ao mesmo tempo, esquecer ou desprezar outros direitos, tão ou mais importantes que os primeiros». Palavras estas que lembram outras, proferidas por Jesus: «Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro – ou seja, ter moradia, carro, saúde, etc. – se isso prejudicar a sua vida?».

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