Ir à missa com o dicionário

São muitos os motivos porque amo Jesus. Vamos só enumerar alguns que nos ajudam a compreender melhor a beleza da nossa fé: salvador que veio para nos doar novamente a plena amizade com Deus, amigo que caminha conosco e carrega os nossos sofrimentos, mestre que nos ensina a ir ao Pai por um caminho novo que é ele mesmo – “eu sou o caminho, a verdade e a vida” – filho de Deus que se revestindo com a nossa carne nos revela o rosto de Deus e nos ensina a chamá-lo de Pai, Guia seguro que nos indica o caminho a seguir sem medo, porque Ele vai à frente e venceu o mundo, Presença viva nas noites escuras – Ele repete constantemente aos nossos ouvidos “sou eu, coragem, não tenhais medo!”.

Mas uma característica que cada vez mais aprecio em Jesus é a sua simplicidade em falar com uma linguagem do povo de realidades tão altas e sublimes, que nos deixa maravilhados. Não precisa explicar uma palavra dita aos iniciados, nem diz coisas reservadas a poucos, mas todos os seus ouvintes, acostumados a trabalhar no campo ou no mar, entendiam-no perfeitamente. Não era possível não compreender a parábola dos vinhateiros, aquela gente que lidava o tempo todo com videiras e sabia quanto era duro e difícil chegar a ter uma uva boa e depois transformá-la num copo de vinho dos melhores da Galiléia. Ou quem não entendia a parábola da semente que uma vez lançada na terra, mesmo que o semeador esteja acordado ou dormindo ela, pela força própria, vai nascer, crescer e dar seu fruto? Ou quando Jesus falava na beira-mar, circundado por pescadores, sabia recorrer à linguagem da pesca e todos ficavam boquiabertos com tamanha sabedoria.

Era este o jeito de Jesus e a preocupação dele: fazer-se entender por todos e que todos voltassem para casa com uma mensagem nova, animadora, para enfrentar a vida. Mesmo quando Jesus devia falar de “mistérios”, coisas altas e profundas, ele tinha em si mesmo a arte de simplificar o mesmo mistério sem perder a profundidade. Queria falar do Espírito Santo para aquela cabeça dura e fechada na sua mentalidade que era Nicodemos e Jesus recorre ao vento que sopra, nós o percebemos, mas não sabemos de onde vem e para onde vai. Este vento novo é o Espírito Santo e Nicodemos, com um pouco de esforço, não porque era difícil o falar de Jesus, mas porque ele não queria compreender, chega à conclusão que é necessário nascer de novo para ser de Jesus.

Ou quando ele quer falar do perdão alegre, jubiloso do Pai aos pecadores, ele o faz com o toque delicado e comovedor de três parábolas: a ovelha perdida que o pastor ama tanto até o ponto de deixar as noventa e nove e correr por montes e vales até que a encontre e faz uma grande festa; ou o dinheirinho suado e perdido que a mulher para reencontrá-lo revira a casa e quando o encontra convida a todas as amigas para dar a notícia e fazer festa; e fecha esta teologia do perdão com a parábola que está na boca de todos e no coração dos mais empedernidos no pecado, do filho que é recebido como um herói em casa pelo pai, porque depois de ter gastado tudo, volta à casa paterna. Não é prêmio porque pecou e fez besteiras por aí, mas porque não só se envergonhou dos pecados e da malandragem, mas voltou pedindo perdão. Jesus tem este jeito de dizer tudo para nos fazer entender. Dá gosto ler o evangelho. Ninguém dorme, ninguém se cansa e ninguém necessita de dicionário para compreender.

Mas as coisas andam diferentes hoje em dia, quando muitos de nós, Padres, abrem a boca na igreja, provoca quase os fiéis a levar o dicionário para a igreja, para compreender o que o Padre diz. Aliás, dizer “linguagem de padre” já é dizer que são coisas difíceis. Mas às vezes nós, Padres, caprichamos para que ninguém nos entenda e por cima achamos que temos razão e que é o povo que deve estudar mais para conhecer melhor, os segredo da fé.

Um dia, fui à missa e a pregação do Padre foi uma autêntica enxurrada de palavras difíceis. Eram palavras postas em hebraico e em grego que era uma autêntica festa folclórica de palavras. Eu quase não compreendia nada, mas isto é normal, dada a minha pobre e pouca cultura, imagino os outros. Era uma aula de teologia bíblica para os doutores.

Mas afinal quais palavras são difíceis e que deveriam não ser usadas? Será que o nosso povo e a maioria de nós, sabe o que é parusia, escatologia, kenose, parresia… e tantas outras palavras que entraram o linguajar de hoje e nas pregações? Duvido. Eu, às vezes, nem sei direito e devo recorrer ao dicionário para ver se consigo compreender algo do que quer dizer. O povo não merece ser colocado a duro esforço lingüístico. Devemos todos nós voltar às aulas com Cristo Jesus e aprender de novo a linguagem simples do dia.

Quem sabe reinventar parábolas a partir do computador, de música, de tecnologia que está na compreensão de todos, microondas, fogão, carros e motores, e futebol. O evangelho é sempre vivo, mas necessita ser encarnado no dia a dia. O que importa é deixar intacto o conteúdo da mensagem da palavra de Deus. O resto deve ser apresentado com palavras novas que fazem parte do nosso comportamento. Dizem os estudiosos que Jesus, em todo o evangelho, não usa nem 500 palavras diferentes. Para nos fazer compreender pelos outros não é necessário recorrer a palavras difíceis.

Um dia uma mulher “simplesinha”, dizia: “frei, eu gosto dos seus livros, porque o senhor não diz muitas coisas, mas usa palavras que todos nós entendemos, assim que é bom. Há gente por aí que diz muitas coisas, mas ninguém entende nada”. Contam que, um dia, São João Bosco preparou uma homilia maravilhosa e foi ler para sua mãe Margarita, que estava trabalhando no fogão. Depois que terminou de ler João Bosco perguntou para a mãe: “a senhora, o que achou da minha pregação?” E a mãe, Margarita, sem papas na língua, respondeu para o filho: “meu filho, porque tu não falas como tua mãe te ensinou e que todo mundo entende?”

E um dia que eu disse à minha mãe, Domênica, que me tinha ensinado a rezar o terço em latim: “mãe, o seu latim está todo errado”. Ela, com sua resposta rápida, não duvidou em dizer: “meu filho, você fica com o seu latim certo e sua mãe fica com a sua fé”. Nunca mais perguntei nada e compreendi que, quando falamos, é para fazer-nos entender por aqueles que estão na nossa frente, quer sejam doutores ou analfabetos. Esta é a sabedoria de Jesus e deve ser a sabedoria de todo evangelizador.

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