Paixão por inteiro

Na Semana Santa celebramos a Paixão do Senhor. A liturgia cristã coloca esta palavra na seqüência de outras, que lhe completam o sentido e lhe dão o contexto vital: Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A partir deste contexto a palavra “paixão” foi recolhendo diversos significados, que permanecem com suas nuances semânticas, mas que acabam convergindo neste mistério maior, vivido por Cristo. Na Semana Santa estes significados se fazem presentes, e dão consistência ao mesmo drama, que continua na humanidade.

Em primeiro lugar, paixão significa sofrimento. É daí que nasceu a palavra, derivada do latim, da caprichosa forma depoente, que não existe em português, do verbo “sofrer”. Para a língua latina, a pessoa que sofre é ao mesmo tempo sujeito ativo e passivo da ação que a envolve. Na experiência de Cristo, o sofrimento humano encontrou sua intensidade mais profunda, sua fecundidade, e seu sentido misterioso. Em Cristo, o sofrimento virou “sagrada paixão”.

A palavra “paixão” passou também a significar a motivação que leva a pessoa a enfrentar o sofrimento, guiada por uma força que a impulsiona a amar sem medida. Então, paixão significa amor, que anima, fascina e leva à entrega total. Foi assim que Jesus amou, como testemunha o Evangelho:. “tendo amado os seus, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). A Paixão do Senhor significa também o amor sem medida de Cristo. Por isto, paixão pode significar um grande amor, que envolve por inteiro uma pessoa.

Mas a intensidade da motivação, que abre o coração para a generosidade do amor, pode também fechar a mente e perverter as intenções, quando as pessoas perdem o equilíbrio e subvertem o sentido da vida. Então a paixão se torna impulso cego, que arruina ativa e passivamente, não só na forma depoente do verbo latino, mas na realidade concreta da existência humana. A paixão cega prejudica o apaixonado e suas vítimas. Então o amor se torna traição, vira ódio, se transmuta em vingança.

É ali que o drama humano se revela na complexidade do seu mistério, e se faz presente no simbolismo da Semana Santa. Ela não é feita só da Paixão de Cristo. Ela revive também a traição, o ódio, a cegueira. A paixão de Cristo é celebrada junto com a paixão cega de Judas, a paixão fanática dos fariseus, e a paixão iludida do povo que votou em Barrabás.

Por isto, na Semana Santa somos chamados a perceber que a PAIXÃO continua. Nossa realidade é hoje uma grande paixão. Paixão dos Povos Indígenas, vítimas da mesma ganância que sacrifica vidas humanas em troca de vis moedas. Paixão dos excluídos e jogados na miséria por um sistema econômico incapaz de perceber a dignidade das pessoas e suas necessidades vitais. Paixão das vítimas das guerras, da violência urbana, da ganância financeira dos Judas engravatados das grandes instituições financeiras. Paixão gananciosa dos traficantes, dos ladrões e dos corruptos. Paixão cega dos assaltantes e dos seqüestradores. Paixão corrompida dos políticos inescrupulosos ou pusilânimes como Pilatos. Paixão tola, iludida e vazia da multidão que se deixa enganar e continua votando nos Barrabás apontados por campanhas astutas e maliciosas.

É na encruzilhada de tantas “paixões”, que o Cristo se coloca, convidando-nos a viver com a mesma paixão com que ele viveu. Com amor profundo, sincero, esclarecido, firme, constante, generoso, capaz de vencer o mal como ele venceu a morte pela força da ressurreição. De tal modo que coloquemos nossa vida a serviço da vida de todos, como ele fez. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos” (Jo 15,13).

A medida verdadeira da existência humana é, de fato, a paixão. Precisamos todos viver com paixão. Mas segundo a sagrada Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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