ORAÇÃO E VIDA CONTEMPLATIVA

O chamado para a oração contemplativa – ou seja, para oração na qual nós fazemos cada vez menos e Deus faz cada vez mais para uma experiência de Deus que não é fundamentalmente o resultado de nosso próprio trabalho no poço da meditação, mas cada vez mais, a misteriosa gratuidade de Deus – é feito para muitos, talvez muitos daqueles que buscam seriamente o Senhor. Entretanto, ao mesmo tempo, são chamados a viver “no mundo”. A chamada, de certo modo rara para a vida numa comunidade contemplativa, parece ser um sacramento, um sinal, um lembrete para a Igreja quanto ao chamado universal de todos os homens e mulheres para conhecerem Deus na oração: “Ora, a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo”.(Jo 17,3).

A vida eterna é “conhecer Deus”. O chamado para a oração contemplativa é o convite do Senhor para iniciar a vida eterna agora e não esperar até que morramos. Este convite é o âmago e o significado da vocação de Maria, daqueles chamados para a vida numa comunidade “contemplativa”. Contudo, em sua bondade, o convite também é dado a muitos que são Marta, e eles são defrontados com a tarefa muito mais desafiadora de ser tanto Maria quanto Marta na vida: de se “ocupar com muitas coisas” para o bem do Senhor e, todavia, ao mesmo tempo, permitir que suas vidas sejam centradas na “única coisa necessária, que Maria descobriu.’ (Lc 10,38-42)

Estas são, por conseguinte, não apenas as Marias e Martas da Igreja, mas também as Martas – Marias. Na verdade, eu suspeitaria que Marta tivesse pouca chance de ser verdadeiramente feliz na casa do Senhor a não ser que descobrisse que seu nome intermediário fosse Maria.

A alegria de vivenciar Deus em oração não é um fim em si mesmo, mas é a água por meio da qual as virtudes são fortalecidas e trazidas ao florescimento completo.
Quando Pedro viu o Senhor transfigurado na montanha sagrada, não pode construir três tendas e permanecer lá para sempre e esquecer o rosto dos apóstolos. E quando Maria Madalena encontrou o Senhor no jardim, na manhã de Páscoa, não conseguiu unir-se a Ele para sempre, precisou voltar à cidade, para o centro de sua vida, a fim de partilhar com os discípulos o Senhor que ela encontrara (Mc 9,2-13 e Jo 20,11-18, respectivamente).

As experiências do Senhor, de Pedro e Madalena precisaram levar à ação, precisaram mudar alguma coisa em suas próprias vidas e na vida da Igreja.
Ocorre o mesmo conosco. Não importa quão bela e comovente possa ser nossa experiência de Deus na oração, sempre deve ser suspeita se não conduzir a bons resultados em nossas vidas.

A própria Teresa de Jesus foi a fundadora de uma comunidade reformada de irmãs contemplativas enclausuradas. Temos tendência a pensar que a vida enclausurada significa entregar toda a vida da pessoa à oração; mas Teresa de Jesus não pensa assim. Ela insiste em que, até mesmo para os contemplativos, a água é para as flores (virtudes). Na verdade, ela suspeita bastante de uma vida de oração centrada demais em si mesmo. Ela aconselha aos superiores que, se tiverem uma irmã que esteja tendo visões ou outros fenômenos não comuns, deverão dar-lhe trabalho extra na cozinha! Isso, afirma Teresa de Jesus, cuidará das maiorias das visões. A vida autêntica de oração diz Teresa De Jesus é marcada pelo crescimento na fé, na esperança e no amor:

Uma fé que não consiste meramente em palavras, mas numa aceitação viva da cruz, da Eucaristia, de todo o caminho de Jesus para ver o mundo; uma esperança baseada em nossa experiência de Deus que nos capacita a acreditar na vitória do Senhor, em nós e no mundo, mesmo diante dos defeitos e falhas humanas; e um amor que veja todas as coisas e todos os homens, até mesmo nosso “inimigo”, com os olhos de Deus e os trate de acordo com isso. Essas em resumo são as flores do jardim do Senhor (virtudes). A água da oração é para elas. Se forem prósperas e estiverem florescendo, nossa vida de oração é bastante autêntica – mesmo se parecer não haver água de modo algum.
Hoje o mundo tem fome de Amor e faz a propaganda da busca de prazer e de poder para saciar o ser humano. Em decorrência disto, vivemos sob o jugo da escravidão do corpo, da beleza física e da moda. Somos uma sociedade hedonista, buscando a salvação do desamor em deuses falsos.

Portanto, cada cristão deve assumir a sua missão evangelizadora, que exige exemplo de vida. A vida religiosa é um caminho entre tantos que nos levam para Deus, não é nem o melhor e nem o pior. Ele é ótimo, bom para os que sentem chamados a este estilo de vida, e não é bom para os que não percebem em sua vida outros chamados.
A hora dos leigos em que vivemos é um momento propício para que estes assumam dentro da Igreja o próprio lugar evangelizador.

Eduardo Rocha Quintella
Fraternidade S. J. da Cruz OCDS-BH Adorador Noturno Boa Viagem
E-mail: eduardoquintella@superig.com.br fone: (0xx31) 3486-8507- Belo Horizonte MG

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