Jesus de nossa fé (I)

Os Evangelhos, todos eles, registram uma intenção maior que aparece em todas as suas páginas: mostrar quem era Jesus… Empenharam-se em mostrar, sobretudo, que Jesus era o Verbo Eterno, o Filho Unigênito de Deus que assumiu uma natureza humana.

Por mais que Jesus fosse um homem perfeito, um homem maravilhoso, cheio de qualidades humanas, o que iria fazer entender, em definitivo, quem era ele, seria o fato maior, o de ser Filho de Deus. Tudo o mais, em Jesus, só poderia ser cabalmente entendido nessa perspectiva.

Com efeito, a identidade de qualquer coisa é evidenciada pelo seu lado mais nobre, mais alto, mais decisivo e determinante. Por isso, o que é primeiro e determinante é quem dá sentido a tudo mais. O determinado tem sua importância, mas não é o que caracteriza a coisa. Assim, a natureza humana de Jesus é de absoluta importância. Por ela, o Verbo se fez nosso Salvador. Mas, o imenso valor, o inaudito, não consiste em que o homem Jesus seja perfeito, maravilhosamente humano, mas consiste em que o Verbo Eterno, o Filho de Deus se tenha feito homem. João não disse que o homem se fez Verbo Eterno, mas disse que o Verbo se fez homem.

Hoje em dia, com o fascínio que o humanismo veio exercendo sobre toda a cultura, acredita-se que o importante seria evidenciar o humano. Todo o movimento filosófico dos últimos séculos constituiu-se num imenso esforço por endeusar o homem, o humano.

Entretanto, a intenção maior dos evangelistas foi de evidenciar a encarnação do Verbo, do Filho de Deus. São Mateus começa o Evangelho, é verdade, mostrando a descendência humana de Jesus. Para logo, entretanto, registra sua verdadeira e estupenda descendência divina: “… o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados…” (Mt 1,20-21).

Marcos é incisivo: “Princípio da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1).Também com Marcos, em todo o Evangelho, só faz mostrar a origem divina de Jesus. Sobre o fim do Evangelho, registra o testemunho do oficial romano, como se fosse a conclusão de tudo o que escrevera anteriormente: “O centurião que estava diante de Jesus, ao ver que ele tinha expirado assim, disse: ‘Este homem era realmente o Filho de Deus’” (Mc 15,39).

Lucas, por sua vez, empreende relatar pormenorizadamente os acontecimentos, a fim de que seu amigo Teófilo “conheça a solidez daqueles ensinamentos que ele tinha recebido” (Lc 1,3-4). A solidez diz respeito à fé, de vez que o sentido bíblico de fé é precisamente solidez, firmeza. Pois, tratava-se precisamente “do ente santo que nasceria de Maria e seria chamado de Filho de Deus” (Lc 1,35).

João, o evangelista teólogo, não deixa dúvidas. Começa com a origem eterna do Verbo, porque é disso mesmo que se tratava: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…” (Jo 1,1,14). Entre os evangelistas foi quem mais pôs em destaque a identidade divina de Jesus.

Diante de tudo isso, a grande, a imensa pergunta, a maior pergunta de todos os tempos é aquela que Jesus fez aos discípulos: “… quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15).

E a maior resposta de todas quantos foram dadas, foi a de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Tão grande foi a resposta que superava de muito todas as possibilidades humanas de Pedro e de toda a humanidade. Ninguém poderia ter forjado, sequer imaginado, uma resposta semelhante. Ela veio simplesmente do Pai. Não tivesse vindo do Pai, Pedro nada teria respondido, ou, na melhor das hipóteses, teria respondido que Jesus era o melhor amigo. Mas não. Jesus lhe disse donde lhe viera tal resposta: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue quem te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17).

Essa é a solidez da fé das primeiras comunidades cristãs que, hoje, importa, mais que nunca, revigorar novamente entre os cristãos, pois, trata-se da solidez do próprio fundamento último da vida cristã.

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